Percalços e surpresas a 5 mil metros

Rota de 240 quilômetros para chegar até Throng La é desgastante. Mas compensa o desafio

David Lahuta, The New York Times

06 Outubro 2009 | 01h24

Antes mesmo de começar a caminhada rumo a Thorong La, incrível montanha de 5.416 metros no Nepal, o já corpo mostra bem os efeitos da altitude. A pouco mais de 3 mil metros, dor de cabeça e enjoo sinalizam que será preciso mais que preparo físico para vencer os 240 quilômetros do Circuito Annapurna, no Himalaia.

 

ÚLTIMA PARADA - Às 4h30, viajantes partem de Throng Phedi rumo ao trecho de encostas íngremes que encerra a caminhada

Cheguei a Katmandu uma semana antes de dar início ao trekking. A diária em um hostel simples custou US$ 12 (R$ 21) e foi lá mesmo que comprei o superfaturado bilhete aéreo que me levaria até o ponto de partida dessa aventura.

Depois de passar a noite em Pokhara, uma das maiores cidades do Nepal, segui em um pequeno avião de oito lugares até Humde, área de pouso a três horas de caminhada de Manang, a 3.540 metros de altitude. Pequenina e autossuficiente, Manang serve como ponto de aclimatação para trekkers. Para rumar a altitudes pouco amistosas, é preciso deixar o corpo se acostumar com o ar rarefeito por, pelo menos, dois dias.

Entre cabanas de pedra, construções de barro, padarias e lojas de conveniência, a cidadezinha esconde surpresas. Inesperadamente, lá estão três cinemas improvisados, com bancos cobertos por peles de animais. Um deles tem apenas um projetor e cobra 200 rupias (menos de R$ 6) pela entrada - e o valor ainda inclui pipoca. Outro oferece só uma TV pelo preço de 100 rupias (R$ 3). Ali, filmes de terror e de desastres de escaladas são comuns.

De Manang partimos para Yak Kharka, vilarejo a 4.018 metros de altitude com quatro pousadinhas. Os quartos custam US$ 5 (R$ 9) por noite e são bem rústicos, com apenas um colchão de cinco centímetros sobre um estribo de madeira. Em compensação, a vista das montanhas é espetacular.

Mais quatro horas de caminhada separam Yak Kharka de Thorong Phedi, a última parada antes de Thorong La. Com o aumento da altitude, dormir fica cada vez mais difícil.

A partida no dia seguinte seria cedo, por volta das 4h30. Medida necessária, segundo os guias, para evitar os fortes ventos que podem derrubar uma pessoa montanha abaixo. Nessa escuridão tamanha, só é possível identificar o brilho das estrelas sobre a montanha. Por isso, capacetes com luzes ou mesmo lanternas são fundamentais para prosseguir.

Subir a encosta é o mais trabalhoso. Andar em zigue-zague ajuda a vencer o caminho íngreme, explicam os guias. A dificuldade é ainda maior por causa das temperaturas abaixo dos 10 graus negativos e dos 18 quilos de peso da mochila. Há trechos largos apenas o suficiente para colocar os dois pés no chão e, algumas vezes, você tem a impressão de não sair do lugar.

Caminhávamos há duas horas quando o sol finalmente surgiu. O contorno da luz nas montanhas deixa mais evidente a imensidão do local que se quer conquistar. Vez ou outra, a altitude prega peças nos turistas, que veem falsos horizontes.

A saída nessas horas é se concentrar, manter os olhos fixos no chão e seguir viagem. Em certos momentos, até beber água pode ser sinônimo de dificuldade: não é raro as garrafinhas congelarem.

Quando achei que não conseguiria mais continuar, chegamos a uma revigorante casa de chá. O espaço pequeno, onde mal cabia o fogão a lenha, era suficiente para ajudar os trekkers exaustos a recuperarem as forças.

ÊXITO

Ao fim de cinco horas de extenuante caminhada, atingimos nosso objetivo: Thorong La. A vista é incrível. Céu azul e montanhas pontilhadas de bandeiras coloridas, onde outros trekkers marcaram seu êxito. E um pouco mais à frente já se vê outra casa de chá.

Percebi que seria impossível registrar pela câmera a imensidão do entorno. E me deixei inspirar pela quietude e paz daquele lugar.

 

CIRCUITO ANNAPURNA

Para completar a trilha de 240 quilômetros com sucesso, fique atento a alguns detalhes:

linkMelhor época: durante quase todo o ano é possível fazer o circuito, exceto nos meses de junho, julho e dezembro

linkSem ar: na região de Annapurna o ar é rarefeito. Em Thorong La, a 5.416 metros de altura, a porcentagem de oxigênio é de 57%

linkMal de altitude: dor de cabeça, náusea, falta de ar e dificuldade para dormir são sintomas comuns

linkEmpecilhos: fatores como clima e disponibilidade de pousadas e campings, além da falta de água, podem inviabilizar o percurso

linkMeio ambiente: evite utilizar sacos plásticos durante o percurso, pois não há coleta de materiais recicláveis nas montanhas

linkTrajes: roupas e luvas à prova d’água são essenciais

linkCuidados com o sol: apesar do frio, o sol queima muito na altitude. Tenha sempre à mão protetor solar e boné

 

PACOTES*

linkUS$ 4.170: 12 noites (1 em Délhi, 4 em Katmandu, 1 em Nagarkot, 2 em Pokhara e 4 em acampamento). Café, pensão completa durante o trekking, guia em inglês e carregador. Na CiaEco (0--11- 5571-2525; www.ciaeco.tur.br)

linkUS$ 5.160: 22 noites (2 em Délhi, 4 em Katmandu, 1 em Nagarkot e 15 em acampamento). Café, pensão completa durante o trekking, guia em inglês e carregador. Na Venturas & Aventuras (0--11-3872-0362; www.venturas.com.br)

linkUS$ 5.190: 15 noites (1 em Délhi, 4 em Katmandu e 10 em acampamento). Café e pensão completa durante o trekking. Com guia em inglês. Na Highland (0--11-3254-4999; www.highland.com.br)

  

* Preços por pessoa em quarto duplo, com aéreo

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