Karsten Moran/NYT
Karsten Moran/NYT

Percorrendo a história natural

Esquecer não há de ser possível - e nem desejável

Bruna Toni, O Estado de S.Paulo

25 Setembro 2018 | 04h20

Foi debaixo do sol quente, daqueles que só quem já passou pelo Pará sabe, que avistei a faixa preta pendurada do teto ao chão. Ela anunciava “luto” em letras brancas no fundo preto. Anunciava também meu ponto de chegada: o Museu Paraense Emílio Goeldi

 O luto rápido se explica. A memória é recente, assim como a faixa. E tão prontamente as imagens do fogo consumindo sala após sala do Museu Nacional voltaram à minha cabeça que, sabia bem, ainda se haveria de falar muito sobre ele. 

Apesar do protesto no Emílio Goeldi e de tantas pessoas à época, os dias passados desde a ocorrência do incêndio, em 2 de setembro último, trouxeram o apaziguamento do assunto. É natural. As pautas da semana mudam – em tempos eleitorais, então... – e até o luto uma hora vai embora. 

Esquecer, contudo, não há de ser possível, sequer desejável. Como escrevi um dia depois do incêndio, numa coluna especial  para o Viagem, o que perdemos no Museu Nacional não só dizia respeito ao que fomos no passado. Diz e diria ainda muito sobre o que somos hoje, sobre o que seremos no futuro. Sem entender a continuidade da vida humana e do meio que a cerca, será difícil irmos a qualquer lugar.

E por quê? Parte da resposta está nas ciências naturais. Estava no Museu Nacional e se perdeu quase que por completo – ao que já se sabe, salvaram-se as coleções de invertebrados, de botânica e o mais antigo meteorito brasileiro, Bendegó. 

Felizmente, porém, a resposta está também noutras instituições de pesquisa e exposição que se dedicam a procurar, estudar e contar à sociedade a tão fascinante história natural do universo e de seus microcosmos. 

Depois do incêndio, da faixa e, sobretudo, de ter acabado de visitar o Museu Emílio Goeldi em Belém, de onde lhes escrevo, resgatei outros lugares onde a história natural é protagonista. Lugares com diferentes propostas e focos de pesquisa, mas riquíssimos em conhecimento acumulado. 

Museu Natural dos EUA

American Museum of National History é um dos mais famosos. Pude visitá-lo no ano passado, em Nova York. Enorme – são 125 milhões de itens –, é difícil ver todo seu acervo em um só dia. Há pessoas de todas as idades, de todos os lugares, que se encantam diante dos animais empalhados em cenários fictícios, que reproduzem o que seria o hábitat da figura em questão (ou das ossadas). Eu, no entanto, passei mais tempo analisando trajes e objetos de grupos indígenas do norte. 

Museu Paraense Emílio Goeldi

A poucos quarteirões da Basílica de Nossa Senhora de Nazaré, o Emílio Goeldi foi fundado em 1866 pelo naturalista Domingos Penna e estruturado pelo zoólogo suíço Emil August Goeldi – no Pará, acabou tendo o nome aportuguesado. Ocupa 5,2 hectares num espaço que antigamente era chamado de rocinha, casas de descanso em meio à mata da floresta, comuns na Belém se outros tempos. Além da exposição que começa com o surgimento da Terra e leva à Amazônia do período antropoceno (o atual), exibe mostra temporária sobre o povo indígena Mebêngôkre-Kayapó. Do lado de fora, há um parque ecológico com 2 mil plantas e 2 mil animais, alguns deles em risco de extinção (como a onça pintada), que podem ser vistos em espaços nem sempre ideais. 

Museu Natural de Valparaíso

Foi um achado em meio a uma caminhada descompromissada pela cidade chilena, a 120 quilômetros de Santiago – vale a passagem por ela, que guarda também uma das casas do poeta Pablo Neruda. Localizado num bonito e conservado edifício, é o  Museu Natural de Valparaíso é o segundo museu mais antigo do país (foi criado em 1858) e abriga uma coleção dividida entre a arqueologia e a de ciências naturais, distribuída em salas onde o aprendizado é interativo.

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