Peripécias de uma principiante cheia de medos

Foi ainda na sala de aluguel de equipamentos, enquanto um funcionário me ajudava a colocar as botas de esqui, que uma gargalhada contida saiu pela minha boca. Não era um riso de empolgação, por estar prestes a esquiar pela primeira vez na vida. Era nervosismo. Pânico. Desespero. E um autoquestionamento constante: "O que é que você está fazendo aqui, Marina?". Sim, porque uma pessoa esquiar pela primeira vez é sempre um desafio, claro. Mas uma pessoa que tem medo de altura, de velocidade, que nunca conseguiu andar de bicicleta ou de patins, e que nem sequer dava cambalhotas na infância (!)... Ah, aí as coisas ficam um pouco mais complicadas. À parte meu relacionamento distante com a adrenalina, faltava-me ainda força nos braços para carregar os esquis até o ponto de encontro das aulas. E coordenação para caminhar na neve com aquelas botas, que me pareciam bigornas amarradas aos pés.

Cenário: Marina Vaz, O Estado de S.Paulo

24 Julho 2012 | 03h13

Encaixar as botas nos esquis, estando na neve, também não foi tarefa fácil. O pé já encaixado deslizava na neve e, sem equilíbrio ou controle sobre ele, não conseguia erguer o outro pé para colocar o esqui que faltava. Quando finalmente consegui, o professor pediu para treinarmos a retirada dos esquis. Retirada? Depois de todo aquele esforço para colocá-los? E minha saga recomeçava. Nos primeiros exercícios (de caminhar, girar em torno de si mesma e subir pequenos aclives), vi meus colegas de turma fazerem tudo duas, três, quatro vezes, enquanto eu mal conseguia finalizar a primeira tentativa. Exercício de humildade, concentração e de não-me-importar-com-que-os-outros-estão-pensando. Fazia tudo no meu ritmo - um ritmo devagar demais.

Ao ficar diante da esteira rolante que nos levaria ao ponto dos primeiros exercícios de descida, não havia frio ou vento que me impedisse de suar dentro daquelas roupas impermeáveis. Mais tarde, uma colega observou: naquele momento, meu rosto estava mais branco do que a neve. Eu acredito. E pior do que ser ultrapassada por crianças de 5 ou 6 anos, era ser recepcionada na esteira por coelhinhos e hipopótamos sorridentes, pintados em placas de madeira. Sorriso que eu não conseguia estampar em meu rosto nem se quisesse. E, então, tomei meu primeiro tombo (o primeiro de muitos, claro). E o professor me acalmou: "Isso é o pior que pode lhe acontecer". E aí eu percebi que o "pior" não era tão ruim assim. E que qualquer hematoma que eu pudesse levar daquela viagem tinha um quê de libertação.

No segundo dia, meus colegas foram para a pista intermediária (leia-se: sem figuras infantis, como as do El Corralito, ao lado, onde permaneci). Outro instrutor foi escalado para me dar uma aula particular. Antes de começar os treinos, ele me perguntou que atividade eu gostava de fazer. "Dançar", respondi. Então, ele passou a associar os fundamentos do esqui com os da dança. E, de repente, lá estava eu "dançando" com botas que pesavam mais do que sapatilhas, e num piso bem mais frio do que os tablados de madeira. Os que me viam de longe - aproximando e afastando as pernas para fazer o movimento mais básico do esqui, a cuña (um "V" com os pés, para parar de deslizar), e treinando curvas em torno de cones, que, vira e mexe, eram derrubados - podiam até achar que o que eu estava fazendo era pouco. Mas o importante não era o que eu estava fazendo, mas como eu estava fazendo: estava me divertindo ao esquiar. Algo que, um dia antes, me pareceu impensável. / M.V.

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