Guga Matos
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Pernambuco celebra centenário de bonecões gigantes neste carnaval

Primeiro personagem gigante, Zé Pereira faz 100 anos e ganha festa no centro do Recife; Olinda também brilha com blocos clássicos

Juliana Mazzaroba, O Estado de S. Paulo

04 de março de 2019 | 12h08

RECIFE - No fim de tarde da quinta-feira de pré-carnaval, na foz do Rio Capibaribe e ao som de uma orquestra de frevo, rodeado de convidados como caiporas, caretas, papangus, caboclos de lança, passistas de frevo e caboclinhos, Zé Pereira comemorou seu centésimo aniversário. Foi um dos grandes momentos do carnaval de Pernambuco deste 2019: é ele o primeiro boneco gigante, pioneiro da longa linhagem dos “bonecões de Olinda”.

Zé desembarcou no Recife depois de mais de duas semanas de uma viagem de barco que começou no dia 10 de fevereiro em sua cidade natal, Belém do São Francisco, a 480 quilômetros da capital pernambucana. Veio acompanhado de Vitalina, sua fiel companheira, e foi recepcionado por outros 25 bonecos gigantes, além do público, que cantou e dançou ao som de marchinhas e frevo no vão livre do Museu Cais do Sertão.

Pai de todos os bonecos gigantes do carnaval pernambucano, o boneco centenário é fruto da imaginação de Gumercindo Pires, que se inspirou nas histórias do padre belga Norberto Phallampin. O vigário celebrava missas em Belém do São Francisco e contava ao povo o hábito de se usar bonecos gigantes em seu país para atrair pessoas à igreja. Mais interessado em carnaval do que em missas, contudo, Gumercindo criou então o seu próprio boneco para a festa, usando papel machê para o rosto e madeira para o corpo.

Conta-se que Zé Pereira fez sucesso desde sua primeira aparição, mudando o cenário da folia. Gumercindo logo achou que ele precisava de uma companheira e criou Vitalina. Eles se casaram em uma cerimônia organizada pela população, com direito a padre, convidados e comilança.

ANÔNIMOS 

Zé e Vitalina chegaram à festa no centro do Recife em trajes especiais, em tons de azul royal, verde, vermelho e amarelo, as cores da bandeira do Estado de Pernambuco. Estavam estilosos e mais leves: a estrutura, agora, é de fibra de vidro e argila. Sorte dos carregadores de bonecos, estrelas anônimas na festa.

Uma dessas estrelas é Pedro Garrido da Silva, que carrega na cabeça, há 31 anos, o segundo boneco mais tradicional do carnaval do Estado. O Homem da Meia-Noite é figura certa nas ladeiras olindenses desde 1932. Todos os anos, à meia-noite de domingo, as portas do Clube de Alegoria e Crítica se abrem para dar passagem ao gigante de cartola, gravata, dente de ouro e cavanhaque, vestido num fraque trabalhado à mão nas cores prata e verde.

E ele é mais que um boneco: é considerado um calunga, entidade sagrada do candomblé. Em 1967, ganhou companheira, a Mulher do Dia, que desfila todo domingo de carnaval a partir da Academia de Jorge Federal, na Rua das Quintas.

Com 3,40 metro de altura, a Monalisa de Olinda, como é chamada pelos moradores da Cidade Alta, gasta 24 metros de tecido para fazer o seu vestido. Ela andou sumida durante 15 carnavais, e houve rumores de que tinha se separado do Homem da Meia-Noite. Pura intriga: o que aconteceu foi que os recursos para sua necessária restauração só recentemente foram liberados pela prefeitura. E só em 2018 a Mulher do Dia conseguiu voltar às ruas.

Do casamento do Homem da Meia-Noite com a Mulher do Dia nasceu, em 1974, o Menino da Tarde, que desfila no sábado e é criação de Silvio Botelho, artesão que já produziu mais de 1.500 personagens e idealizou o Encontro dos Bonecos Gigantes, sempre nas terças de carnaval (leia mais abaixo).

OS CLÁSSICOS

Galo da Madrugada

Onde: Recife

Quando: sábado 

Abre o carnaval do Recife no sábado de manhã, lotando as ruas do centro – este ano foram 2 milhões de pessoas. É considerado o maior bloco de carnaval do mundo e dura 8 horas.

Eu Acho é Pouco

Onde: Olinda

Quando: sábado e terça-feira

Os desfiles partem do Mosteiro de São Bento e arrastam foliões de amarelo e vermelho atrás do dragão, símbolo do bloco. Existe desde 1976 e tem pegada crítica.

Encontro dos Bonecos Gigantes

Onde: Olinda

Quando: terça-feira

Gonzagão, Lampião, Alceu Valença e artistas e políticos que foram destaque no último ano – caso de Jair e Michele Bolsonaro – estão no desfile de mais de 100 bonecos. 

Enquanto Isso na Sala de Justiça

Onde: Olinda

Quando: domingo

O público capricha nas fantasias de super-heróis – este foi o ano do Pantera Negra –, e as acrobacias de quem se pendura em prédios torna o desfile ainda mais incrível. 

Site oficialcarnaval.olinda.pe.gov.br.

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