Pérola imersa no Índico

Remota e exclusiva, a minúscula Ilha Maurício esbanja beleza na terra e no mar

Seth Sherwood/THE NEW YORK TIMES,

23 Novembro 2010 | 09h28

 

 

 

 

 

Uma rajada de vento quente soprava na cidade colonial francesa de Mahebourg, entre colinas e verdes campos de cana-de-açúcar. Carregava o cheiro de vegetação úmida, resultado de uma típica manhã de sol e chuva, e ondulava as águas do Oceano Índico em torno do nosso barco.

 

Naquele ponto, meu instrutor de mergulho, o nativo Hans Nobin, desligou o motor. Perto, barcos com fundo de vidro levavam grupos de endinheirados turistas europeus munidos com equipamentos de snorkeling. Como eu, estavam ali para aproveitar a melhor época do ano para admirar as estonteantes barreiras de corais da Ilha Maurício. Entre novembro e abril, as águas estão ainda mais transparentes.

 

Ancorados perto da praia de Blue Bay, nos jogamos de costas no mar e afundamos em meio ao silêncio. Nobin me guiou por extensas ramificações de corais e anêmonas. Sacou um pedaço de pão e peixes em matizes brilhantes surgiram de todas as direções para beliscá-lo. Tudo ao redor formava uma nuvem policromática em movimento.

 

Imerso na água morna que filtrava a luz do sol, o instrutor se virou na minha direção e sinalizou um "ok". Uma resposta acurada parecia algo impossível – como eu poderia dizer "sim, isto é a tradução do sublime"? Como mostrar, por meio de gestos, que eu gostaria de ficar lá embaixo por uma semana?

Respondi apenas com um enfático "ok".

 

Exclusiva. Distante, isolada e cheia de encantos tropicais – ciclo climático perfeito, areias finas como talco, águas cristalinas, campos arroxeados de lichias, locais para mergulho de primeira linha, rum e plantações de chá – a Ilha Maurício, chamada de pérola do Oceano Índico, foi por décadas um dos segredos mais bem guardados das elites do planeta.

 

Antiga colônia de holandeses, franceses e britânicos, é a nação mais distante da África, um ponto de rocha vulcânica a mais de 1.900 quilômetros a leste do continente. A partir do fim do século 20, essa característica remota, combinada às belezas naturais, atraiu celebridades, poderosos e resorts cinco-estrelas, como One&Only, Hyatt, Oberoi e Movenpick. O príncipe William, da Grã-Bretanha, a princesa Stephanie, de Mônaco, a escritora J.K. Rowling e o ator Robert de Niro foram vistos na ilha nos anos recentes.

 

Medidas oficiais garantiram a percepção de exclusividade. Algumas simples, como cercar de cordões de veludo a pista do aeroporto, outras complexas, como restringir a poucas empresas – Air Mauritius, British Airways e Air France – a permissão para voar até lá. Uma forma de manter os preços das passagens nas alturas e a ilha, por consequência, como refúgio para ricos.

 

Mas os ventos estão mudando. Em 2006, as barreiras aéreas afrouxaram. Mais companhias, como Eurofly e Virgin Atlantic, começaram a voar para lá. Redes hoteleiras top de linha chegaram: Four Seasons, InterContinental e Starwood.

 

Mas não estão sozinhas. Opções de hospedagem como o Anari, em Flic en Flac, se estabeleceram também, de olho nos viajantes cujos objetivos não incluem despistar os paparazzi.

 

Foi neste clima de novidade que decidi descobrir a ilha. As praias glamourosas, os corais submersos, a movimentada capital, as pequenas cidades e o menos visitado interior. Além da curiosidade, levei na bagagem duas perguntas: seria possível desbravar Maurício sem gastar fortunas? O que havia naquele paraíso além do mundo badalado dos jet setters?

 

 

 

O endereço mais sagrado do país

Cerca de metade da população da Ilha Maurício (um total de 1,3 milhão de pessoas) se declara hindu. Mas as minorias cristã e muçulmana são toleradas, bem como o budismo. A boa convivência religiosa estende-se a aproveitar os feriados de outras crenças. A ponto de famílias hindus celebrarem o Natal com presentes e árvores.

 

Em uma viagem pelo interior, fica fácil ver a estrada pontuada por templos. O motorista de táxi Raja Bapamah explica como reconhecê-los. Os hindus são vermelhos e brancos. Os tamis, multicoloridos, com elaboradas divindades e animais esculpidos. As mesquitas são brancas e verdes.

 

A estátua de uma figura com cabelos compridos e 30 metros de altura surge à distância. Tem uma cobra ao redor do pescoço e um tridente na mão. Shiva, o deus hindu, reina sobre um lago rodeado de templos. Trata-se de Gran Bassin, o lugar mais sagrado de Maurício. "De acordo com as lendas, fadas costumavam se banhar no lago e secar os cabelos na pequena ilha central", conta Satish Dayal, religioso de Sviv Jyotir Lingum, um dos principais santuários do lugar. "Desde então, o lago se tornou sagrado."

 

Dentro do templo, ao som de sinos e envoltos pelo aroma de incenso, fiéis fazem fila para ter sua testa ungida com a pintura vermelha. Mulheres grisalhas com brincos no nariz e vestidos brilhantes preparam oferendas em pratos cheios de frutas e velas. "Este país é tão forte não apenas por causa de suas praias", Dayal me disse. "Mas por causa dos mauricianos, das tradições, da cultura e do patrimônio."

 

Enquanto lá fora o sol começa a se pôr sobre o lago e as florestas, penso que os resorts litorâneos não poderiam estar mais distantes.

 

 

 

Saiba Mais

Como chegar: para o mês de dezembro, há opções de voos de São Paulo a Plaine Magnien, onde fica o aeroporto internacional da Ilha Maurício, por a partir de R$ 4.212 na Emirates, R$ 4.655 na South African, R$ 5.436 com a Air France e R$ 5.793 na Lan. Todos os voos têm conexão e as tarifas variam de acordo com a cotação do dólar

Visto: é exigido dos brasileiros. Informações e formulários: www.gov.mu, na aba 'Non-citizens'

Moeda: R$ 1 vale cerca de 15 rupias

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