Cristiano Dias/AE
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Pilha de civilizações e múltiplas heranças formaram a Tunísia

País passou por inúmeras guerras, sofreu invasões e guarda ruínas e medinas históricas

Cristiano Dias, O Estado de S.Paulo

16 Abril 2012 | 21h30

A Tunísia é uma flecha apontada para o coração da Europa. Certamente foi essa posição estratégica que fez do país uma pilha de civilizações. Os tunisianos viram de tudo. As três Guerras Púnicas entre Roma e Cartago. Uma invasão árabe, o domínio otomano e o xadrez jogado pelo marechal Erwin Rommel, a Raposa do Deserto, contra as forças aliadas no norte do continente durante a 2.ª Guerra. Mais recentemente, foi protagonista da Primavera Árabe, apontando a direção que os vizinhos deveriam seguir.

Do universo romano ficaram as ruínas de Cartago, o coliseu de El-Jem e os templos de Sbeitla e Dougga. Parte do acervo desses sítios arqueológicos foi transferida para o Museu do Bardo, em Túnis. Com o tempo, os painéis espetaculares do museu tornaram-se uma analogia do que é a Tunísia: um enorme mosaico. 

Enquanto a Europa ainda se arrastava pela era medieval, os árabes levaram até a Tunísia o dinamismo das medinas, especialmente a de Túnis, e a austeridade das mesquitas, entre as quais paira soberana a de Kairouan, a quarta mais importante do mundo islâmico, curiosamente sustentada por várias colunatas retiradas de templos romanos. Foi também a mão do árabe que construiu Sidi Bou Said, cidade nos arredores da capital marcada pela branquidão helênica de suas casas contornadas de azul-claro. 

O terreno tunisiano também é polvilhado de fortes. Alguns cartagineses, reutilizados por árabes. Outros espanhóis, conquistados pelos turcos, como é o caso do forte de Ghazi Mustafa, na cidade de Houmt Souk, na Ilha de Djerba, e o de Kelibia, em Cap Bon, que chegou a ser usado pelos nazistas na 2.ª Guerra. Sofreram uma ou outra alteração com o tempo, mas preservaram uma característica comum: a visão soberana do horizonte.

Outro elemento arquitetônico tunisiano é o ksar, forte usado pelos berberes para estocar grãos. O mais espetacular de todos é Ksar Ouled Soltane, no sul do país. A influência berbere também é sentida nas casas trogloditas, cavadas na pedra, em Matmata, que inspiraram o devaneio interestelar de George Lucas em Star Wars.

Todo grotão tem a sua mesquita. Aberta a visitas

A língua e a religião são os dois fatores que conectam o tunisiano à sua terra. Cada grotão do país tem uma mesquita, não importa o tamanho. No pequeno vilarejo berbere de Toujane, por exemplo, a beleza está justamente na simplicidade do templo. Entre as mais importantes, além da de Kairouan, está a Grande Mesquita Zaytuna, em Túnis.

A religião registra o passar do tempo. Nas grandes cidades, a hora da prece é anunciada como manda o figurino: um lamento belíssimo que soa dos alto-falantes, que aos ouvidos ocidentais ganha um caráter sombrio, especialmente em tardes de chuva e frio, quando todas as almas parecem ter sido abduzidas das ruas.

O tunisiano, no entanto, é um moderado. O pátio da maioria das mesquitas está aberto para quem quiser entrar - apenas o salão das orações, onde ocorrem as preces, costuma ser exclusivo dos muçulmanos. Apesar da maioria islâmica - 98% da população -, é possível tropeçar em igrejas cristãs, como a catedral de São Vicente de Paulo, em Túnis. Mais exótico ainda é encontrar uma comunidade judaica e uma sinagoga em El Ghriba, parada obrigatória para quem passa pela Ilha de Djerba.

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