Pipocas e mais pipocas

Pipocas e mais pipocas

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Mr. Miles, O Estado de S. Paulo

07 Fevereiro 2017 | 04h30

De algum lugar não informado no mundo, nosso solerte viajante envia sua sempre aguardada correspondência da semana. 

Caro Mr. Miles: sou um engenheiro aposentado, em idade não tão avançada quanto a sua, mas certamente muito acima da média. Viajei pouco, quase nada se comparado ao senhor, mas os livros, os filmes e a televisão encheram-me de sonhos. E de incredulidade, como na eleição de Trump. Tenho o hábito de ler sobre tudo o que me interessa e, de certa maneira, considero que viajei muito mais do que realmente o fiz. Qual é a sua opinião sobre isso? 

Celso Firmino Tanelli, por e-mail

“Well, my friend: bastou-me ler essas suas poucas linhas para ter certeza de que seríamos bons amigos se tivéssemos nos encontrado. Minha Trashie também iria lhe prestar os respeitos e poderíamos confraternizar em um bar. De novo, digo-lhe que me sinto muito desconfortável como consultor emocional. Mas basta um pouco de senso comum para compreender que você é, in fact, um viajante contumaz.

Tenho dito nesse espaço que nem todos (ou melhor: muito poucos) conseguem passar a vida viajando. Seja por compromissos de trabalho, de família, seja por trivial ausência de capital. Mostro a essas pessoas que é possível inverter prioridades e dar espaço às viagens. Seja pendurando aquela joia rara que pertenceu à bisavó, seja retardando a troca de um carro por um modelo mais novo que ‘ah, esse sim tem computador de bordo’.

Sempre é possível viajar, however. E sempre é possível retornar com novas histórias e mais conhecimento.

Aceito novamente que, para viajar como eu, é preciso ter herdado – como herdei – a inesperada fortuna de uma tia distante, que, as you know, acabou-se muito antes do previsto. Mas foi graças a ela que me tornei sócio remido de oito programas de milhagem e formei uma grande família de amigos, compadres e apadrinhados por todo o mundo. Uma bênção que me faz sentir em casa aonde quer que eu vá e me torna um pacifista incontrolável, já que tenho amigos que merecem ser protegidos da loucura das guerras onde quer que uma bomba estoure.

Quanto a você, dear Celso, consigo inferir que trata-se do melhor tipo de viajante com poucas milhas. Sua dedicação em entender o mundo, sonhar com ele e refletir sobre as suas idiossincrasias é louvável e amplia seus horizontes. De certa maneira, parece-me que é como se o prezado colega viajasse – com a vantagem de não ter de fazer as malas, tarefa, de usual, muito aborrecida. Don’t you agree?

As almas que caço com meus textos são as perdidas, as conformadas, as que passam a vida sem se interessar pelo próprio quintal, que é o próprio planeta. As vertentes de fogo de Lanzarote ou do Azerbaijão. As línguas de gelo da Patagônia ou do Alasca. As lonjuras verdes da África central ou do cerrado brasileiro. As mulheres: negras, amarelas, brancas ou muito misturadas.

O resultado de cabeças estreitas, que mal têm olhos para o próprio gramado de suas casas, são esses novos líderes que dizem o que querem e o tipo de mentalidade que se implantará doravante. Gente como Donald Trump, que, unfortunately, jamais escreverá uma linha para um solerte viajante inglês. Mas que não terá o menor pudor em sugerir que as pessoas não saiam de casa, que odeiem seus vizinhos e que comam pipocas, muitas pipocas.

Não me lembro de ter mencionado antes essa figura que, shame on us, descende de nossos colonizadores. Mas, dear Celso, o fato de uma pessoa de tão escassa cultura viajora ter o direito de ditar regras ofensivas a outros povos e a muitos de seus próprios cidadãos parece-me o mais arrojado e monstruoso livro de ficção já perpetrado.

Poucas pessoas têm entendido, as I do, o tamanho do problema que devemos ter para a frente. Tenho certeza de que você, com sua visão cosmopolita, não será um deles.

Adianto-lhe que pretendo voltar à América do Sul neste ano para comemorar mais um aniversário de Jaime Ibañez de Aragón y Asturias, um magnata chileno que não tolera o novo presidente americano e resolveu dedicar-se à criação de salmões em Balmaceda, no Chile. Embora tenha alcançado o sucesso como cáften em Assunção, é um dos grandes cavalheiros que já conheci. 

Nesse caso, quem sabe não possamos beber um uísque juntos no Brasil?”

MR. MILES É O HOMEM MAIS VIAJADO DO MUNDO. ELE ESTEVE EM 312 PAÍSES E 16 TERRITÓRIOS ULTRAMARINOS.

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