Gustavo Coltri/ Estadão
Gustavo Coltri/ Estadão

Piquenique à beira do glaciar

A jornada para chegar ao gigantesco paredão gelado demanda caminhar entre a mata nativa e navegar em um lago cristalino. A recompensa? Almoçar com um visual deslumbrante

Gustavo Coltri, O Estado de S.Paulo

07 Janeiro 2014 | 02h09

PUERTO TRANQUILO - O Lago General Carrera mais parecia um espelho, refletindo o céu do amanhecer e as montanhas, quando despertei no chalé à beira do lago. Pela janela, o monte San Valentin, o mais alto de Aysén, com 4.058 metros, mostrava-se pronto para os primeiros cliques do dia.

Dono do lodge Terra Luna, o francês Philippe Reuter, acompanhado de um jovem guia, levaria o grupo até o Glaciar Leones, uma parede gelada que integra o Campo de Gelo Norte, a 258 quilômetros de Coyhaique.

O acesso ao glaciar, localizado em uma lagoa que dá origem ao Rio Leones, é difícil. A um custo mínimo de US$ 190 por pessoa, o percurso proposto pelo Terra Luna até o Leones envolve passeios de barco e trekking e toma um dia inteiro de atividades.

De manhã, o frio ainda impera na região e demanda reforços na vestimenta antes da navegação, que castiga os negligentes com o vento durante a travessia do lago. Gorro, luvas, cachecol e um casaco corta-vento são fundamentais, mas é importante vestir-se em camadas: quando o sol esquenta, no meio da manhã, você vai querer se livrar logo de toda essa roupa. Já o trekking pede sapatos impermeáveis e resistentes, próprios para longas caminhadas.

Em condições normais, venceríamos o trajeto até o glaciar com uma hora de navegação e outros 30 minutos de caminhada em meio à mata nativa. Mas o rio estava com o nível de água baixo e nossa navegação foi turbulenta, com muitas curvas e pedras no caminho.

Na maior parte do tempo, convivemos com um sacolejar que, ao menos, nos permitia fazer fotos dos morros à vista e de cachoeiras criadas pelo derretimento do gelo no topo das formações rochosas. Foi, aliás, na frente de uma delas que desembarcamos pela primeira vez.

A calça grossa que eu vestia foi muito útil para enfrentar cerca de 50 metros na vegetação, entre espécies rasteiras e arbustos de folhas pequenas e grossas, adaptadas ao frio intenso do inverno de Aysén. O objetivo da caminhada era alcançar um canal paralelo ao curso natural do rio, de onde embarcaríamos novamente em um bote, na esperança de uma navegação mais tranquila.

Do lado direito, o rio nos seguiu por boa parte do tempo. Já passava da hora habitual de almoço quando alcançamos o berço do glaciar, onde outro barco, dessa vez inflável, estava atracado. Mais cinco minutos de navegação nos levariam ao fim da jornada, de frente para o imponente paredão gelado.

Cara a cara. Com mais de 30 metros de altura, o Leones é desafiador, embora sofra com o aquecimento do planeta. Ele recua, de acordo com Phillipe, alguns centímetros a cada ano, despedaçado em pedras de gelo que, derretidas, alimentam a lagoa e, mais adiante, o rio. Ainda assim, encará-lo é uma experiência como poucas.

A língua gelada, com variações de branco e azul em suas fendas, confunde-se com a montanha onde está incrustado. No entorno, grandes blocos de gelo boiam na água, derretendo sob o calor do sol.

Embora tenhamos visto pouca movimentação na face do Leones, seus sons entregam a intensa atividade do glaciar. O gelo que derrete no interior da parede cria um rio que se esconde dos olhos, mas não dos ouvidos: de tempos em tempos, somos surpreendidos por impressionantes estrondos, como se alguém estivesse detonando com dinamites o paredão nas proximidades. Algo que assusta e, ao mesmo tempo, fascina.

Essa foi a trilha sonora do almoço do grupo, realizado sobre uma grande pedra arredondada, a poucos metros do glaciar. Sentados no chão, fizemos nosso piquenique: sanduíche, suco de caixinha e uma sobremesa simples. De estômago cheio, tiramos alguns minutos para descansar sob o sol e dar uma última olhada no Leones antes de partir.

O repórter viajou a convite do Serviço Nacional de Turismo do Chile (Senatur).

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