Arte/Estadão
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Pirâmides de nosso tempo

miles@estadao.com

Mr. Miles, O Estado de S. Paulo

18 Agosto 2015 | 00h00

Agosto é o mês em que mr. Miles tira da garagem seu Bentley 1948 bege e marrom e viaja pela Europa, visitando apenas pequenas cidades e grandes amigos. Sem qualquer paciência para enfrentar o que chama de “turba ignara” que ocupa aeroportos, estações de trem e portos marítimos ou fluviais durante a alta estação no Hemisfério Norte, nosso correspondente prefere os caminhos secundários — que considera muito mais belos do que os “primários”. 

A seguir, a pergunta da semana:

Querido mr. Miles: qual a sua opinião sobre destinos “fabricados” como Las Vegas, Dubai ou Orlando? Você não os considera disgusting, como eu? - Michele Favaro Mesquita, por e-mail.

Well, my dear, observe sua questão com o devido distanciamento histórico: exceto pelos lugares cujas atrações naturais sobressaem aos olhos, todos os demais foram, de alguma maneira, fabricados. Don’t you agree?

Ou você pensa que os césares, ao erguerem seus anfiteatros, seus panteões e seus palácios não queriam, certainly, chamar a atenção para o seu poderio, a superioridade de seus arquitetos, a beleza de suas concepções? And what about the pharaoes? Você imagina que eles ergueram aquelas pirâmides todas apenas por devoção aos seus líderes falecidos? Ou não estariam eles chamando a atenção do mundo que conheciam para o extraordinário domínio de conhecimento que possuíam, prova concreta de sua superioridade em um determinado período da História?

De uma maneira ou de outra, honey, todos os vestígios do passado que hoje nos atraem e emocionam são obras ‘fabricadas’ pela criatividade de nossa espécie, quase sempre como exaltação de seu próprio poderio. A essa categoria, of course, pertencem os templos religiosos – do Angkor Wat, no Camboja; Mesquita Azul, em Istambul –, que são retratos instantâneos da necessidade das civilizações de atribuir sua prosperidade momentânea às divindades em que acreditavam. Ou monumentos militares, como o Arco do Triunfo, em Paris, e o Portão de Brandenburgo, em Berlim, que exaltam duvidosas conquistas belicosas e têm no sangue a sua argamassa.

Eis porque me encanta Veneza, uma cidade de resistentes jogados ao mar, que tiveram a força de se reerguer plantando alicerces em um solo improvável. Ou me dilaceram o coração, com igual respeito, as cavernas onde os cristãos pereceram na Capadócia e os campos de extermínio de onde os judeus fizeram brotar inacreditáveis descendentes que hoje orgulham a humanidade.

Você me perguntava sobre destinos feitos para o turismo, Michele… 

Viajar, darling, é o ato de encontrar os mais nobres e os mais baixos registros de nossa inexplicável passagem por estas terras, estes gelos e estes mares que, por alguma razão, nos pertencem. As iniciativas de transformar lugares mortos em atrações artificiais são, again, retratos de poder na era do marketing. Se houver quem se interesse por eles, o tempo se encarregará de relativizá-los. Orlando pode representar, num futuro longínquo, a luxúria dos Jardins Suspensos da Babilônia. Why Not? O Burj Al Arab, em Dubai, tem a chance de ganhar a reputação do Colosso de Rhodes, embora, ao que se sabe, meu amigo xeque Muhammed Makhtoum esteja planejando estrepolias arquitetônicas ainda maiores — que fariam Ramsés sentir-se um governante espartano. 

A nós, viajantes, resta o infinito prazer de visitar, além de tudo, as possíveis pirâmides que nosso tempo constrói. Porque, at last, elas são marcos de nossa passagem. E algum dia, of course, alguém tentará decifrá-las.” 

MR. MILES É O HOMEM MAIS VIAJADO DO MUNDO. ELE ESTEVE EM 183 PAÍSES E 16 TERRITÓRIOS ULTRAMARINOS.

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