Piso de mármore e as heranças de um imperador

Split não pode viver sem Diocleciano, isso é fato. É no palácio deste famigerado perseguidor de cristãos que a cidade se movimenta. Construído para ser uma casa de repouso do imperador, o lugar foi tomado por romanos depois da morte do chefe. A horda fugia de Salona, abandonada no século 7.º, e seus descendentes e outras legiões de migrantes passaram a ocupar palácios dentro do palácio. Hoje são cerca de 3 mil habitantes que jogam bola, esticam a espreguiçadeira e puxam "gatos" (de eletricidade) em meio a lojas, bares, restaurantes, museus e uma catedral.

SPLIT, O Estado de S.Paulo

14 Agosto 2012 | 03h09

O palácio foi erguido em dez anos, com pedra branca polida da Ilha de Brac, a mesma da Casa Branca. "Se os americanos dizem que é bom...", condiciona nosso guia. A Casa Branca splitiana mede 215 metros de leste a oeste, o pedaço mais alto da muralha tem 26 metros de altura e o pacote arquitetônico todo se estende por 31 metros quadrados. Apresenta quatro portões com nome de metal - ouro, prata, ferro e bronze. O último leva para o mar azul-anil. No meio do caminho, um alerta para quem deseja subir a torre do sino: "Você está subindo por sua conta e risco"....

Fora dos muros, dois pontos a destacar: a Riva, antigo calçadão à beira-mar, hoje de mármore; e a megaestátua do bispo Gregório de Nin, revolucionário bairrista que lutou pelo direito de ministrar missas em croata. Você logo perceberá algo diferente nele: o dedão do pé esquerdo, que de cinza ficou dourado. Dizem que dá sorte botar a mão e ninguém se faz de rogado. A mulher antes de mim ficou minutos ali. Assegurou que o ritual também garante a volta à cidade. Não custa tentar.

País do futebol. Enfim, uma palavra compreensível: torcida. Estava pichada num muro de Split, ao que o guia explicou: "Sim, pegamos de vocês" (a palavra e a pichação?). A cópia do nome ocorreu num ano de muita dor futebolística para o Brasil, 1950, três meses depois do fracasso contra o Uruguai no Maracanã. Em 28 de outubro, véspera do jogo entre o Hajduk, time da cidade, e o Red Star Belgrade, a Torcida Split se estabeleceu como tal e não deu mole para o azar. No dia seguinte, os da casa ganharam de 2 a 1 faltando 4 minutos para o apito final, e mais para frente ainda levantaram o caneco do campeonato croata.

A torcida da Torcida sofreria sanções, mais especificamente do Partido Comunista Iugoslavo, que baniu o nome do grupo e prendeu seus membros, depois libertados. Restabelecida, ela continua atacando os rivais - o Dinamo de Zagreb, por exemplo -, mas a seleção esfumaça as rusgas e na Eurocopa o povo se uniu em torno dos telões da Riva. Embora sem entender nada do que falavam, aquele bando de gente vestida com a camiseta quadriculada me pareceu de uma elegância inimitável. E o jogo era contra a Itália, antiga dominadora. No entanto, nenhum soco na mesa, nenhuma mímica de "vai, lança na direita". No máximo, uma unha roída. O cigarro e os canecos de cerveja, sim, se multiplicavam, assim como os olhares de ataque para as garotas croatas, que não negaram a fama de belas, belíssimas. / MÔNICA MANIR

Diocleciano ergueu as principais construções

do balneário croata,

que hoje têm status

de cartão-postal

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