Planos de pilhagem

Ainda em Cortina d'Ampezzo, exercendo seu velho prazer de esquiar e bebericar um scotch quando as pistas se fecham, o valoroso viajante envia-nos uma valiosa opinião.

O Estado de S.Paulo

02 Abril 2013 | 02h09

Prezado mr. Miles: há muitos anos viajo a trabalho e faço questão de engordar meu cartão de milhagem. Também transfiro para a companhia aérea os pontos que coleciono em compras (há três anos, reformei minha casa, gastando uma pequena fortuna, e meu consolo era saber que o número de milhas que eu transferia não parava de crescer). Pelas contas que fiz, eu deveria ter o suficiente para fazer uma viagem à Tailândia e repassar igual montante para minha mulher. A companhia aérea confirmou esse valor há cerca de um ano e meio. Pois bem: decidi fazer minha reserva para janeiro do ano que vem e fui surpreendido com a informação de que parte de minhas milhas já havia vencido e que, na data em que eu pretendia viajar, o máximo que eu conseguiria era uma (uma!) passagem para a Europa. O que posso fazer agora?

Theo Malta Cadani, por e-mail

"Well, my friend, sua história é, unfortunately, recorrente e aflige muitos dos meus fiéis leitores. Como você sabe, sou sócio remido de oito planos de milhagem - provavelmente o único viajante do mundo a ter tal privilégio -, mas essa conquista vem de uma outra era, na qual fios de bigode valiam mais do que cartões coloridos repletos de promessas vazias.

De forma muito elegante, I must say, você não citou o nome da companhia aérea ou do plano de milhagem que lhe fez essa desfeita. However, pelo que pude depreender da volumosa correspondência que recebo, os métodos de ação dos planos de milhagem são parecidos, com raras e honrosas exceções.

No princípio, of course, foi uma ótima ideia. Fidelizar os viajantes oferecendo vantagens futuras para os que voltassem a escolher a mesma companhia aérea em suas viagens. Conheço dezenas de pessoas que só voam com uma determinada empresa, mesmo que seus horários sejam inconvenientes e seu serviço de bordo, inferior, com o propósito de, no futuro, recolherem suas recompensas.

Nenhuma dessas pessoas, by the way, dá-se ao desprazeroso trabalho de ler as minúsculas cláusulas dos programas de milhagem que, repletas de metáforas e indecifrável jargão jurídico, já prenunciam a infelicidade futura. E mesmo os que as leem permanecem indefesos, porque as normas mudam sem qualquer tipo de comunicação ao viajante fiel.

Eis que, ao invés de ser recompensado, o passageiro fiel é tratado, em todas as circunstâncias, como um viajante de terceira classe. Só há assentos para ele nas épocas em que os aviões voam mais vazios e, my God, de preferência aqueles que ficam mais próximos do burburinho e do aroma dos toaletes.

Nevertheless, todas essas manobras estão escondidas por uma cobertura de bons modos e cortesia. Os sites dessas empresas têm espaços reservados para seus clientes fiéis e tratam-nos como se eles fossem realmente especiais. Exatamente como um marido que, tendo traído sua mulher na hora do almoço, chega para jantar com um buquê de flores e mesuras especiais.

Em outras palavras, dear Theo, os planos são de fidelidade, mas os usuários - como diz meu velho amigo Don Jaime de Ibañez y Jim Bean - são todos 'uns cornos'. Com o perdão pela má palavra, o conceito é muito preciso.

De minha parte, só posso esperar que alguma companhia aérea recupere a ideia inicial e trate seus frequent travellers com o carinho que eles realmente merecem. Do jeito que estão, I'm afraid to say, não são mais planos de milhagem, mas de pilhagem. Do you know what I mean?"

É O HOMEM MAIS VIAJADO DO MUNDO.

ELE ESTEVE EM 183 PAÍSES E

16 TERRITÓRIOS ULTRAMARINOS

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