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Até o incêndio da Catedral de Notre Dame inflamou as redes sociais de polêmicas

Adriana Moreira, O Estado de S.Paulo

23 de abril de 2019 | 03h05

Consternação, biscoito, protesto. Qualquer evento ou tragédia nas redes sociais navega entre esses três estágios, terminando invariavelmente em polêmica. (Biscoito, para quem não sabe, é a expressão em internetês para querer chamar a atenção e ganhar curtidas.)

Não foi diferente com o incêndio da Catedral de Notre Dame, na semana passada. Assistir a 800 anos de história queimando ao vivo deixou meu coração apertado, e fui transportada para o dia em que estive lá. Não cheguei a subir na torre – em vez disso, presenciei um concerto gratuito de música clássica, cercada de parisienses e poucos turistas.

Rapidamente, as redes se encheram de fotos de pessoas que também visitaram o monumento – e daquelas que criticavam as postagens. Não consegui tomar um lado da história: por um lado, poderia ser um pouco de egoísmo ou exibicionismo. Por outro, contrapor um dia de tristeza com um momento feliz não me pareceu algo assim tão condenável. Como julgar os sentimentos de cada um ao visitar um destino ou cartão-postal?

Meu alento veio como o tweet de uma museóloga do Museu Nacional, destruído em um incêndio em setembro do ano passado. “Como museóloga do Museu Nacional, digo que no nosso caso foi muito importante ver as fotos das pessoas lá depois do incêndio”, escreveu @thaismayumi. “Um patrimônio só existe na relação com as pessoas. É um alento ver todos resgatarem as memórias, os afetos que tiveram com aquele lugar.” No caso do museu carioca, um grupo de estudantes da Unirio fez até uma campanha pedindo para as pessoas postarem fotos e vídeos para ajudar a resgatar a memória do local. 

Já estava tranquila a esse respeito quando surgiu o tribunal da internet (como diz Tom Zé) para julgar a consternação de quem lamentava a destruição da igreja histórica. “Não vi vocês lamentando por X”, li em diversas postagens, com referências a diferentes tragédias humanitárias.

Será que uma coisa precisa necessariamente excluir a outra? Ficar triste por ver um monumento histórico destruído significa ser indiferente a grandes catástrofes que ceifam vidas, como o ciclone que matou milhares na costa do continente africano? Eu acho que não.

Mas podemos, sim, discutir por que a mobilização para reconstruir a Notre Dame começou tão rapidamente, com doações que passaram dos R$ 3,5 bilhões, enquanto causas humanitárias (ou a destruição do Museu Nacional) não tiveram engajamento semelhante. 

Viagens, destinos e monumentos afetam as pessoas de forma muito particular. Quanto mais referências temos de um lugar – seja por citações em filmes, livros ou mesmo vendo as fotos de amigos – mais nos sentimos próximos a ele. Mais proximidade (não geográfica, mas afetiva) e identificação com determinado local geram maior mobilização.

Empresários sabem disso, e doam contando com a visibilidade que será dada para a marca. Notre Dame era visitada por mais de 13 milhões de pessoas por ano, vindas do mundo todo. Mesmo quem não nunca colocou os pés ali tem referências (olá, Corcunda).

Quando a tragédia é num destino com poucas (ou nenhuma) referências, é como se aquilo fosse abstrato porque falta proximidade afetiva. 

Sempre é tempo, contudo, para fazer um mea culpa e buscar essa proximidade. Nem precisa ir longe: quantos pontos históricos você conhece na sua cidade? No seu Estado? No Brasil? O quanto sabemos das nações de língua portuguesa (além de Portugal, claro), que dividem conosco um acordo ortográfico, mas das quais sabemos pouquíssimo? Uma amiga foi passar as férias em San Tomé e Príncipe, ilha no Golfo da Guiné, na África, e eu estranhei. Não deveria: falamos o mesmo idioma, a ilha é linda e os portugueses costumam veranear por lá. Por que esse distanciamento?

O turismo é uma forma de os países colocarem em evidência e valorizarem seus bens mais preciosos: seu povo, sua cultura, sua história, sua natureza. E se o Estado não valoriza tais tesouros, comunidade e iniciativa privada podem fazer a diferença.

E nós, turistas, também.

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