Daniel Teixeira/Estadão
Daniel Teixeira/Estadão

Poder entre o vasto jardim e os estreitos porões do palácio

Em qualquer lugar público você encontrará o mesmo retrato na parede. O rosto de Ho Chi Minh, mais famoso líder político do Vietnã, responsável pela reunificação do país em 1975, está por toda parte. Até nas notas do dinheiro local, o dong. O culto à sua figura pode surpreender no começo, mas a recente história de independência do país talvez explique a importância do homem que rebatizou a antiga capital do Vietnã do Sul, antes chamada de Saigon.

Texto: Bruna Toni, Fotos: Daniel Teixeira, O Estado de S. Paulo

24 Março 2015 | 03h00

Conhecer a história política e social do Vietnã pode ser bastante revelador. Você não escapará disso nem numa passagem rápida por lá. Pelas ruas, são incontáveis as propagandas do governo socialista, sempre acompanhadas do vermelho-poder e do amarelo-realeza que tingem a bandeira do país. Um contraste com as multimarcas internacionais nas ruas, que ganharam força a partir de 1997, com o fim do embargo econômico imposto pelos Estados Unidos durante a Guerra do Vietnã. 

Lam, a guia que nos acompanhou durante todo o período, comenta que hoje há liberdade econômica, o que parece manter a estabilidade diante de um regime sem democracia direta.

Fora das ruas, entender melhor essa história milenar, que começa quando a região fazia parte dos domínios da China Imperial, passa por uma visita ao Palácio da Reunificação (dinhdoclap.gov.vn; 30 mil dongs ou R$ 4). Fica no centro da cidade, onde também está concentrada a maioria dos hotéis e outros pontos turísticos, como o prédio dos Correios e o Mercado Municipal. 

No vasto jardim, pode-se passar horas ouvindo o barulho da água cuspida pela fonte enquanto observa a movimentação de turistas e estudantes extasiados diante das réplicas de tanques de guerra expostos na entrada. Há quiosques para comer ou beber no bosque adiante.

A arquitetura do edifício, mais uma vez, é uma mescla cultural do Ocidente com o Oriente e suas bases contam, por elas mesmas, a conturbada história do país. Projetado para ser sede do governo da Cochinchina em 1868, no período da colonização francesa, passou pelas mãos dos japoneses em 1945 e foi centro de comando dos Estados Unidos até 1975, durante a guerra fria e a Guerra do Vietnã. Nesse período, mais precisamente em 1962, parte de sua estrutura foi destruída pelo bombardeio promovido por dissidentes da Força Aérea do Sul contrários ao regime do presidente Ngo Dinh Diem. A ideia era assassinar o estadista, que não só sobreviveu como ordenou a reconstrução do palácio – a versão que se vê atualmente.

Obra de Nguyen Viet Thu, o mais famoso arquiteto e pintor do país, o Palácio da Reunificação começou a ser reconstruído em 1962 e foi concluído quatro anos depois. Entre as curvas e os antigos elementos de inspiração francesa, imagine encaixar os riscos do ideograma chinês no novo desenho. Assim a estrutura externa foi pensada: suas partes, desde a posição da bandeira até o terraço, vão formando palavras cujos significados remetem a prosperidade, inteligência, força, soberania, liberdade de expressão.

Detalhes. Só mesmo caminhando pelo interior do palácio para se ter ideia de sua dimensão. Os amplos cômodos mantêm preservados cenários de reuniões históricas, como a que selou a união do Norte e do Sul, e do cotidiano dos presidentes e de suas famílias – desde a sala de onde saiam as ordens políticas até a que reunia mulheres. 

A sala de jogos chama a atenção tanto quanto o pequeno cinema com poltronas vinho empoeiradas, no segundo andar. A dualidade das cores se repete em cortinas, tapetes, estofados: o amarelo e o vermelho dão o tom, enquanto o dragão desenhado em um enorme carpete no centro do prédio – presente do governo de Hong Kong em 1973 – lembra o que aquele espaço sempre foi, independentemente de quem o ocupava: o maior símbolo do poder sobre o povo. 

No último piso, um salão abre caminho para o heliponto por onde fugiram os norte-americanos no fim da guerra. Ali existe um bar improvisado, o único dentro do prédio, com bebidas de 15 mil a 20 mil dongs (de R$ 2 a R$ 3, em dinheiro).

Chegar aos porões é, com o perdão do trocadilho, o ponto alto (e mais claustrofóbico) do passeio. Esqueça os vastos halls dos três pisos superiores: andar por aqui é como entrar num corredor estreito de navio, ou de uma câmera escura, passando por paredes espessas cujo principal objetivo era o de proteger os residentes dos bombardeios. Pequenas salas abrigavam os centros de comunicação, as salas de mapas, a mesa das refeições e o quarto do presidente. Era de uma delas que No Dinh Diem comandava todo o Vietnã do Sul durante os anos críticos.

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