Por uma Grécia tropical

Ao anoitecer passamos por um caminho ao longo do riacho que liga Pano Potamia e Kato Potamia, vilarejos na região mais fértil de Naxos, na Grécia. Enquanto a maioria das Ilhas Cíclades são secas, Naxos está coberta de vales verdejantes e casas brancas aninhadas como em um quadro de Bruegel.

Jennifer Gilmore / Naxos, The New York Times

19 Agosto 2014 | 12h28

Era nossa viagem anual a Naxos, onde a mãe de meu marido metade grego, Voula, vive em uma pequena fazenda. Chegando ao vilarejo, deparamos com a igreja e a taberna Pigi, onde Voula ofereceu um jantar na noite anterior ao nosso casamento greco-judaico, quase uma década atrás.

A cada visita, alguma parte de Naxos se revela para mim. Fico sabendo de uma nova aldeia ou que há uma ruína que ainda não vi. Ao mesmo tempo em que sou uma outsider, também fico entusiasmada ao conhecer fatos que escapam dos turistas: que o vilarejo de Melanes é o melhor lugar para um frango ao molho vermelho; que os moradores olham para a rua quando sentados nos cafés e não para o porto, que é uma pintura perfeita, para ver quem está passeando (e com quem).

Na primeira vez que vim a Naxos, eu tinha 23 anos. Era colega do meu futuro marido na faculdade e ele me disse na ocasião que era uma ilha “de verdade”, o oposto de onde há turismo de massa, como Mikonos ou Santorini. Naxos, disse ele, tinha as mais belas praias e ruínas protegidas. E, graças à agricultura sustentável, era dos poucos lugares no Mar Egeu onde se saboreia uma refeição completa só com produtos locais.

Quando me casei, meu apreço pela ilha aumentou. Na primeira visita com meu marido, fomos, com Voula, para Apiranthos, um povoado na área mais alta. Jantamos sob uma nogueira e provei a tyropita, torta em várias camadas recheada com queijo fundido. Contudo, por causa da crise econômica que atingiu duramente a Grécia, o local desapareceu, assim como muitos outros.

Mas, no verão passado, encontrei pratos criativos e diferentes na ilha. Saladas com mizithra, um queijo macio local, e beldroega, ou com rúcula e ervas frescas, berinjelas grelhadas pinceladas com mel e cobertas de amêndoas, croquetes de abobrinha e coelho cozido tão tenro que soltava do osso. Tudo orgânico.

Agios Prokopios é uma deslumbrante área de areia branca que se estende para a costa ocidental e acaba se transformando em Plaka. Não é mais a Plaka que vi há 20 anos. Hippies se mudaram e agora guarda-sóis tomam conta do espaço na frente dos hotéis de praia. Mas ainda há lugares tranquilos para estender a canga, e muitas tavernas onde comer e beber. Fomos a um local chamado Meze2 para degustar lulas e sardinhas com cerveja gelada.

Também estivemos em Halki, vilarejo que já foi capital da ilha e costuma ser tranquilo. Porém, em visita recente, estava repleto de ônibus de turismo. Filas congestionavam a famosa destilaria Vallindras, com turistas à espera de um kitron, licor de fruta típico de Naxos.

Nossos acompanhantes sugeriram outra taberna em Damarionas, uma vila próxima. Moradores disseram que era o primeiro lugar à esquerda quando se entra no povoado. Imprecisão que era indicativa da experiência no jantar, já que o restaurante não tinha cardápio e o garçom nos disse o que havia disponível: salada de tomate com queijo feta, souvlaki, batatas fritas de Naxos, doces e saborosas, famosas em toda a Grécia – e o mais tenro cabrito cozido que já provei.

Uma semana depois chegamos a Pano Potamia. No caminho para a taberna Pigi, havia uma torneira. Dizem que a água dali é a mais clara e pura da ilha. Outrora eu acreditava num ditado popular segundo o qual beber da água da ilha torna desejos em realidade. O que não é verdade. Mas a água era deliciosa e fiz meu pedido de qualquer maneira.

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