Por vívidos lares dos mortos

Por vívidos lares dos mortos

MARIA TEREZA MATOS , ESPECIAL PARA O ESTADO, O Estado de S.Paulo

28 Outubro 2014 | 02h07

O clima mórbido se mostra já no caminho. Desço na estação Cemitérios, na linha amarela do metrô da capital chilena, e lá está o dito-cujo: o Cementerio General de Santiago, "lar" de dois milhões de almas.

À minha espera, o sinistro, mas simpático Alfredo Lutos. Corcunda e com ar propositadamente decrépito, ele será o guia do grupo de turistas por entre os túmulos. É um tour pelo cemitério, sim, e turbinado por um detalhe nem tão pequeno: feito à noite.

A iluminação fica por conta da vela que cada visitante tem em mãos. O cortejo segue o guia e escuta, atentamente, as histórias que a necrópole guarda. Apesar das sombras, sons estranhos, objetos que caem repentinamente, de lendas como a da noiva que teve um enfarte ao ser deixada no altar e hoje vaga buscando um noivo, o tour é também histórico. Em meio às sepulturas de personalidades como o ex-presidente Salvador Allende e o músico Victor Jara, o lúgubre anfitrião conta um pouco da história recente do Chile. Até a última parada, em frente ao Patio 29, onde estão enterrados presos políticos mortos no regime militar.

Passear por tumbas e mausoléus pode ser uma sugestão à altura do Halloween, celebrado na sexta-feira. Ou de qualquer outra data. Pelo mundo existem muitos cemitérios relevantes pela história, arquitetura e os ilustres moradores que abrigam.

Para quem ainda não se decidiu, em Santiago, uma breve visita ao bar da esquina, o Quita-Penas (algo como "Tira-Mágoas"), pode tratar de persuadir os receosos. A seguir, você descobre motivos de sobra para visitar túmulos e mausoléus também em outras cidades. / COLABOROU ISABEL FILGUEIRAS

Misto de santuário e parque com paisagismo marcadamente inglês, o cemitério parisiense, um dos mais famosos e visitados da Europa, conquistou sua reputação de atração turística graças à constelação de notáveis que abriga. Entre túmulos góticos, mausoléus de inspiração haussmaniana e as alamedas arborizadas dos 44 hectares projetados pelo arquiteto Alexandre Théodore Brongniart, descansam em paz ilustres como os escritores Oscar Wilde e Honoré de Balzac, o sociólogo Pierre Bordieu, o pianista Frédéric Chopin, o mentor do espiritismo Allan Kardec, a cantora Edith Piaf. E, ainda, o rock star Jim Morrison, espécie de relações-públicas pós-morte do cemitério, de tanto que seu túmulo é procurado por fãs.

Inaugurado em 1803, o cemitério tem ainda o Muro dos Federados, onde 147 dirigentes da Comuna de Paris foram fuzilados. A visita é diurna: o horário de abertura vai das 8 às 17 horas. No site há um mapa de quase 200 mausoléus famosos - vá com tempo, nem sempre é fácil encontrar os túmulos.

Rue du Repos, 16, 20º Arrondissement, metrô Père-Lachaise. Site: pere-lachaise.com

O sofisticado bairro de Recoleta, na capital argentina, guarda atrações para todos os gostos: feiras de artesanato, arquitetura neoclássica, lojas de grife. Uma breve busca nos guias de viagem da cidade, no entanto, não deixa dúvidas. O local mais pitoresco da região - e um dos mais procurados pelos turistas - é o Cemitério da Recoleta.

Há muitas personalidades importantes da sociedade e da história argentina enterradas ali, mas o túmulo mais visitado segue sendo o de Eva Perón (ou Evita, para os portenhos), morta em 1952. Tão discreto que, se você não prestar atenção no movimento de grupos e fãs, corre o risco de passar batido. 

Não se trata de um local repleto de obras de arte, mas tem suas curiosidades. Criado em 1822, foi o primeiro cemitério público da cidade. Os caixões não estão enterrados, mas dentro de mausoléus - e podem ser vistos através de grades ou vitrais. Sim, dá um certo arrepio. 

Não há visitas noturnas, mas, ainda sim, é possível conhecer seu lado obscuro. Algumas agências de turismo oferecem o Buenos Aires Misteriosa, tour pelo centro da cidade e pelo cemitério acompanhado de histórias de crimes e lendas urbanas. Custa desde 95 pesos argentinos (R$ 30); mais: zigiottoviajes.com.ar

Calle Junín, 1.760; aberto diariamente, das 7 às 17 horas. Site: oesta.do/cemrecoleta 

Museu Pantheón San Fernando
A importância dos mortos na cultura mexicana é tão grande que o país transformou um cemitério em museu na Cidade do México. Anexo ao templo e convento San Fernando, o Museo Pantheón San Fernando abriga personalidades artísticas, militares e políticas importantes do século 19. Fundado em 1832, o último enterrado lá foi ninguém menos que o presidente Benito Juárez, morto em 1872.

Há visitas guiadas diárias, mas o grande momento do cemitério é o Dia dos Mortos, uma das celebrações nacionais mais importantes do México. Em clima de festa, tem dança, show de luzes, música e procissão para conduzir a oferenda de flores aos que já se foram. Neste ano, o evento será no sábado, dia 1º, do meio-dia à meia-noite.

O galã da literatura hispânica Don Juan aparece como guia uma vez ao ano, declama poesias e apresenta os habitantes famosos. O museu exibe mostra sobre os heróis da guerra civil da Reforma. 

Fica na Praça de San Fernando 17, no centro histórico da Cidade do México; abre das 9 às 17 horas; visitas agendadas: 52-55-5518-4736

Um parque com belos gramados, árvores bem aparadas, localizado em uma encosta com linda vista para a praia. Seria só mais uma atração turística do litoral francês, não fosse por um detalhe: trata-se do Memorial e Cemitério Americano da Normandia. Por seus atributos, o lugar acaba de ser o cemitério mais bem avaliado do mundo por internautas do site de viagens TripAdvisor. 

Estabelecido em 8 de junho de 1944, dois dias após o desembarque das tropas aliadas na Normandia, o local guarda restos mortais de 9.387 soldados americanos mortos na batalha conhecida como Dia D. Entre eles, Theodore Roosevelt Jr., filho do presidente homônimo. 

A praia é Omaha, uma das quatro invadidas pelos Aliados e palco da maior resistência alemã. O lugar é o ponto turístico mais visitado na pequena comuna de Colleville-sur-Mer, na Baixa Normandia. 

Desde Paris, a estação de trem mais próxima de Colleville-sur-Mer é Bayeux - são 2h20 de viagem. Dali, siga de táxi por mais 20 quilômetros. O lugar abre das 9 às 18 horas, gratuito. Site: oesta.do/cemiterionormandia

São três milhões de "habitantes" - quase duas vezes mais do que na capital austríaca. O imenso Zentralfriedhof, ou Cemitério Central de Viena, é o maior da Europa em número de sepultamentos e o segundo maior em extensão. Entre seus sepultados ilustres estão nomes importantes da história da música clássica, como Beethoven, Brahms, Schubert e Strauss. Para localizar seus túmulos, basta fazer uma busca no site do cemitério (se você não fala alemão, é só pedir para o Google traduzir a página automaticamente).

Outra característica interessante é a segmentação. Há pequenos cemitérios dentro do Zentralfriedhof, divididos por religião: protestante, muçulmano, judaico, grego ortodoxo... Não se deixe enganar pelo nome: o lugar está longe do centro de Viena.
Simmeringer Hauptstrasse 234; de 2ª a 6ª, das 8h às 16h. Site: www.friedhoefewien.at

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