Bruna Toni/Estadão
Bruna Toni/Estadão

Praga: quatro cidades em uma e o maior castelo do mundo

Na capital checa, arte e arquitetura de oito séculos convivem e fazem da cidade um dos mais incríveis cenários da Europa

Bruna Toni, O Estado de S. Paulo

22 Agosto 2016 | 05h00

A história humana deixou marcas na arquitetura, nos costumes e na política de Praga. A cidade às margens do Rio Vltava (ou Moldava), que tem 440 quilômetros de extensão e atravessa a capital da República Checa, soube conservar muito bem suas construções erguidas a partir do século 9.º. Seu valor histórico foi reconhecido pela Unesco que, em 1992, declarou o centro de Praga um Patrimônio da Humanidade.

Sob o frio de meados de abril, chegamos ao Mosteiro de Strahvov, um dos mais significativos exemplos da passagem do tempo na cidade. Erguido sobre a Colina de Petrin por volta de 1143, pertence atualmente à Ordem de São Norberto, como na época de sua fundação. Mas, durante os anos socialistas da então Checoslováquia, entre 1945 e 1989, os frades foram expulsos e as dependências, transformadas em um museu de literatura. 

Os frades retornaram ao convento com a queda do regime socialista, na década de 1990, depois da Revolução de Veludo, e encontraram o patrimônio intacto: a Capela de São Roque, a Igreja de Nossa Senhora da Assunção, do século 18, a rica biblioteca barroca, a galeria de pinturas. Tudo aberto à visitação: strahovskyklaster.cz.

Da Colina de Petrin se vê, do alto, a capital enfeitada por telhados avermelhados e dividida em quatro “cidades”: a Nova, a Pequena, a Velha e a do Castelo. Até 1784, as quatro comunas funcionavam de maneira independente, apesar do intercâmbio entre elas por meio do Rio Moldava. O tempo passou, Praga se unificou, foi repartida em zonas numeradas – Praga 1 é a região central –, mas as quatro “cidades” continuam sendo referência a moradores e turistas. 

 

Colosso. Na margem esquerda do rio, onde tudo começou, sobre a Colina Hradcany, está o maior castelo do mundo segundo o Guinness Book, em uma área de mais de 72 mil metros quadrados. As dimensões são mais bem explicadas (e apreciadas) à noite, sob as luzes que cobrem de dourado seus prédios e torres, cujos primeiros registros datam de 880.

A movimentação na frente do Castelo de Praga sinalizava a proximidade da troca da guarda, como a inglesa – o castelo abriga a presidência do país. Passada a marcha dos soldados, alcançamos o pátio que leva a dez pontos históricos, entre eles a impressionante Catedral de São Vito e o Beco do Ouro, com antigas casinhas de alquimistas que desejavam encontrar a tal partícula de Deus que teria dado origem ao universo. “Foi aqui também que, séculos mais tarde, Franz Kafka se isolaria para escrever”, conta a guia Magda Callerova.

A impressionante catedral, que não cabe inteira no enquadramento da foto, demorou sete séculos para ser terminada, do primeiro tijolo, posto em 1344, sob o imperador Carlos IV, à conclusão, em 1929. Seu interior preserva relíquias dos santos e reis checos, enterrados ali com suas joias e outros pertences desde a Idade Média. Um dos túmulos mais importantes é o de São Venceslau, que tem capela própria – no caminho até ela, pare para admirar o mosaico veneziano de 1370 que preenche a parede lateral. 

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A entrada ao complexo do castelo é gratuita. Ao Beco de Ouro e ao interior dos prédios, o acesso é cobrado: de 70 a 700 coroas checas (R$ 9 a R$ 92). 

Staré Mesto, a Cidade Velha, é a área mais antiga e turística. Está do outro lado da famosa Ponte Carlos, que começou a ser construída no século 12. Hoje, serve de palco a artistas e cenário para selfies e fotos de casamento. A uma curta caminhada, o Relógio Astronômico, na torre do prédio da antiga prefeitura, junta gente em volta a cada hora cheia para assistir à performance de bonecos lá no alto. 

Na Rua Republiky, a Torre da Pólvora, de estilo gótico, é remanescente da muralha medieval que cercava a Cidade Velha. Chegar ao alto de seus 44 metros requer disposição para subir 186 degraus.

O bairro Josefov guarda memorabilia do povo judeu que os nazistas traziam de outros territórios invadidos e faziam questão de preservar. “Eles queriam manter uma documentação histórica de uma raça que, afinal, desapareceria”, conta a guia Magda. Placas douradas incrustadas nas calçadas registram nomes de moradores que se tornaram vítimas do holocausto. A sinagoga Velha-Nova, mais antiga da Europa, de 1270, e o Cemitério Antigo recebem hoje milhares de turistas. O ingresso combinado custa 250 coroas (R$ 33): jewishmuseum.cz.

 

VELHAS E NOVAS IDEIAS NA ARTE E NA ARQUITETURA

A Praga de hoje mescla fachadas renascentistas às linhas duras da arquitetura socialista. Preserva inúmeras igrejas góticas junto da quarta maior população de ateus no planeta. Dá espaço a prédios art nouveau e a ideias contemporâneas, como a Casa Dançante, um sinuoso edifício da década de 1990, projetado pelo arquiteto checo Vlado Milunic com colaboração do canadense Frank Gehry, erguida sobre escombros de bombardeios da 2º Guerra Mundial. Fica na Nové Mesto, a Cidade Nova, e tem uma torre de vidro curvada inspirada em um casal de dançarinos – precisamente a dupla Fred Astaire e Ginger Rogers. Tome distância para apreciar as curvas e aproxime-se para almoçar no restaurante de seu terraço, o Ginger & Fred.

Na Cidade Pequena (Malá Strana), uma península sob a Ponte Carlos chamada Ilha de Kampa tem sido espaço de manifestação artística e política. Ali, hippies se reuniam para pedir paz. Um muro colorido, pintado e repintado por muitas gerações, tem um recorrente rosto de John Lennon, figura que também dá nome a um café-bar adiante, o John Lennon Pub

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