Mônica Nobrega/Estadão
Mônica Nobrega/Estadão

Mônica Nobrega, Una / O Estado de S.Paulo

05 Setembro 2017 | 05h00

É um pouso muito ilustrativo este que o avião faz no aeroporto de Ilhéus – aeroporto Jorge Amado, como não? Os minutos finais do voo mostram com clareza encantadora o que é que este pedaço do sul da Bahia tem: mares de morros a perder de vista, verdes que dá vontade de respirar fundo até encher o pulmão, e que acabam só quando encontram o oceano. Um beijo desavergonhado da Mata Atlântica no mar, beijo com gosto de chocolate, descobre-se com os pés em terra firme. 

Aqui é a Costa do Cacau, lugar onde o cultivo do fruto-base do chocolate fez a fortuna de coronéis e forneceu inspiração para Jorge Amado, o filho adotivo ilustre de Ilhéus (ele nasceu em Itabuna), isso lá na metade do século 20. Hoje, conhecer o legado do escritor é um programa indispensável na região. 

Costa do Cacau assim, em letras maiúsculas, é uma das subdivisões turísticas que o governo da Bahia criou para enfatizar a personalidade própria de trechos distintos do litoral do Estado. Neste, que vai de Itacaré, mais ao norte, a Canavieiras, no limite sul, passando por Ilhéus e Una, a personalidade inclui os pés de cacau plantados em meio à Mata Atlântica. Mas estrelas mesmo são as desejadas praias enfeitadas por coqueirais. 

Uma das hospedagens pé na areia é o resort Transamérica Comandatuba. Inaugurado em 1989, ocupa metade de uma ilha. Tours pela região partem do próprio resort, bem como as balsas que fazem a ligação com o continente, só para hóspedes. Além disso, acarajé, dendê, água de coco – tudo o que se espera de férias na Bahia. 

Como ir à Costa do Cacau

- Aéreo: SP-Ilhéus-SP desde R$ 480 na Azul; R$ 768 na Avianca; R$ 786 na Gol; e R$ 841 na Latam

 

- Fretamento: o Transamérica Comandatuba tem seu próprio aeroporto no vilarejo de Comandatuba, a menos de 20 minutos do resort. Apenas aviões fretados voam para lá. O pacote com aéreo e hospedagem, na Latam Travel, começa em R$ 5.781,45 por pessoa.

 

- Passeios: a EVC Turismo organiza passeios em grupo ou privativos pelo sul da Bahia e tem um posto de atendimento dentro do Transamérica Comandatuba. Visita à Fazenda Bom Jesus para ver a produção orgânica de cacau custa R$ 120 por pessoa. City tour 

a Ilhéus, R$ 150; Itacaré, R$ 250. Contato por WhatsApp: 73-9937-2191.

 

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Mônica Nobrega, UNA / O Estado de S.Paulo

05 Setembro 2017 | 04h20

Por pouco não desistimos do passeio. A estradinha enlameada pela chuva forte da manhã ameaçava impedir o avanço do carro. E olha que mal faltava 1 quilômetro entre a porteira e o terreiro da Fazenda Bom Jesus, onde éramos esperados pelo Galego, o funcionário que nos receberia para um tour pela produção orgânica de cacau. 

A Bom Jesus fica em Una, um dos quatro municípios da Costa do Cacau. O cultivo do fruto começou na região na década de 1930, e os cacaueiros dominaram uma área costeira de cerca de 180 quilômetros. Essa economia chegou ao seu auge na década de 1950, mesma época em que o escritor Jorge Amado publicou o romance Gabriela, Cravo e Canela (1958) e outros livros que retrataram o estilo de vida dos barões do cacau.

Na década de 1980, a praga agrícola conhecida como vassoura-de-bruxa dizimou boa parte dos cacaueiros, a produção entrou em declínio e derrubou o preço das terras. Muitas foram compradas por estrangeiros. Nos últimos anos, a praga vem sendo derrotada e o cacau retoma, pouco a pouco, a importância. Em 2015, a região exportou o fruto pela primeira vez em mais de 20 anos.

Para além da fabricação de chocolate, que continuou a ser feita com cacau importado, os produtores da região vêm se organizando para reforçar o fruto como atrativo turístico. Em julho, durante o 9.º Festival Internacional de Chocolate e Cacau, em Ilhéus, foi anunciada a criação da rota turística Estrada do Chocolate, prevista para começar a funcionar no verão. 

Entre sabores. Com o guia Edson Carvalho, cheguei à Fazenda Bom Jesus ainda debaixo de chuva – o normal para o fim de junho. A seca começa agora, em setembro. Galego forneceu galochas, e a visita começou pelo galpão onde as amêndoas são retiradas de dentro do cacau e colocadas para fermentar, antes da secagem. Há dezenas dessas sementes dentro de cada fruto, recobertas por uma polpa carnuda cujo sabor lembra a fruta-do-conde. 

A degustação teve mel de cacau (R$ 25 a garrafa de 500 ml) e um tipo de suco feito com a fruta, além de banana e coco secos. Tudo colhido na fazenda de produção orgânica. A Bom Jesus é uma das 33 propriedades que integram a Cabruca, a Cooperativa dos Produtores Orgânicos do Sul da Bahia. Cabruca é o nome da técnica de cultivo que consiste em plantar em meio à Mata Atlântica, sem desmatar. 

Neste ponto da conversa já estávamos caminhando pela propriedade, passando pelas plantações de pimenta e baunilha que se intercalam aos cacaueiros e rindo da possibilidade de escorregar na terra úmida. Galego parou para mostrar como se faz um enxerto, o processo de implantar um ramo de cacau mais forte geneticamente em outro cacaueiro mais vulnerável. Foi principalmente esta técnica que derrotou a vassoura-de-bruxa – e é por causa dela que são avistados frutos de cacau de cores variadas, amarelos, vermelhos e roxos, brotando no mesmo pé.

À medida que nos embrenhamos em fila indiana pela Mata Atlântica, o ar foi ficando mais fresco e aromático. Até que paramos como quem para diante de uma divindade. Com estimados 30 a 40 metros de altura e 250 anos de idade, uma majestosa gameleira marca o fim da trilha. 

A árvore é tão bonita, tão gigantesca e imponente que emociona. Escalei algumas raízes para chegar mais perto, sentir a textura da casca, o cheiro da chuva. Por pouco não desisti de sair dali. 

Outras fazendas para conhecer a produção do chocolate

Consulte a Comissão Executiva do Plano da Lavoura Cacaueira (Ceplac) para informações sobre fazendas de cacau abertas à visitação: (73) 3214-3000.

Cepec. O Centro de Pesquisa do Cacau integra a Ceplac e oferece um tour guiado detalhado sobre cultivo de cacau e produção do chocolate. Dura 1h30 e é gratuito – agende se o grupo for maior do que dez pessoas. Atenção aos horários: de segunda a sexta-feira, das 8h30 às 10h30 e das 13h30 às 15h30. Atrasos não são tolerados: (73) 3214-3000.

Fazenda Yrerê. Na rodovia Ilhéus-Itabuna, apresenta o processo produtivo, tem degustação e loja. Abre aos fins de semana; 

R$ 30 por pessoa: (73) 3656-5054.

Fazenda Provisão. Tem tour, trilhas e hospedagem. Passeios ocorrem de segunda a sábado. Fica na rodovia Ilhéus-Uruçuca. Agende no site. 

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Mônica Nobrega, Ilhéus / O Estado de S.Paulo

05 Setembro 2017 | 04h19

Mais do que sua criação mais famosa, a Gabriela da ficção, é o criador Jorge Amado o personagem-ícone de Ilhéus. A maior cidade do sul da Bahia e oitava no Estado – tem cerca de 170 mil habitantes – vive turisticamente das memórias do escritor, que a imortalizou em livros como Terras do Sem Fim, São Jorge dos Ilhéus e Gabriela, Cravo e Canela, e, de certa forma, moldou a cultura baiana no imaginário brasileiro. 

Em uma caminhada curta pelo centro histórico da cidade estão os principais pontos ligados ao escritor. A Casa de Cultura Jorge Amado ocupa um sobrado de fachada amarela onde ele passou parte da infância e a adolescência. É considerada o local onde Jorge Amado começou sua carreira literária. No pequeno museu que ocupa algumas das salas há roupas e fotografias que contam sua vida e obra – a atriz Sonia Braga, que interpretou Gabriela no filme de 1983, está em algumas das imagens, claro. 

A sala mais interessante guarda figuras de entidades do candomblé, fé de matriz africana que o escritor estudou e usou intensamente em seus livros. Abre das 9h ao meio-dia, e das 14h às 18h, de segunda à sexta. Aos sábados, das 9h às 13h. Fecha aos domingos: bit.ly/ccjorgeamado.

Há uma estátua de Jorge Amado de pé diante da casa, esperando pelas selfies. Outra forma de garantir o tête-à-tête com o escritor é seguir para o Bar Vesúvio logo ali, na ponta do calçadão onde fica a Casa de Cultura. O Bar Vesúvio, que existe desde a década de 1920, é o restaurante onde Gabriela é contratada como cozinheira por Nacib, o proprietário. Infelizmente, neste momento, a foto ao lado do escritor sentado em uma mesa na calçada é tudo o que se pode ter do bar, que está fechado para reforma e cercado de tapumes, com previsão incerta de reabertura para o fim do ano. 

De costas para o Bar Vesúvio e de frente para a orla do Rio Cachoeira está o cabaré Bataclan, outro dos lugares que Jorge e Gabriela tornaram famosos. Funciona no almoço em sistema de bufê e tem, no salão principal, uma reprodução do antigo palco, além de outros objetos de decoração alusivos à sua função de bordel. No fundo há um pequeno museu em memória da cafetina Maria Machadão e de suas “quengas”. Quem não almoça por ali paga R$ 5 pela visita. 

Pedras azuis. Ainda no centro histórico, procure pela rua Antônio Lavigne de Lemos, via curtinha que vai até a Catedral de São Sebastião. A rua é curiosa pelo seu calçamento de pedras retangulares e azuladas, perfeitamente assentadas. Sabe-se que o calçamento é da primeira década dos anos 1900, que as pedras são de origem inglesa e foram trazidas da Europa, provavelmente em um navio que vinha buscar cacau. O resto é especulação: teriam sido encomendadas por um certo coronel Misael Tavares, cujo palacete também fica na via, para asfaltar seu caminho até a igreja ou o de sua filha, por ocasião do casamento da moça. 

Para o turista, o mais interessante é que a rua vem sendo recuperada e tem algumas boas lojas e ateliês de arte e decoração em casinhas antigas pintadas de coloridão. Ainda no tema compras, o centro está cheio de lojas de chocolate local, que também pode ser comprado no Mercado de Artesanato (Praça Eustáquio Bastos, 2). O pacote de 1 quilo de cacau em pó custa R$ 8. 

Água à vista. Para admirar Ilhéus do alto – e a vista é realmente bonita – suba ao Convento de Nossa Senhora da Piedade. Não é preciso entrar. O mirante, que dá vista para os telhados da cidade e o mar, fica diante do portão. Mas ao pagar os R$ 2 que dão direito a visitar a capela com pinturas no forro, o turista é guiado por jovens estudantes do curso técnico de turismo, o que remete à origem do convento, que nasceu entre 1916 e 1921 para suprir a falta de escolas para os jovens da região. 

A praia mais frequentada da área urbana é a dos Milionários, pouco ao sul. As águas são ligeiramente turvas – em toda a orla oceânica do centro de Ilhéus é assim. Há muitas barracas – testei o aperitivo catado de siri (R$ 16) em uma mesa diante do mar da Cabana Gabriela. Com cerveja gelada, para combinar com a tarde gostosa de calor na Bahia.

 

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Mônica Nobrega, Una / O Estado de S.Paulo

05 Setembro 2017 | 04h17

Todas as habitações do hotel Transamérica Comandatuba ficam em um coqueiral impecável que se espalha por um gramado extenso a perder de vista. “A perder de vista”, aqui, não é exagero: há bangalôs a até meio quilômetro do prédio principal. Quanto mais longe se fica, mais silêncio e privacidade.

O Transamérica Comandatuba ocupa metade de uma ilha de cerca de 20 quilômetros. A outra metade tem chácaras, o que não atrapalha em nada a sensação de praia deserta, já que praticamente ninguém que não esteja hospedado caminha até a área do resort.

No complexo principal de edifícios, os quartos mais bem localizados são os apartamentos do tipo Luxo da ala leste, com vista para o mar e longe da área de influência do barulho das piscinas (desde R$ 990 a diária para dois, meia pensão). Os bangalôs são acomodações superiores e mais isoladas; os de números 608 a 618 (pares) são os realmente pé na areia (desde R$ 1.150). 

As piscinas ficam no centro de atenção da propriedade, a poucos passos da praia e do restaurante central, o Giardino, onde são servidos o café da manhã e o jantar incluídos. A comida é muito boa para o padrão bufê. 

A opção à la carte é o Restaurante da Praia. Para o jantar, precisa ser reservado com pelo menos um dia de antecedência. A especialidade, obviamente, é a comida do mar – bobó de camarão a R$ 230. O quiosque da piscina prepara coquetéis e lanches, inclusive acarajé – cobrado à parte (R$ 18) e mais gostoso do que a versão mini incluída no jantar temático baiano em uma das noites da minha estada.

O kids club fica do outro lado do hotel, depois do último bangalô, é espaçoso, tem piscina exclusiva e vi monitores usando também a areia da praia para brincadeiras.

O spa, que recentemente retomou a parceria com a marca L’Occitane, foi o ponto fraco da minha hospedagem: atendimento e massagem burocráticos. Saí de lá besuntada em óleo e, se havia a opção de tomar uma ducha antes de caminhar de volta para o meu quarto, ela não me foi oferecida. 

Pelo coqueiral, ótimo para caminhadas, se espalham as opções de lazer, mais de 20, entre variadas modalidades esportivas, academia, bicicletas, viveiro e outras. A linda Passarela do Caranguejo passa no meio do manguezal e permite ver a vegetação e, claro, caranguejos. A praia diante do hotel tem mar agitado boa parte do dia e se estende por mais de 7 quilômetros para o norte, até o encontro com o rio. A areia é firme mas, se não quiser caminhar, pode-se contratar à parte passeios de minibuggy e quadriciclo.  

Fantasia. No Transamérica Comandatuba, caminhe 1,6 km para o sul, pela praia, para chegar ao Ilha da Fantasia. Este bar-restaurante recebe turistas das pousadas do vilarejo de Comandatuba, de onde partem barcos que fazem a travessia por R$ 10 o trecho. 

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O Estado de S.Paulo

05 Setembro 2017 | 04h16

A partir de Ilhéus (70 quilômetros) ou mesmo do Transamérica Comandatuba (150 quilômetros), Itacaré está a uma distância aceitável para um bate-volta – ou para esticar o roteiro. É a cidade que limita a Costa do Cacau ao norte. Seu litoral é recortado por enseadas, separadas por morros recobertos de Mata Atlântica – uma paisagem que lembra a rodovia Rio-Santos. 

Algumas praias são de acesso mais fácil, outras exigem trilhas. Como não é possível ver tudo num dia só, confira os pontos mais bacanas. 

1. Rua Pedro Longo

É a principal da cidade e leva até as praias. É nela, entre pousadas, hostels, agências de passeios, lojinhas e restaurantes, que você entende o amor dos jovens e dos mochileiros por Itacaré. 

2. Praia da Concha

É a mais central e movimentada. Está na foz do Rio de Conchas, tem mar calmo, barracas, pousadas e um mirante ao lado – por isso, acolhe bem famílias. Em até 20 minutos a pé você chega às vizinhas praias do Resende e da Tiririca, mais desertas e com ondas fortes, procuradas por surfistas. Pouco depois está a Praia da Ribeira, que tem barracas.

3. Jeribucaçu

A praia, 9 quilômetros ao sul do centro, é um dos cartões-postais de Itacaré. Depois de deixar o carro no estacionamento (pago), o acesso é por uma trilha de nível médio que leva cerca de 40 minutos para ser feita e tem duas subidas. Na praia, o clima é rústico: barracas simples vendem peixe assado e tapioca. O Rio Jeribucaçu garante o banho de água doce. 

4. Itacarezinho

Itacarezinho deve muito de sua fama ao fato de ser endereço de um dos resorts mais luxuosos da Bahia, o Txai. O jeito mais bonito de chegar lá é fazer o passeio guiado que combina outras três praias: a linda Engenhoca, repleta de coqueiros e à qual se chega por uma trilha bem fácil, Havaizinho e a pequena Camboinha. Compre nas agências do centrinho. Também é possível ir direto a 

Itacarezinho, que tem acesso a partir da rodovia BA-001.

5. Aventura

A 8 quilômetros do centro, o distrito de Taboquinhas foi importante na vida econômica de Itacaré no auge do cacau. Atualmente, se destaca pelo turismo de aventura. É possível fazer rafting no Rio de Contas e visitar as cachoeiras de Noré, de 15 metros de queda, e da Pancada Grande, com 40 metros. Pousadas estão no centrinho. 

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