Praias 'made in Brazil'

Compensamos a falta de areia branca e mar transparente com uma cultura praiana ímpar - e muito gostosa

Ricardo Freire, Especial para o Estado

06 Janeiro 2009 | 03h00

Todo brasileiro que já foi a uma praia perfeita no Caribe, nas Ilhas Maldivas ou na Polinésia Francesa deve ter passado por uma situação semelhante. À primeira vista, aquela é a vida que você sempre quis: esticado numa espreguiçadeira sobre a areia mais branca-total-radiante que já viu na vida, contemplando um mar de degradê inacreditável - incolor na beira, depois verde-água, então azul-turquesa, para só lá longe se tornar marinho (sem nunca perder a transparência de puro cristal). Em algum momento, porém, você vai sentir falta de coisas que só existem nas praias made in Brazil. No começo deve ser algo de comer ou de beber que sempre esteve associado às suas idas à praia e que não é conhecido fora daqui. Um petisco para quando chega a fome - ou algo para refrescar a garganta. Então lá pelas tantas você olha em volta e percebe que todos os outros ocupantes daquela praia do paraíso são estrangeiros como você. Quer dizer: estrangeiros diferentes de você - a maioria vinda de países sem absolutamente nenhuma cultura praiana. Ah, a cultura de praia do Brasil! O que nos falta de mar transparente e areia branca compensamos com acepipes, bebidinhas, hábitos e costumes só nossos. As praias são nossa sala de estar, nossa praça, nosso verdadeiro parque nacional. Não importa a paisagem - ao pé de dunas, falésias, coqueiros ou prédios sempre nos sentiremos em casa. Podemos não ter as melhores praias do mundo. Mas certamente temos as praias mais gostosas do mundo. A seguir você vai ver 12 das inúmeras razões para gostar mais de ir à praia no Brasil do que em qualquer outro lugar do planeta. Mordomia Fora do Brasil, para ser atendido por um garçom na areia você precisa estar hospedado num hotel sofisticado ou pagar uma fortuna por uma espreguiçadeira num clube de praia. No patropi, em qualquer praia urbana ou semiurbana, você paga uma besteirinha pelo aluguel de uma cadeira e tem atendimento personalizado - além de cerveja só um pouco mais cara que no botequim. O cúmulo da mordomia é oferecido pelos barraqueiros do Porto da Barra, em Salvador: de meia em meia hora a areia quente onde você repousa os pés é regada com água do mar. Porto da Barra, Salvador. É a primeira da orla, ao pé da Ladeira da Barra. Peça um dos quartos reformados do Grande Hotel da Barra (www.grandehoteldabarra.com.br) e você não precisará nem atravessar a rua para curtir a melhor praia da cidade. Não perca o pôr-do-sol - e depois jante no Pereira (Av. 7 de Setembro, 3.959). Caipirosca Daiquiri? Frozen margarita? Piña colada? Planter''s punch? À noite, na balada, eles podem até enganar, mas debaixo do sol e de frente para o mar ficam aguados, licorosos e artificiais. Não há nada como uma caipirosca feita com fruta aberta na hora. A Bahia é o paraíso dessas maravilhas alcoólicas. Mas a caipirosca mais refrescante é a servida na Pousada do Toque, em Alagoas - invenção do garçom-showman J.R., leva limão, gengibre, manjericão e mel. Praia do Toque, São Miguel dos Milagres. 100 km ao norte de Maceió, é uma das lindas praias rústicas da Rota Ecológica. Para provar a caipirosca do J.R., hospede-se ou marque um almoço na Pousada do Toque (www.pousadadotoque.com.br). Por sinal, todas as pousadas de lá levam nota alta no quesito gastronomia. Água-de-coco Acredite: o refrigerante mais perfeito que a natureza produz e envasa é desconhecido até em algumas regiões eminentemente tropicais (certas ilhas do Caribe, por exemplo). Por aqui, pode até faltar sol - mas água-de-coco gelada, nunca. As propriedades isotônicas do coco são especialmente benvindas durante uma longa caminhada. É por isso que, sempre que alguém resolve caminhar da Vila de Jericoacoara até a Pedra Furada, é prontamente seguido por um guia informal que carrega um isopor recheado de cocos geladinhos. Pedra Furada, Jericoacoara. A caminhada de 45 minutos só é possível na maré baixa - de preferência, em períodos de luas cheia ou nova, quando o mar seca mais. Na vila, fique na novíssima Casa de Areia (www.casadeareia.com) e trace os sushis do Kaze (R. do Forró, anexo à pousada Wind Jeri). Queijo coalho Encontrado em qualquer praia que se preze do Rio para cima, esse picolé de queijo quente é outra exclusividade das praias brazucas. Uma vez vencida a desconfiança de comer algo preparado num fogareirinho improvisado, você descobre o lanche ideal: nutritivo e pouco calórico. Na Segunda Praia, em Morro de São Paulo, os vendedores de queijinho ajudam o banhista sob dieta a evitar a tentação de enfiar o pé na jaca nas ótimas pastelarias do canto direito da praia. Segunda Praia, Morro de São Paulo. É a praia da paquera, tanto de dia (como é voltada para o norte,tem sol até mais tarde) quanto de noite, quando ocorrem os luaus. Fique na elegante Pousada da Torre (www.pousadadatorre.com.br) e, além do queijinho, experimente o ceviche da barraca Ponta da Ilha. Bugue Está bem: em areias frequentadas por banhistas, os bugues são uma praga e deveriam ser proibidos. Mas em trechos desertos e rigorosamente delimitados, proporcionam o bronzeado mais divertido que você pode conseguir. O passeio de bugue mais bonito da costa brasileira é o que vai de Canoa Quebrada a Icapuí, passando por falésias de todas as cores - brancas, cor-de-laranja, recoberta de vegetação, avermelhadas e até marmorizadas. Canoa Quebrada, Ceará. Um passeio bate-e-volta desde Fortaleza (165 km a oeste) não é suficiente para ver toda a beleza da região e curtir a vila (que ferve madrugada afora). Passe pelo menos uma noite - reserve um apartamento com solário na ala nova da Tranqüilândia Village (www.tranquilandia.it). Calçadão Os ingleses inventaram o calçadão praiano em Nice, na França, onde iam passar os invernos - daí o nome Promenade des Anglais (passeio dos ingleses). Poucos países adotaram a ideia com tanto entusiasmo quanto o Brasil, onde não há grande cidade litorânea sem o seu. O mais bonito está aqui perto: é o de Santos. O mais charmoso, porém, é o que liga o carisma de Ipanema à boa-vida do Leblon, no Rio. Ipanema e Leblon, Rio. Percorrer o calçadão vale por uma viagem: meninos mergulhando da Pedra do Arpoador, gays à esquerda da Rua Farme de Amoedo, descolados no Coqueirão (entre Joana Angélica e Maria Quitéria), mamães e babás no Baixo Bebê (em frente à Gal. Venâncio Flores). Aproveite os quartos recém-reformados do Ritz Leblon (www.ritzhotel.com.br). Caminhada Praias longas e desobstruídas, com largos trechos desertos, não são artigo muito fácil de conseguir em areias estrangeiras. No Brasil, caminhar de fora a fora pela beira-mar é de lei. Em alguns pontos, dá para ir de uma praia a outra sem pegar estrada nem voltar para a calçada. Um dos passeios mais gostosos que você pode fazer pela areia é de Tabatinga a Coqueirinho, ao sul de João Pessoa: você atravessa um riozinho, passa ao largo de imponentes falésias e termina numa enseada perfeita para se banhar. Tabatinga e Coqueirinho, Paraíba. 20 km ao sul de João Pessoa - e ofuscadas pela fama da vizinha nudista Tambaba -, essas praias guardam um largo trecho a salvo da exploração imobiliária. O hotel mais confortável fica na vizinha Carapibus: a pousada Aruanã (www.aruanapousada.com.br). Taboa e chita Na paradisíaca Praia do Espelho, na Bahia, surgiu um estilo brazuca-chique de lounge de praia: esteiras grossas de taboa, almofadões recobertos de chita, mesinhas mineiras baixas, tudo debaixo de um amplo coqueiral. Depois de conhecer um lugar assim, dá vontade de boicotar toda marca de cerveja que distribuir essas horrorosas mesas e cadeiras de plástico que enfeiam tantas praias por aí. Praia do Espelho, Bahia. A 20 km de Trancoso, é destino de passeios de um dia só. Mas o paraíso pertence a quem dorme por lá e aproveita a praia antes de os turistas chegarem (e depois de partirem). Durma na Enseada do Espelho (www.enseadadoespelho.com.br) e passe o dia no Bar do Baiano. Riozinho É um dos maiores luxos da nossa costa: muitas praias vêm equipadas com seus próprios riozinhos. Uma das situações mais interessantes é a que você encontra em Imbassaí, na Bahia: ali o riozinho corre paralelo à praia, formando uma península de areia. As mesmas barracas dão tanto para o mar quanto para o rio. Para que ter chuveiro, quando você pode oferecer... Caiaque? Imbassaí, Bahia. 10 km ao norte da Praia do Forte (65 km de Salvador), fica lotada no fim de semana, mas é muito gostosa nos dias úteis, quando quase todos já se foram. Hospede-se - e faça as refeições - na Vilangelim Ecopousada (www.vilangelim.com.br). Caldinho Eleve a temperatura do corpo - e o sol vai parecer menos quente. Gaúchos sabem disso e levam o chimarrão para a praia. Nordestinos fazem ainda melhor: tomam caldinho. Quem bate ponto na Praia do Acaiaca, no Recife, sabe que perto do almoço os vendedores vão aparecer trazendo garrafas térmicas com deliciosos caldinhos de peixe, camarão e feijão-preto. Acrescente coentro, queijo ralado e pimenta à gosto, e mande baixar mais uma gelada para acompanhar. Praia do Acaiaca, Recife. Trecho mais badalado de Boa Viagem, fica na frente do edifício do mesmo nome, à altura do número 3.200 da beira-mar. O hotel Jangadeiro (www.jangadeirohotel.com.br) está quase ali; a muvuca noturna do Segundo Jardim de Boa Viagem fica perto do número 1.600. Forró Que Ibiza e algumas ilhas gregas não se sintam superiores só porque têm praias que viram festa ao entardecer. Itaúnas, a última praia do Espírito Santo antes do Nordeste, também é assim. Em janeiro e julho, quando dá duas da tarde, a sanfona, a zabumba e o triângulo começam a tocar na Barraca do Coco - e é quando Itaúnas, que já era capital honorária do forró pé-de-serra, se torna a meca do forró pé-na-areia. Itaúnas, Espírito Santo. 280 km ao norte de Vitória, tem aparência, sabor e textura de uma praia nordestina. A pousada mais charmosa é a Casa da Praia (www.casadapraiaitaunas.com.br), à beira-rio. Experimente a lasanha do Bar da Ana, na rua de trás da pousada. Saideira É difícil voltar direto para casa depois de um dia ao sol - todo rato de praia tem na manga (ou na sacola) um lugarzinho especial para aquela saideira. Quando você estiver em Natal, aproveite a nova ponte e passe no Mercado da Redinha, na margem norte. Ache o bar da Lourdes e peça jinga com tapioca - um espetinho de peixinhos fritos e molhadinhos que encontra seu complemento perfeito na massa sequinha da tapioca. Nham! Praia do Forte, Natal. Na frente do forte dos Reis Magos, voltou à baila com a inauguração da ponte que liga Natal às praias do norte. O hotel mais classudo é o Manary (www.manary.com.br). Experimente os camarões com acompanhamentos sertanejos no Camarões Potiguar (R. Pedro Fonseca Filho, 8.887).   *Ricardo Freire é autor do recém-lançado guia 100 Praias que Valem a Viagem - Uma Seleção das Praias Mais Gostosas do Brasil (Ed. Globo, 380 págs., R$ 38)

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