Produto musical bruto

Festivais de música lotam Salzburgo, assim como os pacotes temáticos sobre 'A Noviça Rebelde'

João Luiz Sampaio, O Estado de S. Paulo

26 Outubro 2010 | 09h00

 

 

SALZBURGO, ÁUSTRIA - Ele está em todo lugar - e provavelmente teria se divertido muito com isso. Desça a Getreidegasse, no centro de Salzburgo, e as vitrines de lojas de grife exibirão seu rosto em placas elegantes. Mais adiante, ele estará em chamativas caixas de chocolate; mesmo nas lanchonetes de fast-food, a silhueta do compositor encontra um espacinho... E você, então, se depara com uma pequena multidão que se acotovela na estreita rua de pedra, olhando para o alto, em direção à fachada amarela da qual pende uma bandeira austríaca. "Aqui nasceu Wolfgang Amadeus Mozart."

 

A superexposição não seria capaz de incomodar o compositor. E é provável que ele também soubesse apreciar a ironia: a cidade que hoje obtém boa parte de sua renda do turismo - centrado basicamente na figura de Mozart - nunca lhe fez a cabeça.

 

Seu espírito irreverente também não ia lá muito bem com o ambiente da cidade na segunda metade do século 18. Naquela época, músicos e pintores eram funcionários da corte, assim como cozinheiros, e a inspiração precisava estar alinhada ao desejo e às necessidades da nobreza. Se entendia a importância de ter patronos - algo que seu pai não cansava de lhe lembrar -, ao mesmo tempo Mozart manifestava certo desprezo pelas convenções da corte.

 

Mas justiça seja feita. Se após deixar Salzburgo o compositor não manteve com a cidade relação das mais saudáveis, é nela que encontramos o cenário dos primeiros passos do menino prodígio, que, em cerca de 30 anos, irrompeu como furacão pelo cenário musical europeu. De um lado estão os prédios diretamente ligados à sua vida; do outro, construções primorosas que remetem à hegemonia do Império Austro-húngaro. E as duas histórias, claro, dialogam.

 

 

O centro histórico de Salzburgo fica entre dois montes, o Mönchsberg, onde está o Forte Hohensalzburg, e o Kapuzinerberg. Entre eles, a cidade, cortada pelo Rio Salzach. A primeira parada do roteiro mozartiano é o apartamento na Getreidegasse, local exato em que nasceu o compositor, em 27 de janeiro de 1756. Ali cresceu e começou a estudar com o pai, Leopold, também músico. Grande impulsionador de sua carreira, ele foi o responsável por levar o pequeno Mozart em turnês, apresentando-o para nobres em que via a possibilidade de apoio ou promoção. Mais tarde, o marketing seria motivo de desentendimentos entre pai e filho, mas essa é outra história.

 

Na Geburtshaus estão instrumentos, tufos de cabelo, cartas, partituras e uma exposição multimídia que mostra não apenas a história da família Mozart como também a evolução da cidade e da região. Na sequência, passando pela Domplatz - a praça da catedral, por si só um passeio atraente -, você chega ao Residenzplatz. Ali vivia o príncipe-arcebisbo de Salzburgo, um dos homens mais poderosos do império. E ali também o pequeno Mozart fez algumas das suas primeiras apresentações antes de partir para desbravar a Europa.

 

 Fama. Cruzando o rio, você vê a Mozart Wohnhaus, residência da família do compositor entre 1773 e 1787, quando a renda obtida com os concertos permitiu a mudança para uma casa maior. Ainda nesta margem, é possível passear pelos jardins do palácio Mirabell e visitar a sede do Mozarteum, associação responsável pela obra do compositor e sua difusão, com parceiros em todo o mundo, incluindo o Brasil.

 

Na cidade, há dois principais eventos de música clássica. No verão, o Festival de Salzburgo promove concertos, recitais, apresentações ao ar livre e óperas. Já no inverno, em janeiro, é a vez do Mozartwoche. Ingressos são caros. Mas não se preocupe. Há uma série de concertos em igrejas, palácios e outros espaços públicos. Compre um Mozartcaffe (que é igual a qualquer outros, mas tem lá seu charme) ou uma turística barra de chocolate na forma da silhueta do compositor. E aproveite.

 

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