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Punta Cana e Labadee: vá sem culpa

Na semana passada, muita gente ficou chocada ao ver fotos de passageiros de um navio de cruzeiro se divertindo numa praia em Labadee, uma península 150 quilômetros a noroeste de Porto Príncipe, a capital haitiana devastada por um violento terremoto. Também cresceu o número de pessoas que consideravam de mau gosto a ideia de passar férias nas praias da República Dominicana, que divide a Ilha Hispaniola com o Haiti.

Ricardo Freire,

02 Fevereiro 2010 | 12h07

 

São considerações bem-intencionadas e que revelam respeito pela dor dos haitianos. Na prática, porém, abandonar Labadee ou contribuir com um boicote velado às praias dominicanas acabaria por trazer dificuldades a haitianos que tiveram a sorte de escapar da tragédia - e que, muitas vezes, funcionam como fonte de ajuda direta a familiares que vivem em Porto Príncipe.

 

Tanto Labadee quanto a costa leste da República Dominicana - onde está a mais procurada das praias, Punta Cana - ficam em áreas livres de ameaças sísmicas e não sofreram absolutamente nada com o terremoto. Quem for a qualquer um desses lugares será recebido por comunidades que ficarão especialmente agradecidas por não terem sido evitadas neste momento.

 

11 DE SETEMBRO

 

Pode-se buscar um paralelo para a situação atual em outra tragédia, a de 11 de setembro de 2001, em Nova York. O cheiro de queimado e a fumaça ainda não tinham arrefecido na parte sul da cidade quando o prefeito Rudolph Giuliani foi às câmeras e conclamou o mundo a viajar a Manhattan. "Venham para Nova York! Divirtam-se em Nova York! Gastem dinheiro em Nova York!" Giuliani não poderia ter sido mais direto. Nem por isso foi acusado de insensível, desrespeitoso ou de mau gosto.

 

Visitar Nova York naquela situação, porém, não era fácil: a cidade estava de luto e em estado de choque. Nada disso espera os visitantes em Labadee ou Punta Cana. São lugares completamente isolados do cenário da tragédia. Sua experiência será idêntica à que viveria em qualquer outro endereço paradisíaco do Caribe - onde suas férias não estariam beneficiando haitiano nenhum.

 

POLO TURÍSTICO

 

Mesmo antes do terremoto, espíritos críticos já poderiam questionar a implantação de um oásis de banhistas branquelos em Labadee, encravado no país mais miserável do hemisfério. Os folhetos dos cruzeiros nem sequer mencionam o país onde se localiza - no máximo, informam o nome oficial da ilha, Hispaniola. Graças ao marketing esperto de ilha da fantasia genérica, no entanto, conseguiu-se criar um polo turístico (e uma fonte constante de moeda forte) num país considerado intocável.

 

Atualmente, há 500 haitianos trabalhando em Labadee.Metade deles, artesãos sem vínculo empregatício, que vivem de vender sua produção aos passageiros dos cruzeiros que aportam várias vezes por semana no megapíer da península, reformado no ano passado para poder receber o maior navio do mundo, o Oasis of the Seas. Os mesmos navios acusados de profanar o luto haitiano estão transportando água e mantimentos para o país, que são distribuídos por ONGs humanitárias que já trabalhavam com a companhia dos cruzeiros antes do terremoto. Um tipo de ajuda que não seria possível se os navios fossem desviados para as Bahamas ou o México.

 

SEM LUTO

 

Os moradores de Punta Cana, a mais visitada das praias dominicanas, souberam do terremoto da mesma maneira que o resto do mundo: pelo noticiário de TV. Hoje alguns deles dão plantão em fóruns de sites como o TripAdvisor.com para explicar que tudo está exatamente como há duas semanas e que não existe clima de velório no lugar.

 

Milhares de haitianos trabalham em Punta Cana - a maior parte em funções distantes dos olhos do público. Uma crise prolongada, causada pelo pudor generalizado de visitar um lugar próximo ao Haiti, ameaçaria o emprego de imigrantes que conseguiram escapar da miséria absoluta.

 

PENSE NO HAITI

 

A verdade é que todos estamos no mesmo planeta que o Haiti, e não existe uma régua para medir a partir de que distância de Porto Príncipe uma viagem se tornaria moralmente aceitável. Passar férias no Taiti não ajuda nada o Haiti. Não desmarcar aquela viagem programada para a República Dominicana, por incrível que pareça, ajuda.

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