Quando as cidades mudam

Já ansioso pela chegada do outono ("quando a happy hour começa muito mais cedo, assim que o sol se põe"), nosso solerte viajante continua fazendo caminhadas pelas Dolomitas, na Itália, com o objetivo de "testar a resistência dos tendões de meus joelhos que foram ligeiramente abalados na longa marcha que fiz, last year, pelas montanhas da Ilha Sul da Nova Zelândia."

O Estado de S.Paulo

27 Agosto 2013 | 02h16

Antes de responder à carta da semana, mr. Miles pediu para avisar que os testes vão indo bem. "So far, so good, my friends."

Querido Mr. Miles: voltei a viajar depois de muitos anos e achei que várias das cidades que conhecia mudaram muito - e nem sempre para melhor. Por que isso acontece?

Sonia Rocha Schmidt, por e-mail

"Well, my dear: sua pergunta tem tantas respostas que cabe a você escolher a melhor. Cidades mudam porque tudo muda. Ou crescem ou diminuem. Ou vicejam de prosperidade ou sofrem de decadência. Ou seu povo está feliz, ou, unfortunately, sofre, e isso é visível nos olhos de seus habitantes.

Tenho voltado muitas vezes a cidades que conheci em outras circunstâncias. Lisboa, for instance, antes tão triste e lamuriosa como seus mais sofridos fados, tornou-se um lugar aprazível, criativo, instigante, com belos jovens tratando de reinventá-la dia após dia. O mesmo ocorreu com Madri, Barcelona, Valência e tantas outras cidades que buscaram o cerne de sua identidade original e ganharam personalidade. Believe me, Sonia: o dinheiro ajuda, mas é apenas um coadjuvante nessas viradas urbanas. Elas marcam momentos culturalmente fortes, instantes em que os cidadãos largam o conforto da mesmice e não querem mais, apenas, as cidades de seus antepassados. Seu desejo é fazer urbes novas, que tenham a cara do tempo em que vivem, quase sempre preservando o melhor de seu passado. Ou mesmo o pior, como ocorre nos prédios de construção fascista que ainda permanecem em Roma e Berlim, só para citar dois exemplos.

Outras tantas cidades mudam por motivo contrário: é sua população que deixa de estimá-la; é o rancor com o trânsito, com a violência e com o descaso público que processa esse fenômeno. É quando chega a hora de devolver todos os dissabores que as cidades proporcionaram a seus viventes, hora de largá-la suja e feia, pichá-la e agredi-la, numa espécie de revanche de Talião, olho por olho, dente por dente.

My God: quantas cidades mudaram assim! É triste vê-las tão maculadas e inamistosas, but I always believe que, no futuro, uma reviravolta leve novos cidadãos a recuperá-las.

E há, of course, um terceiro fator, dear Sonia. Muitas vezes, ao voltarmos a algum lugar, nossa percepção é alterada por pequenas variantes objetivas: a chuva, que atrapalha as caminhadas, as obras de manutenção, que escondem velhas memórias atrás de tapumes, uma greve ou qualquer outro motivo que tire a fluidez da jornada.

Existem, também, os olhares inadequados, como o de uma certa senhora Armstrong, de Ohio, a quem encontrei em uma manhã radiante na Piazza San Marco, em Veneza. Ela parecia very excited quanto ao que via e, inesperadamente, proferiu a seguinte frase inesquecível: "Eu estive aqui quando era estudante, mas estou muito surpresa: Veneza mudou tanto!" Impossível não pensar nos próprios ossos de San Marco remexendo-se na tumba. Veneza? Eis uma cidade que não muda nunca. Thank God!

Fiquei pensando, darling, que muitas vezes quem muda somos nós. Mudamos de olhar, de expectativa, de saúde, de interesse. Mudamos em tudo. E é claro que, quando isso ocorrer, nunca mais veremos os lugares com o mesmo olhar. O que pode ser muito ruim, ou muito bom. Conforme a cidade e conforme o jeito que mudamos.

É O HOMEM MAIS VIAJADO DO MUNDO.

ELE ESTEVE EM 183 PAÍSES E

16 TERRITÓRIOS ULTRAMARINOS

Encontrou algum erro? Entre em contato

publicidade

publicidade

publicidade

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.