Quando consumir é melhor do que viajar

O artigo Uma questão de classe, publicado neste espaço na semana passada, provocou uma inundação de e-mails no endereço eletrônico de nosso estimado viajante. Entre eles o do próprio autor da questão, Mario Hamilton Casella, mui justamente contrariado pelo fato de mr. Miles duvidar da composição do grupo de passageiros do cruzeiro do qual participou no Rio Danúbio (75% de americanos e 25% de brasileiros). Para que não pairasse mais qualquer dúvida sobre a credibilidade do missivista, ele próprio informou tratar-se de viagem na embarcação Amardolce, que partiu de Budapeste no dia 28 de agosto de 2011.

O Estado de S.Paulo

08 Maio 2012 | 03h08

Mr. Miles lamenta a indelicadeza e manifesta sua satisfação em saber que, até no mundo restrito dos cruzeiros fluviais, a presença brasileira já se faz notar. Já na opinião do leitor Sérgio de Iudicibus, nosso correspondente britânico, ao criticar as "generalizações", acaba, ele mesmo, incorrendo na criação de estereótipos sobre franceses e italianos.

Nesse caso específico, mr. Miles agradece a participação do leitor, mas argumenta que a utilização dos referidos estereótipos tinha o efeito de sublinhar seu lado negativo. "Sou obrigado a admitir, however, que, desde o tempo dos colaboracionistas do governo de Vichy, nunca resisto a uma chance de espicaçar nossos vizinhos de English Channel."

Mr. Miles ressalta, ainda, a copiosa argumentação do leitor Márcio Lopes, que manifesta entender perfeitamente que o colunista tenha o dever de evitar preconceitos, mas garante que, de fato, o comportamento dos ingleses é sempre mais cordial e simpático que o dos norte-americanos. A seguir, a correspondência da semana:

Querido mr. Miles: adoro as suas crônicas e adoro viajar. Mas a verdade é que pouco me interessam as atrações das cidades que visito. Eu viajo mesmo é para fazer compras! E aposto que muitos fazem o mesmo.

Marcella Mello Ramirez, por e-mail

"Well, dear Marcella: não são muitos os leitores que admitem essa característica com a sua naturalidade. Congratulations! Não serei eu, however, a incentivar esse tipo de turismo de consumo, por razões pessoais. Quase nunca vou às compras e tenho lá minhas diferenças pessoais com passageiros que trazem para bordo dos aviões uma infinidade de pacotes e sacolas, obstruindo, sem qualquer remorso, os nichos reservados para a bagagem de mão de muitos outros viajantes. Lembro-me, inclusive, de um voo em que, soterrado por uma sacola que devia conter diversos eletrodomésticos de chumbo, meu pobre bowler hat (chapéu coco) perdeu, definitivamente, a sua elegância.

Conheço, of course, um monte de gente que, as you do, viaja com o propósito de comprar, aproveitando-se das muitas e notáveis diferenças de valores que se pode encontrar em alguns países. São verdadeiros profissionais no assunto. Eles levam malas cheias de sacolas, de modo a ampliar o seu poder de carga no retorno. E, claro, compram outras malas quando se faz necessário. Não sei se é o seu caso, dear Marcella, mas reconheço tal tipo de viajante pelo olhar. São pessoas com as córneas cristalizadas, que quase não piscam e têm o dom de encontrar pechinchas nos cantos mais recônditos de cada loja. O mais curioso é que quase tudo o que adquirem não estava lhes fazendo qualquer falta e nem constava de seus planos de compra. 'É impossível resistir a uma oferta!', disse-me, certa vez, a querida Samantha Jones, vítima dessa mesma síndrome.

Já seu marido Henry vê a compulsão com uma certa ironia. 'Para fazer economia, Miles, minha Samantha não mede despesas'."

É O HOMEM MAIS VIAJADO DO MUNDO.

ELE ESTEVE EM 183 PAÍSES E

16 TERRITÓRIOS ULTRAMARINOS

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