Quando os amigos pedem favores

Em uma carta simples e direta, mr. Miles presenteia a redação com a pergunta da semana:

O Estado de S.Paulo

19 Fevereiro 2013 | 02h10

Mr. Miles: o que fazer quando um amigo pede que se transporte algo para o exterior ou do exterior para o Brasil? Aposto que muitos leitores já passaram por "saias justas" desse tipo…

Joana Marques Seibel, por e-mail

"Well, my dear Joana, eis um caso em que não há regras, senão as do common sense. Usar esse princípio, darling, pode ser muito simples. Um modo fácil de verificar se a demanda é justa é tentar inverter o seu papel, como viajante, com o do solicitante. Se alguém, for instance, lhe pedir a gentileza de transportar um pneu de Aero-Willys 1968 para um velho amigo colecionador de carros em Madri, será justo que você, politely, se recuse a fazê-lo. O requerente não se ofenderá, I presume. E, se o fizer, será justo que você reveja suas amizades.

Há outros casos que o bom senso rejeita. Por exemplo: pequenas entregas que lhe custarão horas de locomoção. O querido amigo sabe que você vai a Nova York e pede, com os olhos rasos d'água, que certa relíquia familiar seja entregue em algum subúrbio perto de Connecticut - o que o obrigará a alugar um automóvel, perder-se em anéis rodoviários e, of course, correr o risco de levar uma polpuda multa de trânsito. Sem contar com o dia perdido, no qual você poderia estar flanando pelo Village ou por Little Italy… Bad idea, isn't it?

Fuja também das encomendas de artigos raros. A priminha pede-lhe um indispensável livro de fitoterapia de autoria de um mestre oriental, que está esgotado desde 1971, 'mas que, em Nova York, com certeza se acha fácil'. Pronto: sua sonhada viagem pela Big Apple torna-se uma fastidiosa peregrinação por sebos, onde há Paulo Coelho em farsi e até exemplares da Bíblia em aramaico - mas nada, of course, do livro encomendado.

Decline, as well, do transporte de produtos que tenham propensão a causar embaraços com autoridades. Coisas aparentemente inofensivas como armas, entorpecentes ou explosivos podem causar-lhe constrangimento. Do you know what I mean? Ou mesmo um simples salame, um queijo minas fresco ou uma muda de samambaia. Os agentes de controle sanitário da maior parte dos países podem fazê-la pagar caro pelo favorzinho.

Quem pede favores como esses não tem bom senso, don't you agree? Então não se acanhe e diga não.

Be careful, anyway, com as chantagens emocionais. Não é fácil, por exemplo, dizer não a quem pede remédios para parentes adoentados. O problema é que, sem uma receita internacional válida, você não vai conseguir comprá-los - e, for sure, será chamada de desumana quando retornar com as mãos vazias. Life is not fair, my dear. Já aspirinas e outros remédios de uso liberado (as pessoas, unfortunately, sempre acham que o que se produz no exterior é mais forte e efetivo), você pode trazer à vontade. Assim como cola para dentaduras, adesivos nasais que prometem silenciar os que roncam e outras quinquilharias que já vi serem encomendadas em inúmeras ocasiões.

Vou lhe contar, em confidência, uma situação constrangedora em que me meti, a propósito, alguns anos atrás. Eram os anos da Cortina de Ferro e eu estava de partida para a então inexistente Letônia, quando uma conhecida, chamada Vinga, apareceu-me com uma pequena caixa de metal nas mãos. 'Oh, my God, Miles', pediu-me ela entre lágrimas, 'o último desejo de meu pai era que suas cinzas fossem jogadas no Rio Daugava. Aqui estão as cinzas de sua cremação', continuou, apontando para a caixinha. 'I beg you, my friend, faça essa homenagem a ele', insistiu Vinga.

Jamais conheci Bóris (esse era o nome do pai), mas também jamais pude resistir a uma mulher em lágrimas. No dia seguinte, portanto, desembarquei em Riga com Bóris no bolso de meu sobretudo, porque julguei profundamente desrespeitoso (e arriscado) colocá-lo na mala.

Unfortunately, my dear Joana, Bóris foi encontrado por um inescrupuloso agente alfandegário soviético, desses que ocupavam as capitais do leste europeu na ocasião. O burocrata, exaltado, imediatamente expropriou as cinzas. De nada adiantaram minhas explicações: o pai de Vinga, I presume, foi parar na prateleira de um almoxarifado. Nunca contei nada a ela e, of course, tenho algumas crises de remorso, embora, at least, o fato é que as cinzas de Boris repousam na Letônia. Aprendi, contudo, a não transportar desconhecidos no bolso. Como se vê, é só uma questão de common sense."

É O HOMEM MAIS VIAJADO DO MUNDO.

ELE ESTEVE EM 183 PAÍSES E

16 TERRITÓRIOS ULTRAMARINOS

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