Quando os destinos viciam

Instalado entre os 150 vinhedos particulares de uma propriedade chamada The Wines, em Mendoza e, segundo suas palavras, provavelmente um pouco embriagado com tão longa sequência de degustações, Mr. Miles nos envia sua correspondência semanal.

O Estado de S.Paulo

28 Outubro 2014 | 02h07

Boa noite Mr. Miles: acabo de ler um artigo seu que, por acaso, minha avó recortou e guardou para me mostrar. Vi que o senhor já passou por 183 países, e, a longo prazo, isso é exatamente o que eu gostaria de fazer: viajar o máximo que eu puder, absorver o máximo de conhecimento que eu conseguir, seja de uma comida nunca desfrutada antes ou mesmo de um homeless man. O fato de eu ter viajado sozinha, com 16 anos, para os Estados Unidos por 6 meses, me mostrou o quanto isso enriquece mente e alma. E não pretendo parar. Minha pergunta é: qual a melhor coisa (se é que podemos usar este termo) que o senhor conseguiu absorver, ao longo de todos esses anos de viagens, que o tornou uma pessoa melhor e em paz consigo?

Maria Fernanda Gaspar, por e-mail

"Well, dear Fernanda: gosto muito da maneira como você pensa e espero que sua vontade de viajar não seja apenas um arroubo de juventude. On the other hand, tenho, falado demais sobre esse tema. Algumas vezes, I must say, sinto-me tão entediante quanto um velho professor, desses que não se renovam - e, well, todo mundo já conheceu o seu.

Tudo o que sou, o que penso, digo e escrevo são as coisas que aprendi, em suas palavras, 'absorvendo de todos esses anos de viagens'. É natural que isso tenha ocorrido, porque essa é a minha vida.

O que, however, não significa dizer se me tornei uma pessoa melhor ou em paz comigo mesmo. Believe me, dear Maria Fernanda: seria necessário que eu tivesse vivido outra vida para comparar as duas. Quem sabe se eu tivesse me tornado um cobrador de trens em qualquer estação do Condado de Essex eu seria uma pessoa melhor? Ou se trabalhasse como engenheiro na Rolls-Royce?

It's hard to imagine. Tenho um bom amigo brasileiro que edita revistas de economia e é perfeitamente feliz com isso.

Entretanto, estou aqui no Vale do Uco, na Argentina, contemplando os Andes a partir da janela da villa de uma amiga irlandesa que comprou um vinhedo na região. O sol vai se pondo por trás dessas formidáveis montanhas que ultrapassam os 6 mil metros de altitude. Olho para elas e me parece que duzentos ou trezentos metros nos separam. E, quando pergunto a um gaucho que passa em seu cavalo crioulo, ele me informa que, na verdade, as montanhas ainda estão a mais de cem quilômetros de distância.

Fico pensando se estou confuso porque provei várias garrafas de malbec na pequena finca de los Gimenez ou se, mais uma vez, estou aprendendo a calcular a dimensão das coisas. Se esse for o caso, terei 'absorvido mais uma coisa incomparável', que é a total ausência de valores matemáticos, ópticos ou físicos para medir o impacto de uma beleza sem tamanho.

E para que servem essas ilações, darling? Provavelmente para nada. E será que elas fazem de mim uma pessoa melhor? I really don't know. Nevertheless, são coisas vagas como essas que compõem o repertório de quem vê o mundo com olhos de viajante. De quem pode parar para esperar que a nuvem vá embora, de modo a ver melhor um trecho sombreado da cordilheira. De pessoas, enfim, que viajam como eu, contam histórias e cometem aleivosias.

Se é isso que você quer, dear Maria Fernanda, fico à sua espera anywhere. Caso contrário, seja feliz do mesmo jeito."

É O HOMEM MAIS VIAJADO DO MUNDO.

ELE ESTEVE EM 183 PAÍSES E

16 TERRITÓRIOS ULTRAMARINOS

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