James D Morgan/Qantas
James D Morgan/Qantas

Quase 20 horas de avião: por dentro do voo mais longo do mundo

Companhia aérea Qantas bateu novo recorde no domingo, quando testou pela primeira vez um voo de 19 horas e 30 minutos entre Nova York e Sydney

Angus Whitley, Bloomberg News  

25 de outubro de 2019 | 08h00

Embarquei no voo mais longo do mundo – uma ultramaratona sem escala de 16,2 mil quilômetros de Nova York a Sidney que levou 19 horas e meia e foi quase tão exigente quanto se imagina.

O voo recordista da Qantas Airways aterissou domingo de manhã na Austrália. O Dreamliner, da Boeing, entregou em seu destino umas poucas dezenas de passageiros – incluindo este que vos escreve. Estavam todos mais ou menos intactos, embora alguns não soubessem bem que dia era.

A Qantas pretende iniciar esse voo economizador de tempo em 2022. Assim, nossa viagem teve como objetivo encontrar meios de enfrentar e reduzir as inevitáveis desvantagens, como tédio e maior jet leg. Eis como transcorreu minha viagem, em tempo real.

Decolagem

Pouco depois das 9 horas da noite no aeroporto JFK de Nova York, o laboratório voador decolou. Como a meta era nos adaptarmos o mais rapidamente possível ao horário da zona de destino, acertamos os relógios pelo horário de Sydney. As luzes da cabine permaneceram acesas. Devíamos permanecer acordados por pelo menos seis horas – até ser noite na Austrália.

Seis passageiros frequentes da Qantas seguiram um horário preestabelecido para comer, beber, exercitar-se e dormir. Eram monitorados por instrumentos nos pulsos. A maioria deles viu filmes ou leu, mas um começou logo a cochilar. Compreendi-o. Meu corpo também me dizia que estávamos no meio da noite em Nova York, embora Sydney estivesse na metade do dia.

Duas horas de voo

Hora de comer. Foram pratos especialmente elaborados e saborosos – com camarão, bacalhau, arroz-jasmim, sementes de gergelim. Como só havia 40 passageiros no avião, incluindo jornalistas, todos viajaram de classe executiva. O principal executivo do Projeto Sunrise de voos, Alan Joyce, disse-me que haverá mais espaço para as pernas na classe econômica.

Diferentemente das seis cobaias humanas que estavam no centro da pequisa, eu quis fazer minha própria bateria de testes para saber como meu corpo reagiria. Armei-me de medidores de pressão, saturação do oxigênio e batimentos cardíacos.

Nas três horas de testes que fiz na primeira metade do voo, minha pressão subiu, embora não excessivamente, e meus batimentos cardíacos se elevaram. Meu ânino estava bom, embora fosse piorando gradualmente.

Três horas de voo

A pressão física da experiência é patente. A meu lado, passageiros ficavam empé para se manterem acordados. A tripulação tinha de fazer relatórios sobre suas horas de sono e usar iPads para monitorar cansaço, carga de trabalho e estresse. Os seis passageiros frequentes, que iam ao lado da cabine, voltaram a dormir.

Quatro horas de voo

Marie Carroll, professora da Universidade de Sydney que coordenou as pesquisas sobre os passageiros, reuniu suas tropas na parte de trás do avião. “Agora é para valer”, disse ela. Momentos depois, eles estavam fazendo aolngamento e em seguida flexões. No fim, tentaram uma dança sincronizada (a Macarena). Tudo em nome da ciência.

Sete horas de voo

Chegou uma segunda refeição. Comer duas vezes numa sucessão relativamente rápida fez com que o tempo passasse mais depressa, pelo menos para mim, na primeira metade da viagem. A nova refeição era destinada a fazer os passageiros dormirem as próximas horas. Rica em carboidratos, a sopa de batata-doce com creme de leite fresco era rica e espessa. O sanduíche de queijo tostado, nem tanto.

As luzes foram reduzidas ao mínimo e eu me senti bem. Apaguei por no mínimo seis horas. Não me lembro de ter dormido tanto assim em voos, mesmo nas poltronas-camas da classe executiva.

Quatorze horas de voo

Meus testes médicos próprios sugeriram que eu estava aguentando. Minha pressão voltou ao normal e o coração bateu mais devagar. Testes de memória e questionários mostraram que minha mente estava ágil e que o ânimo havia melhorado.   

A pesquisa com passageiros e tripulantes vai alimentar o Projeto Sunrise. A Qantas planeja fazer voos comerciais diretos ligando Sydney a Nova York e Londres. Podem vir em seguida voos semelhjantes para a América do Sul e a África.

Joyce me disse que vai adotar com certeza o regime desse voo inicial em outras rotas longas – se a ciência concluir a experiência funcionou.

Mas não pense você, por enquanto, em reservar lugar em voos longos sem escala. A Qantas precisa ainda de novos aviões, Boeing ou Airbus, que possam cobrir o percurso lotados. São também necessários novos acordos trabalhistas com tripulantes que vão trabalhar 20 horas.

Joyce inicialmente sonhava em transformar esses voos longos em “hotéis voadores”, com beliches e sala de ginástica. Mas o sonho deu lugar à realidade ante a constatação de que as margens de lucro não compensariam o despercício de espaço em tais luxos. Nosso avião não tinha uma carga total de passageiros com bagagem. Para diminuir o peso, o avião não levava carga e a comida e a bebida foram limitadas.    

Dezessete horas de voo

Hora do desjejum, sem salsicha. No lugar disso veio uma tigela de grãos variados, purê de abacate, queijo haloumi quente e salada de ervas. Esse voo virou mesmo tudo de cabeça para baixo.   

Um dos passageiros frequentes, o investidor Nick Mole, estabelecido em Sydney, disse que conseguiu dormir quase oito horas e estava se sentindo bem. Dá para enfrentar um dia de trabalho após desembarcar? “Provavelmente sim”, respondeu ele.

Preparar para aterrissagem

Sinto-me melhor agora do que me senti após viajar de Sydney para Nova York há alguns dias num voo com uma escala. As cerca de dez horas que levei paara chegar a Los Angeles foram seguidas de uma desgastante hora e meia de fila na imigração, com centenas de outros passageiros transformados em zumbis.

Cheguei cansado a Sydney, na hora do almoço de domingo, mas não debilitado. Acabei até indo a uma festa de aniversário de criança, o que é um duro teste para os nervos de qualquer um.  

Pessoalmente, eu preferiria um voo direto Sydney-Nova York do que um com escala. Mas isso não serve para todos. É preciso disciplina e força de vontade para se adaptar à rotina de não dormir na primeira metade do voo. O benefício de se chegar diretamente ao destino tem um preço, mas sinto que paguei por ele. / TRADUÇÃO DE ROBERTO MUNIZ  

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