Newseum/Divulgação
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Quatro lugares inesperados onde o Muro de Berlim ainda pode ser visto

Com a queda do muro que dividia as duas Alemanhas, há 30 anos, diversos pedaços da estrutura foram vendidos e/ou se espalharam pelo mundo

Ruby Mellen, Washington Post

20 de novembro de 2019 | 09h00

Quando a fronteira entre a Alemanha Oriental e a Ocidental foi aberta na noite de 9 de novembro de 1989, pessoas que festejavam o acontecimento cortaram e esculpiram o Muro de Berlim, que dividia a cidade há décadas. Elas estavam tentando abrir caminho para que as pessoas atravessassem, mas também manifestando a revolta contra uma estrutura que havia sido um símbolo de opressão e divisão durante décadas.

O muro foi erguido em 1961 para impedir que os moradores da Alemanha Oriental, dominada pelos soviéticos, desertassem para o Ocidente - como havia acontecido em massa. Uma vez que a barreira de concreto foi instalada, ser pego tentando atravessar sem autorização tinha implicações de vida ou morte. Entre 1961 e 1989, pelo menos 140 pessoas foram mortas pela polícia da Alemanha Oriental por tentar escapar.

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Demorou mais de um ano para o muro, que se estendia por cerca de 184 quilômetros, ser completamente demolido. Parte do material foi reciclada para a construção de estradas, mas o capitalismo também se mobilizou rapidamente, e o governo alemão começou a procurar compradores de todo o mundo para a aquisição e exibição de partes do muro.

Trinta anos depois, pedaços do Muro de Berlim viajaram para fora das fronteiras da Alemanha, para seis continentes e dezenas de países, onde agora servem como memoriais de um passado perturbador e de uma alegre libertação. Mas, independentemente de quão longe da Alemanha os segmentos do muro viajem, a mensagem, disseram curadores e historiadores, sempre chega perto de casa.

Ein Hod, Israel

Para Raya Zommer-Tal, trazer parte do Muro de Berlim para Israel não era uma escolha óbvia. Diretor do Museu Janco Dada, nos arredores de Tel Aviv, Zommer-Tal estava em Berlim em 1991, quando o diretor do Museu Checkpoint Charlie, que comemora o famoso posto de controle em Berlim Oriental, fez uma pergunta: será que ela estaria disposta a fazer uma exposição em Israel, sobre a história da vida na Berlim Oriental? Ele disse que eles lhe enviariam um pedaço do muro para exibir, se ela concordasse.

Zommer-Tal hesitou. Este não era realmente o tipo de exposição para o museu dela, que se concentrava principalmente no movimento de arte Dadaísta - uma forma absurda de expressionismo que surgiu em reação aos horrores da Primeira Guerra Mundial. Mas, como ela propôs a seus colegas em Israel, o assunto tinha uma conexão com os ideais antiguerra do movimento dadá.

A exposição, inaugurada no início de 1992, ocupou todo o espaço do museu, exibindo o trabalho das representações de artistas alemães na parede, além de objetos e engenhocas que as pessoas que moravam na Berlim Oriental usavam para escapar. Zommer-Tal lembra-se de dar voltas em um carro que tinha um compartimento especial usado para contrabandear pessoas para Berlim Ocidental.

A mostra atraiu tantas pessoas que eles tiveram que estender sua permanência, ela disse. Enquanto isso, o pedaço do muro era grande demais para caber dentro do museu, então eles o colocaram do lado de fora, onde está até hoje - Zommer-Tal brinca que foi mais barato para os alemães deixá-lo em Israel do que pagar para transportar o bloco de volta para a Europa.

“Foi muito especial o que fizemos e que tenhamos essa peça, porque é muito simbólica”, disse ela. Mas nem todo mundo ficou satisfeito com uma exposição sobre o sofrimento dos alemães. “Não foi muito fácil fazer esse tipo de exposição há quase 30 anos”, observa Zommer-Tal. “Muitos sobreviventes do Holocausto não gostaram dela”. Por isso era importante, disse.

“Foram os próprios alemães os responsáveis, mas eles também sofreram por causa do que aconteceu na Berlim Oriental naquela época. Não é apenas uma decoração ou uma peça histórica; tem algum significado aqui em Israel”, afirmou ela. O segmento do muro foi posteriormente dedicado às pessoas mortas durante o Holocausto.

Washington D.C., Estados Unidos

Entre no espaçoso hall de entrada do Newseum de Washington, DC, um museu dedicado à liberdade de expressão e à imprensa livre, e você será direcionado ao porão para iniciar o tour. Estão lá, com 2,5 toneladas cada, oito segmentos com mais de três metros de altura do Muro de Berlim, totalmente caiados de branco no que antes era o lado que encarava a Alemanha Oriental, e colorido e rabiscado de grafite no lado que encarava o Oeste. Sobre os trechos da parede, ergue-se uma autêntica torre de guarda da Alemanha Oriental, com a altura de três andares.

Chris Wells, vice-presidente sênior do Freedom Forum, a organização patrocinadora do Newseum, viajou para Berlim em 1993 e comprou os oito segmentos por cerca de US$ 5 mil cada (mais o frete). A torre, disse ela, foi um presente para o Newseum, que em troca doou US$ 15.000 ao Museu Checkpoint Charlie.

“O muro é o maior e o mais icônico símbolo do que é a falta de imprensa livre e por que isso é tão crítico para a democracia”, disse Wells, em um podcast de 2014, observando que o que estava separando a mídia livre de Berlim Oriental era o muro.

O espaço atual do Newseum na Pennsylvania Avenue foi construído em torno do muro e da torre, disse Sonya Gavankar, diretora de relações públicas do Freedom Forum.

“Metade dos nossos visitantes são crianças em idade escolar”, disse Gavankar. “Portanto, o Muro de Berlim e a Guerra Fria são história antiga para eles. Como as coisas eram na Guerra Fria podem com a falta de liberdade de expressão – nada explica melhor do que aquelas peças de concreto de 3 metros”.

Gavankar diz que as peças serão instaladas em um arquivo até que seja encontrado um novo lar para elas quando o Newseum fechar suas portas, no fim de 2019.

Fulton, Missouri, Estados Unidos

A história de como o Muro de Berlim chegou a Fulton (13 mil habitantes) data de 5 de março de 1946, quando o então primeiro-ministro britânico Winston Churchill viajou para o Fulton Westminster College para fazer um discurso. Ele havia sido convencido a fazê-lo por um bom amigo e natural de Missouri, o ex-presidente Harry S. Truman.

Lá, Churchill fez o que ficou conhecido como seu famoso discurso “cortina de ferro”, que alertou sobre a ameaça iminente de agressão soviética. “De Stettin, no Báltico, a Trieste, no Adriático, uma cortina de ferro desceu pelo continente”, disse Churchill. O Muro de Berlim incorporou fisicamente a metáfora de Churchill, selando a Alemanha Oriental do Ocidente com seu cinza de aço.

Quando o muro caiu em 1989, a neta de Churchill, Edwina Sandys, uma artista, teve a ideia de construir uma instalação em Fulton, que, segundo ela, “parecia ser o lugar perfeito”.

Ela viajou para Berlim no início de 1990 e conseguiu oito seções, que os alemães lhe deram quandoperceberam quem era seu avô, ela suspeita. As peças viajaram de navio para Long Island, onde Sandys esculpiu duas aberturas na parede em forma de figuras humanas. Ela intitulou o trabalho Breakthrough (“Grande Progresso” ou “Atravessar”).

“Se você estiver lá, precisa passar por isso”, disse Sandys, acrescentando que isso encoraja as pessoas a se voltar para suas meditações pessoais, resoluções ou prisões de antemão e depois “avançar”.

O muro em Fulton trouxe muitos convidados ilustres. O ex-líder soviético Mikhail Gorbachev, a ex-secretária de Estado Madeleine Albright, a ex-primeira-ministra britânica Margaret Thatcher e o ex-presidente Ronald Reagan fizeram discursos lá.

“Em um lugar como Fulton, a história não parece antiga. A história está viva”, disse Tim Riley, diretor e curador-chefe do Churchill Museum em Fulton, onde está Breakthrough. “Quando comemoramos e celebramos o fim da barreira, também precisamos lembrar e educar. Os muros nem sempre funcionam. E este é um excelente exemplo.”

Cidade do Cabo, África do Sul

Em 1996, um pedaço do Muro de Berlim viajou para a África do Sul como um presente para o então presidente Nelson Mandela. Hoje, fica na Cidade do Cabo, fora da Fundação Mandela Rhodes, que serve principalmente como uma organização de bolsas de estudo para estudantes africanos.

O presente chegou em um momento importante tanto para a Alemanha como para a África do Sul. “No início dos anos 1990, a Alemanha e a África do Sul começaram a desmontar as divisões criadas durante a Guerra Fria e o apartheid, respectivamente”, disse Judy Sikuza, CEO da Fundação Mandela Rhodes. “O Muro de Berlim representou fisicamente essas barreiras e divisões. Era um símbolo de falta de liberdade e de aceitação da nossa humanidade comum".

Na Cidade do Cabo, ela disse que o muro serve como um lembrete inspirador, embora ameaçador: “Ter um pedaço do Muro de Berlim fora de nossos escritórios", disse Sikuza, "é um símbolo de quanto avançamos - das liberdades políticas e sociais que alcançamos na África do Sul - e das formas como continuamos sendo divididos”./ TRADUÇÃO CLAUDIA BOZZO

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