Aeroporto de Pittsburgh/Divulgação
Aeroporto de Pittsburgh/Divulgação

Que tal passear no aeroporto? Agora você pode mesmo sem passagem aérea

'Turismo de terminal': aeroportos norte-americanos abrem áreas restritas para quem quer apenas encontrar alguém no embarque/desembarque, comer em um restaurante e/ou fazer compras

Hannah Sampson, WP Bloomberg/Washington Post

21 de novembro de 2019 | 09h00

Christina Cassotis sempre ouvia a mesma pergunta nos eventos públicos: por que não podemos dar uma volta no aeroporto, como nos velhos tempos?  “Ouvíamos as pessoas dizendo: adoraria entrar lá, jantar em um bom restaurante, fazer compras, receber minha filha quando ela desce do avião com meu neto”, diz Cassotis, CEO da Autoridade Aeroportuária do Condado de Allegheny, que administra o Aeroporto Internacional de Pittsburgh. “Estava entre as cinco principais perguntas em todos os eventos. Até que nos perguntamos: por que não?”.

Após consultar o Departamento de Segurança Interna dos Estados Unidos e a Administração de Segurança de Transporte (TSA, na sigla em inglês), o aeroporto criou o “myPITpass”, um programa que possibilita que pessoas que não têm cartão de embarque visitem lojas, restaurantes e portões de embarque e desembarque que ficam depois dos postos de verificação de segurança.

Pittsburgh, importante centro de operações das companhias aéreas americanas, lançou o programa em setembro de 2017, e cerca de 40 mil pessoas já aproveitaram as vantagens até agora. O Aeroporto Internacional de Seattle-Tacoma implementou uma versão durante seis semanas no fim de 2018 e recebeu 1.100 pessoas, embora as autoridades ainda não tenham decidido se vão retomar o programa de maneira permanente.

Desde então, o Aeroporto Internacional de Tampa criou o programa “TPA All Access” em maio e, de lá para cá, expandiu-o para permitir a visita de mais pessoas. O Aeroporto Metropolitano de Detroit acabou de lançar o “DTW Destination Pass”, no mês passado, um programa-piloto que termina em 5 de janeiro. E outros aeroportos, como o Aeroporto Internacional de Austin-Bergstrom, disseram que estão pensando na possibilidade. A Bloomberg batizou o conceito de “turismo de terminal”.

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Quem se interessa?

Mas espere um segundo. São aeroportos! Por que alguém em sã consciência iria querer passar mais tempo dentro deles, especialmente com a obrigação de se sujeitar às triagens de segurança da TSA? Os administradores de aeroportos dizem que as pessoas que participam dos programas dão vários motivos, entre eles dar boas-vindas ou se despedir de um ente querido, fazer compras, comer nos restaurantes ou simplesmente passar o tempo admirando os aviões com as crianças.

No Aeroporto Internacional de Tampa, um estabelecimento gastronômico em particular se mostrou bastante popular: “Temos a única Potbelly Sandwich Shop do estado da Flórida”, diz a porta-voz do aeroporto, Emily Nipps. “Sabíamos que a Potbelly seria um sucesso, mas, caramba, é só uma sanduicheria”.

Ela disse que o aeroporto também tem filiais de restaurantes bem conhecidos na região, como o Ulele e o Columbia Restaurant Cafe – lugares famosos o bastante para atrair algumas pessoas mesmo no meio da multidão de malas.

Outros aeroportos estão tomando a mesma direção – e muitos estão ansiosos para receber o público, diz Colleen Chamberlain, vice-presidente de política de segurança da Associação Americana de Administradores de Aeroportos.

“Agora há um verdadeiro esforço para criar um senso de lugar nos aeroportos, para que você não fique apenas lá sentado naquelas cadeiras cinzas com paredes brancas”, diz ela. Fã inveterada de aeroportos, Chamberlain acrescentou: “É um aeroporto, e o que é mais legal do que ver os aviões partindo e chegando?”.

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Para Matt Garland, autodeclarado nerd de aviação que mora perto de Pittsburgh, foi o programa perfeito para uma tarde com os filhos Nathaniel, de 5 anos, e Evangeline, de quase 3. Eles viram um esqueleto de Tiranossauro Rex gigante, uma escultura enorme tipo Transformer e uma oficina de conserto de robôs que, na verdade, era uma instalação de arte.

“É muito bom poder entrar, especialmente se você gosta de aviação”, diz Garland, que trabalha no planejamento estratégico da Deloitte Consulting. “É bom poder mostrar as coisas para as crianças também, principalmente porque viajo bastante”.

Tendência

A experiência que ele e seus filhos tiveram não seria novidade nos tempos anteriores aos ataques de 11 de Setembro. Já havia triagem de segurança na época, mas o cartão de embarque não era necessário, diz Chamberlain.

Muito antes do myPITpass, vários aeroportos, incluindo Pittsburgh e Detroit, fizeram acordos com a TSA para que hóspedes de hotéis específicos pudessem passar pelos postos de segurança e comer em restaurantes do aeroporto, mesmo que não tivessem cartões de embarque. Pittsburgh também iniciou uma campanha de férias em 2014 para permitir a visita de pessoas sem cartões de embarque.

“É definitivamente uma tendência que desperta interesse suficiente para que a TSA adote uma espécie de política regulatória para os aeroportos interessados em implementar esse tipo de programa”, diz Chamberlain. “Não é mais um caso isolado”.

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Acesso controlado

Qualquer aeroporto pode decidir receber os passageiros sem cartão de embarque, diz Jenny Burke, porta-voz da TSA. “Para tanto, a TSA trabalha com a autoridade aeroportuária para projetar o programa que permitirá o acesso ao aeroporto, sem afetar o fluxo dos procedimentos de triagem para quem está viajando”, diz ela.

Cada aeroporto que abre as portas tem uma configuração um pouco diferente. Alguns definem um número máximo de visitantes por dia e todos limitam o acesso a horários fora da hora de pico. Todos os visitantes estão sujeitos às mesmas regras da TSA que os passageiros e devem compreender que as pessoas com passagem aérea tenham prioridade caso haja filas.

Em Tampa, o acesso está disponível apenas para 150 pessoas, das 8h às 20h, aos sábados, um dia de movimento mais tranquilo. Nipps diz que houve cerca de 2.600 visitantes até agora e que o programa pode ser expandido para incluir mais dias da semana. Os visitantes precisam se inscrever com pelo menos 24 horas de antecedência, escolher o setor que desejam visitar, mostrar um documento com foto e depois passar pela segurança, como qualquer passageiro.

“As pessoas adoram”, diz Nipps. “Não há nenhuma desvantagem. Não sobrecarrega em nada nossas filas de TSA, muito menos os restaurantes e lojas”.

No Aeroporto Metropolitano de Detroit, onde os hóspedes do hotel Westin têm acesso ao aeroporto há quase 13 anos, o novo programa permite que não mais de 75 pessoas usem o Destination Pass por dia, das 8h às 20h, de terça a domingo. A segunda-feira é o dia mais movimentados do aeroporto, então fica de fora do programa.

As pessoas precisam se inscrever um dia antes da visita e, se aprovadas, mostrar um documento para obter a permissão e, depois, passar pela segurança. Debra Sieg, chefe de segurança, disse que a TSA averigua cerca de 40 mil passageiros por dia, então adicionar outros 75 “não faz a menor diferença”.

No final do mês passado, ela disse que as inscrições se esgotam todos os dias, embora nem todos os inscritos apareçam. Pesquisas mostraram que o principal motivo para usar o programa é receber alguém que está chegando ou ir ao portão de embarque com alguém que está partindo. Depois, comer e fazer compras.

“O que estamos percebendo é que as pessoas estão gastando dinheiro”, diz Sieg. “O que, para nós, é importante, mas não chega a ser nosso objetivo principal”.

O Aeroporto Internacional de Pittsburgh não exige inscrição antecipada, e seu programa funciona apenas das 9h às 17h, de segunda a sexta. Os visitantes precisam apresentar um documento no balcão designado MyPITpass e, depois, passar pela segurança.

Cassotis, CEO da autoridade aeroportuária, diz que não acha que a tendência faça sentido para todos os aeroportos. Mas tem certeza de que está funcionando no seu. “As pessoas em Pittsburgh têm muito orgulho do aeroporto”. / TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU

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