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Quebec, a província francesa do Canadá, desabrocha depois da neve

Festivais de música, passeios ao ar livre, sabores frescos com toque francês. Quando o inverno se vai e o sol esquenta, a província de Quebec desperta – e só volta a cochilar no fim do verão

Nathalia Molina, Especial para O Estado

13 Abril 2015 | 18h20

Alegria de viver

Uma taça de rosé, o céu azul, o Rio Saint-Laurent. Da varanda do restaurante do Pointe-à-Callière, museu de arqueologia e história de Montreal, o contorno do Vieux-Port se estica até se perder no horizonte. Lá embaixo, a velha zona portuária da cidade fervilha na tarde de domingo. Depois de meses congelantes, ele chegou: o calor.

Quebec, a província francesa do Canadá, vê as temperaturas caírem aos 20 graus negativos a cada inverno – neste ano, foram até mais frias. De maio a setembro, esquenta. Nas duas principais cidades da província, Montreal e Quebec (a capital), a mínima pode ser de zero grau em abril e voltar a ser assim no fim de outubro. Em julho, a máxima bate em cerca de 25 graus. Mas as temperaturas registradas pela canadense The Weather Network, empresa de previsão do tempo, variam ano a ano até 30 graus negativos para o mesmo número, positivo, no verão.

É tempo, então, de ocupar ruas, praças, parques. Tudo em clima festivo, animado por bicicletas e temperado por um delicioso toque europeu que a província orgulhosamente cultiva. A identidade cultural forte faz de Quebec um outro Canadá.

Maior província canadense, Quebec é a segunda mais povoada, depois de Ontário. Responde por cerca de um quarto da população do Canadá. Seus 8,2 milhões de habitantes vivem essencialmente em cidades próximas ao curso do Rio Saint-Laurent, de grande importância para a história local e do país.

Foi por ele que começou a colonização francesa no Canadá, em 1534, com a primeira expedição de Jacques Cartier. O navegador retornou outras vezes e descobriu a área onde depois nasceria Montreal. Em 1608, o explorador Samuel de Champlain fundou o primeiro assentamento da França na América do Norte, num pedaço onde atualmente está a cidade de Quebec. 

O domínio francês durou até a era industrial, mas os québécois fazem questão de manter presente sua herança até hoje. Não apenas no idioma – ali o inglês é segunda língua –, mas no estilo de vida. Em apreciar as artes, em valorizar o patrimônio histórico e a natureza, em sorver o vinho, em degustar as refeições.

Baseada na cozinha francesa, a gastronomia de Quebec incorpora também influências dos aborígines, os primeiros habitantes, e dos britânicos, que tomaram posse da região em 1759, durante a Guerra dos Sete Anos. Com o calor, as varandas dos restaurantes ficam disputadas e ingredientes frescos surgem nos cardápios. Mesmo com tempo quente, um clássico a ser provado é poutine, prato da área rural de Quebec, preparado com batatas fritas cobertas de queijo coalhado e molho de carne.

Para quem aprecia gastronomia, o turismo gourmet na província não se limita a comer bem. Oferece ainda a chance de entender o valor que os québécois dão à terra e ao que dela nasce. É no verão que pequenos produtores rurais de Île d’Orléans e Charlevoix, regiões próximas à cidade de Quebec, abrem suas propriedades aos visitantes para apresentar especialidades como queijos e geleias.

Casa nova. Em 1.º de julho, a Fête du Canada comemora a criação do país, em 1867. Há espetáculos e shows de fogos nas cidades canadenses. Em Quebec, também, mas com uma particularidade: o feriado é o Dia da Mudança, quando terminam ou começam os contratos de aluguel ou compra e venda. Não estranhe, então, se topar com um pessoal carregando sofá pelos bairros.

Cerca de 25% dos moradores tiram férias nas duas últimas semanas de julho, segundo informações do governo da província francesa. Tradicionalmente chamada de vacances de la construction (algo como férias para construção; a neve derreteu, é hora de arrumar as ruas), a folga pode resultar em mais visitantes em alguns lugares. Mesmo no restante das outras semanas de clima quente, o movimento é intenso. É alta temporada.

Nada que um sorvete de bordo (o famoso maple) não resolva – a província de Quebec está entre as principais produtoras do xarope. Ao estilo francês, experimente flanar. Andar sem destino e ir esbarrando em beleza. Quando cansar, há sempre uma varanda, uma taça de vinho. A tal alegria de viver. Joie de vivre, à moda de Quebec.

Um castelo sem nobreza e a nobreza do patrimônio

Imponente no alto da cidade murada – a única na América do Norte acima do México –, Le Château Frontenac é onipresente na paisagem de Quebec. O castelinho sempre aparece em fotografias e pinturas e vive lotado de turistas. Lá eles descobrem que o Frontenac nunca abrigou reis ou nobres. Já foi concebido para ser um hotel da companhia ferroviária Canadian Pacific Railway. Abriu em 1893, ainda incompleto, e desde 2001 é administrado pela Fairmont (fairmont.com/frontenac-quebec). A rede fez no hotel uma renovação de US$ 75 milhões, entregue em julho de 2014.

Muitos visitantes começam a visita a Quebec por ali. O castelinho, que virou símbolo da cidade, tem localização estratégica. O panorama exibe o Rio Saint-Laurent, as construções da capital e a Citadelle (lacitadelle.qc.ca), fortificação em formato de estrela, no ponto mais alto da cidade. Construída entre 1820 e 1850, abraça vários prédios – entre eles, o mais antigo edifício militar canadense, de 1693. Lá funciona o Musée Royal 22.º Régiment, sobre a história desse regimento. De 24 de junho a 1.º de setembro, às 10 horas, há troca da guarda.

A Citadelle se integra à muralha de 4,6 quilômetros de extensão que cerca a parte alta de Quebec, sistema defensivo erguido entre 1608 e 1871. É possível se aventurar por ela seguindo um mapa ou fazer um tour guiado.

Pelo valor arquitetônico e histórico da muralha e das construções, Vieux-Quebec (área antiga da cidade) foi declarada Patrimônio Mundial pela Unesco em 1985. Caminhar por essas charmosas ruas é o mais prazeroso passeio na capital da província francesa. Nos dias de calor, o Terraço Dufferin, em frente ao Frontenac, lota de gente.

Pertinho dali, cabeças disputam um ângulo de visão para as pinturas expostas na estreita Rue du Trésor ou para a riqueza do interior da Notre-Dame de Quebec, basílica erguida em 1664. São as ruas cheias de butiques, restaurantes e cafés em edifícios centenários que dão a Quebec um ar encantador, especialmente nas ruas Saint-Louis, Saint-Jean e Saint-Paul.

Para momentos doces, é indicada uma pausa em dois pequenos museus da Saint-Jean: do chocolate, no número 634, na Chocolaterie Érico (ericochocolatier.com); e do bordo (ou maple, chamado em francês de érable), no número 1.044, na Les Délices de l’Érable (mapledelights.com). As duas vendem também produtos elaborados com os ingredientes.

Siga pela Rue Saint-Paul para ver o resto da cidade. A Grande Allée leva à Colline Parlementaire, o parlamento (assnat.qc.ca), em edifício do fim do século 19. E ao Parc des Champs de Bataille. Foi ali que, em 1759, o general Wolfe derrotou o francês Montcalm na Batalha das Planícies de Abraão, levando a França a ceder o Canadá à Grã-Bretanha quatro anos depois.Por ano, 4 milhões de pessoas visitam esse parque, na região conhecida por Plaines d’Abraham (lesplainesdabraham.ca). Há até um jardim em homenagem a Joana D’Arc. 

Na Avenue Cartier, para além da zona turística tradicional, pausa para um lanche no Picardie Cartier (picardiecartier.com), café com deliciosos pães, frios e pastas. Fora do circuito básico, outra direção é o descolado Saint-Roch, bairro mais afastado. Antigas fábricas foram renovadas e hoje atraem artistas e estudantes. Na Rue Saint-Joseph e no Boulevard Charest há cafés, bares, galerias e lojas de estilistas regionais, como a Signatures Québécoises (signaturesquebecoises.com).

Também há design e galerias de arte na Vieux-Quebec, perto do porto. Ali, no Quartier Petit-Champlain, nasceu Quebec em 1608, no ponto onde fica a Place-Royale. A bela igreja Notre-Dame-des-Victoires, de 1688, é toda de pedra, assim como as ruas de pedestres da região. Há butiques e bistrôs na Rue du Petit-Champlain e em seu entorno. A viela é considerada a rua mais antiga da América do Norte.

Para retornar à parte alta de Quebec, você pode encarar a Escalier Casse-Cou (Escadaria Quebra Pescoço) ou tomar o funicular Du Vieux-Québec (funiculaire-quebec.com), em operação desde 1879. O trajeto inclinado a 45 graus descortina o porto e o Rio Saint-Laurent, na subida de volta ao Terraço Dufferin.

Durante o verão, fica lotado, ainda mais nas noites de fogos de artifício – neste ano, entre 1.º e 19 de agosto, às 21 horas, às quartas-feiras e sábados. 

Em busca de ingredientes e preparos da terra

O francês Bernard Monna chegou a Île d’Orléans no início dos anos 1970. Na ilha no Rio Saint-Laurent, cultiva cassis e faz saborosos produtos com a frutinha, como vinho para aperitivo, geleia e creme. Île d’Orléans é uma área de Quebec essencialmente rural, com vilarejos e casarões históricos – foi um dos pontos onde começou a colonização francesa no Canadá.

Acessível por uma ponte em frente ao Parque de La Chute-Montmorency (sepaq.com/chutemontmorency), com uma queda d’água de 83 metros, a ilha se estende pelo Rio Saint-Laurent e oferece a oportunidade de explorar o rico agroturismo da província, a 5 quilômetros de Quebec.

Na entrada da ilha, o Cassis Monna & Filles (cassismonna.com) é um dos 25 participantes da rota gourmet Le Parcours Gourmand (parcoursgourmand.com) e funciona numa bonita casa, aberta à visitação de maio a novembro – no restante do ano é preciso agendar. Anne e Catherine, filhas de Bernard, estão à frente do negócio, com uma plantação de 50 mil metros quadrados de cassis e produção anual média de 30 mil garrafas. 

São famosos os morangos de Île d’Orléans. A fruta levou Catherine Trudel e Vincent Paris a fundar a Confiturerie Tigidou (tigidou.ca). Nascidos e criados na ilha, rodaram o mundo antes de voltar para casa e começar a produzir geleias e compotas. Aberto à visitação de junho a outubro, o lugar é uma graça, com mobiliário de época. O casal jovem mantém uma produção pequena, caprichada, com açúcar orgânico e ervas do jardim de casa. 

Adiante. Estique além de Île d’Orléans e siga ao longo do Rio Saint-Laurent em direção a Charlevoix. A região é procurada para observação de baleias. Barcos partem de Saint-Siméon, de Baie-Sainte-Catherine e de Tadoussac, todas no parque marinho Saguenay-Saint-Laurent, vizinho a Charlevoix. Levam gente para ver as gigantes do mar, que vão ali para se alimentar do verão ao outono. Espécies mudam conforme a época. A baleia azul costuma aparecer entre agosto e outubro. A jubarte, em junho e julho.

Charlevoix (tourisme-charlevoix.com) inspirou obras do Grupo dos Sete, pintores que marcaram a arte canadense na década de 1920 retratando paisagens do país. Especialmente o vilarejo de Baie-Saint-Paul, onde floresceu o Cirque du Soleil.

A 100 quilômetros de Quebec, Baie-Saint-Paul atrai artistas ainda hoje, inspirados por seu vale e suas casas centenárias. No centrinho, as ruas estreitas enfileiram lojas, restaurantes e o Museu de Arte Contemporânea (macbsp.com). Nos arredores, estão participantes da Route des Saveurs, a rota dos sabores de Charlevoix. Aproximadamente 30 produtores rurais e chefs introduzem os visitantes ao melhor do agroturismo, a Charlevoix autêntica. 

No vilarejo de Saint-Urbain, Isabelle Mihura e Jean-Jacques Etcheberrigaray criam patos mulard artesanalmente. Os produtos da La Ferme Basque (lafermebasque.ca), como patês e rillettes, têm selo de procedência.

Para completar a cesta de piquenique, brioches e croissants da Boulangerie Meunerie La Rémy (moulindelaremy.com), padaria em Baie-Saint-Paul, feitos com a farinha de trigo orgânica processada ao lado, no moinho de água construído em 1827.

A Maison d’Affinage Maurice Dufour (fromagefin.com) é fábrica e loja do premiado produtor de queijos que dá nome à casa. Prove Le Bleu de Brebis, azul feito com leite de ovelha, e Le Migneron, que deu notoriedade à queijaria.

Banho para relaxar e entrar nos trilhos

A quase 39 graus, a água da piscina relaxa os músculos cansados por um dia cheio, que começou em Quebec e terminou 100 quilômetros e vários produtores rurais depois, em Charlevoix. Só essa imersão quentinha já serviria de relaxamento para a mente também. Mas o céu que pinta de azul o horizonte em todas as direções, com rastros de nuvens, supera aquelas fotografias feitas para deixar qualquer um zen.

Os banhos ao ar livre no spa do Hôtel La Ferme, em Baie-Saint-Paul, alternam calor e frio (na banheira a 12 graus), no programa chamado de Nordic Spa Experience. Quando cansar de choque térmico, o espaço interno está estrategicamente virado para o exterior. Janelões de vidro trazem a paisagem até as espreguiçadeiras. Todo o projeto valoriza o cenário. Com linhas retas e design contemporâneo, o hotel se destaca de longe pelo enorme portão de celeiro vermelho. Tudo para preservar a história do lugar, onde já existiu uma fazenda – em francês, ferme, palavra que batiza o empreendimento.

Um projeto arrojado, o hotel pertence ao grupo Le Massif de Charlevoix (lemassif.com), de Daniel Gauthier, um dos fundadores do Cirque du Soleil. O La Ferme ocupa cinco prédios e tem 145 apartamentos, café, bar-lounge e restaurante. De ambiente informal, o restaurante Les Labours apresenta os sabores de Charlevoix. As diárias custam a partir de US$ 135 o casal, com Wi-Fi, mas sem café da manhã.

Olha o trem. Lá também há uma estação onde para o Train Léger de Charlevoix, trem que parte do Parc de La Chute-Montmorency, parque perto de Quebec. Seguindo a filosofia do Le Massif de apoiar iniciativas regionais, a partir deste verão o grupo trabalha em parceria com a Réseau Charlevoix (reseaucharlevoix.com), organização sem fins lucrativos, responsável pela operação e pela manutenção de equipamentos públicos usados nos serviços turísticos da região de Charlevoix.

Entre 13 de junho e 11 de outubro, duas rotas serão oferecidas. De Baie-Saint-Paul a La Malbaie, custa 40 dólares canadenses (R$ 97) por pessoa, ida e volta. Em La Malbaie, ficam o cassino de Charlevoix e o Le Manoir Richelieu, hotel da rede Fairmont, erguido em 1899 (fairmont.com/richelieu-charlevoix; diárias desde 179 dólares canadenses ou R$ 445).

Sempre de quarta-feira a domingo, há quatro frequências no percurso mais em conta e três no trajeto entre Quebec e Baie-Saint-Paul (a 75 dólares canadenses ou R$ 181). No suave balanço, os trilhos desenham o percurso rente ao Rio Saint-Laurent. A cada curva, um espelho d’água na janela. 

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