Quem viaja é de paz

Há duas questões que estão incomodando muito os leitores e são elas que aparecem com mais frequência na caixa postal de mr. Miles. Nosso dileto colaborador que, apesar da provecta idade, está fazendo uma viagem de snowmobile pelo norte do Canadá, decidiu respondê-las no computador do Manoir St. Jean, um albergue enterrado na neve ao norte de Québec. Veja, a seguir, o teor do e-mail que recebemos do bravo viajante, destinado aos leitores Américo Soares, de Teófilo Ottoni; Sylvia Grünbaum, de São Paulo; José Albuquerque Mello e Pedro Torelli:

O Estado de S.Paulo

05 Março 2013 | 02h35

"My dear friends: tive o dia inteiro para refletir sobre as questões que vocês me colocaram enquanto conduzia minha moto com esquis pela paisagem monótona do inverno canadense. Foi, digamos, uma forma de esquentar a alma, já que o corpo parecia prestes a ruir com a temperatura de 30 graus negativos. Acho que estou um pouco fora de forma para jornadas dessa espécie, mas nem o tempo, nem a inexorável decadência das moléculas de que sou feito são capazes de me chamar à razão. Quando tenho a oportunidade de viver uma nova experiência, simplesmente não resisto, ainda que meus bigodes congelem e meu nariz pareça prestes a cair no primeiro acidente do terreno. But, well, pelo menos os albergues são quentes e têm estoques consideráveis de bebida alcoólica. Escrevo-lhes ao lado de um copo de armagnac, já que o uísque canadense me parece tão falso quanto uma nota de 2 pounds e 45 pennies.

Nessa imensidão congelada, my friends, as muitas guerras que atormentam e amedrontam viajantes parecem tão obtusas quanto os que as patrocinam. No caso da Síria, for instance, o monarca é um janota que escraviza seu povo, em luta contra opositores que, unfortunately, em caso de vitória, provavelmente farão o mesmo. No Egito está ocorrendo o mesmo. Foi-se um déspota, veio outro déspota. Acho que o mundo é sempre conduzido para conflitos quando tolos ou bárbaros assumem o poder. O ridículo de suas atitudes só é consagrado com o tempo.

Guerra, my friends, é para quem não tem amigos. Já disse isto uma vez: quando você conhece pessoas de carne e osso, frequenta suas casas e partilha de seus cotidianos, verifica que os povos são, actually, muito parecidos, preservadas suas particularidades. Quem viaja não faz guerra. Quem viaja é da paz.

Lembro-me do tempo em que a guerra era um assunto de cavalheiros e os inimigos se enfrentavam com olhos nos olhos. Hoje, my God, a guerra é uma coisa impessoal. O atirador faz pontaria num alvo colorido na tela de seu radar e dispara. É tudo um macabro videogame, como se não houvesse ninguém por trás dos pixels da telinha.

It's awful! Acho que vou tomar mais um golinho antes de continuar…

Well, my friends: o armagnac controlou minha indignação. Mas não vou deixar de continuar sonhando com a paz em todo o planeta. Acho, inclusive, que isso responde a outra questão que os leitores têm me colocado. Não dá para viajar para lugares conflagrados?

So, keep dreaming! Mantenham-se sonhando! Leiam, informem-se, viajem sem sair da poltrona se for o caso. Mas não se apequenem, my friends. Uma semana conhecendo um lugar novo vale mais do que trocar de automóvel para ganhar 200 cilindradas e um par de bancos de couro. Vale mais do que um televisor de 40 polegadas. Ou que um home theater.

Tenham em mente que há um grande e belo mundo ao vivo para explorar, entender e aprender. Quem sabe disso não desenvolve um olhar bovino como o dos governantes belicosos; quem sabe disso não tiraniza ninguém. Parafraseando uma frase popular nos anos 60, digo-lhes: make trip, not war. Façam viagens; guerra, não."

É O HOMEM MAIS VIAJADO DO MUNDO.

ELE ESTEVE EM 183 PAÍSES E

16 TERRITÓRIOS ULTRAMARINOS

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