Marcelo Lima|Estadão
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Nas vinícolas do Vale do Colchagua, uva carménère se destaca

SANTA CRUZ

Marcelo Lima, O Estado de S.Paulo

19 Janeiro 2016 | 02h59

É a geografia peculiar do Chile que dá a seus vinhos tanta personalidade. Delimitado pelos Andes a leste, o Oceano Pacífico a oeste, o deserto de Atacama ao norte e os glaciares ao sul, o país propicia condições ideais para o desenvolvimento de uvas saudáveis. Foi isso, aliás, que funcionou como uma espécie de barreira natural e protegeu a produção chilena da filoxera, praga que praticamente dizimou os vinhedos europeus na segunda metade do século 19.

Localizado a 130 quilômetros ao sul de Santiago, o Vale do Colchagua foi um dos que mais se beneficiou da situação. A principal variedade cultivada ainda hoje é a cabernet sauvignon, seguida pela merlot. Mas é pela carménère que a região se tornou mundialmente conhecida. A ponto de ajudar a elevar a uva à condição de símbolo da produção vinícola chilena – algo como a malbec na Argentina.

Variedade difícil, exigente, que faz questão de solos muito secos para se desenvolver, mas gera vinhos elegantes, estruturados e singularmente macios, a carménère é originária de Bordeaux, na França – suas primeiras mudas chegaram ao Chile antes da eclosão da praga europeia.

Estranhamente, porém, ela passou quase um século praticamente esquecida, plantada com a merlot, empregada na produção de vinhos e vendida como tal. Até que, “redescoberta” na década de 1990, passou a dar origem a varietais de qualidade, e transformou o Colchagua na maior área de cultivo mundial da uva – e detentor de alguns de seus melhores rótulos.

É preciso carro alugado ou van para percorrer as vinícolas da região – tendo como base o hotel Quinta Maria, em Santa Cruz, visitamos três. Inebriados pela paisagem verdejante do Colchagua, conhecemos vinhos marcantes elaborados com a “uva sobrevivente”.

Viña Santa Cruz

Cantina de peso, a Santa Cruz funciona em meio a um autêntico parque temático e oferece, além de vinhos de qualidade, opções de entretenimento para vários perfis. Logo à entrada, a localização privilegiada, em meio a suaves colinas, determina uma paisagem digna de cartão-postal, com destaque para o Cerro Chamán. Um teleférico (!) leva ao topo do monte, de onde se tem a melhor vista dos vinhedos, além de acesso às atrações.

Ideal para agradar ao público infanto-juvenil, o cume do Chamán apresenta, em escala natural, representações das moradias típicas das três etnias que participaram da formação do povo chileno: mapuche, rapa nui e aymara. À noite, as atenções se voltam para o observatório astronômico. Mesmo que não seja possível ver as estrelas, um museu de meteoritos recolhidos no território chileno funciona permanentemente no local.

A depender da época do ano, há vários tours disponíveis, inclusive de bicicleta. Já as degustações (agendadas) ocorrem o ano inteiro. A versão premium (25 mil pesos ou R$ 138) dá direito a percorrer os vinhedos da casa, visitar o Cerro Chamán e ainda degustar a série Chamán Gran Reserve, da qual a variedade carménère me deixou uma doce recordação: vermelho-profunda e com notas herbais.

Viu Manent

Clássico nos anos 70, o slogan “Salut com Viu Manent” permanece vivo na memória chilena. Fundada em 1935 pelo patriarca catalão Miguel Viu García, a vinícola guarda uma exposição que liga a história da família à evolução da marca, apresentada em uma construção de adobe do início do século 20. Foi assim que iniciamos a vista.

Em seguida, em um dos momentos mais interessantes da viagem, as parreiras das principais uvas empregadas na produção dos vinhos chilenos (cabernet sauvignon, merlot e carménère) nos foram apresentadas lado a lado, colocando em evidência suas particularidades. Entre elas, o formato de cada folha que, mais do que as uvas, é o principal fator de diferenciação entre uma variedade e outra.

De charrete, seguimos para um dos três vinhedos da propriedade antes de almoçar no restaurante da casa. O Rayuela se revelou uma grata surpresa: além da magia de oferecer uma refeição ao ar livre, tanto os camarões al piu piu, salteados no azeite de oliva (na foto; 5.900 pesos ou R$ 35), como o corte de merluza austral (10.500 pesos ou R$ 58) vieram no ponto exato. Sem falar do frescor revigorante do pinot noir que acompanhou os pratos. Ali, tive a sensação de estar vivendo uma experiência plena. E intensamente chilena.

Vinícola Montes

A história da Montes nasce de um sonho: produzir um choque quântico de qualidade nos padrões de produção de vinhos. Missão cumprida e atestada com a versão 1987 do cabernet sauvignon da casa, o primeiro dos vinhos chilenos exportado com o selo premium. Uma aura de distinção que nunca abandonou a Montes e se manifestou na nossa visita à sede, onde um edifício de linhas contemporâneas reina soberano em meio a 140 hectares de parreiras.

Não se trata exatamente de um programa para iniciados. Mas, no mínimo, para quem leva o assunto vinho a sério. Ao contrário de outras vinícolas, na Montes não há atrações paralelas, nem efeitos especiais. Seja durante uma degustação, percorrendo uma trilha na propriedade ou desfrutando de um jantar harmonizado, tudo gira em torno da bebida, tratada com reverência e até certa sacralidade. Haja visto que é sob notas de canto gregoriano que, à meia-luz, ela repousa e amadurece.

E foi frente a um imenso salão semicircular, onde os vinhos descansam em barris de carvalho francês, que demos início a um dos pontos altos da viagem: a degustação dos rótulos premium (35 mil pesos ou R$ 193). Elegante, o cabernet sauvignon abriu a sessão, seguido pelo Montes Alpha, no qual a experiência ganhou corpo e complexidade. Um Montes Folly, puro syrah, antecipou o grand finale, que nos foi apresentado na forma de uma divina taça de Purple Angel, safra 2011. /M.L.

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