Felipe Mortara
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Rafting no Rio Ganges: um ótimo jeito de explorar o símbolo indiano

Pode parecer inusitado, mas o rio sagrado da Índia também tem corredeiras emocionantes para serem exploradas

Felipe Mortara, Especial para o Estado

13 de agosto de 2019 | 04h50

Sempre tive para mim que o Rio Ganges era um desses lugares onde a religião fosse a única variável. Sagrado para o hinduísmo, banhar-se em suas águas é um ritual de purificação para a maioria da população da Índia, de 1,3 bilhão de pessoas. Até chegar às suas margens, as únicas fotos que tinha visto eram do trecho que cruza a cidade de Varanasi. Pelas imagens de sujeira, nunca imaginei que um dia entraria nele. 

Não havia pensado no Rio Ganges como um rio radical, já que as imagens de Varanasi sempre mostraram um curso da água um tanto monótono. Isso até chegar a Rishikesh, no Estado de Uttarakhand. Também às margens do rio mais famoso da Índia, porém 800 quilômetros a noroeste de Varanasi. Ali, aos pés da Cordilheira do Himalaia, nasce um Ganga River de uma pureza impressionante.

Não tinha ideia de que havia a possibilidade de descer o Ganges a bordo de um bote de rafting. E menos ainda de que isso era uma atividade popular em seus primeiros quilômetros do rio. A cidade de Rishikesh ficou muito conhecida no fim dos anos 1960, quando os Beatles passaram meses enfurnados num ashram por lá. Deste período resultou o The Beatles ou White Album (1968), um dos mais festejados da banda, e uma fama mundial de toda a cultura da yoga e da meditação.

Bastam uns poucos passos pela cidade para observar a fartura de agências e operadores de rafting. Não é difícil resolver a equação: a chamada Capital Mundial da Yoga atrai praticantes do mundo inteiro que, entre um ássana, uma refeição vegana e uma meditação, resolvem curtir alguma adrenalina. E, de quebra, postar sua foto fazendo rafting no Rio Ganges – de capacete, colete salva-vidas e remo em punho, claro.

Finalmente, hora de entrar n'água

Com oferta farta, os preços baixam e o normal é pagar algo na faixa de 1.500 rupias (algo em torno de US$ 15) pelo passeio mais curto – de 2h30. Há opções que variam de 16 até 35 quilômetros de descida. Escolhemos a operadora Trip India Holidays, mas o Ananda Spa, onde estávamos hospedados, também oferece o serviço. O tour começa num carro ou jipe, que serpenteia por uma estradinha até Shivpuri, um ponto meio estranho, em meio a muitas pedras, onde colocam o bote na água.

Acredite, o melhor calçado é uma papete, mas uma sandália Havaianas também funciona. E vestir bermuda sobre a sunga ou biquíni. Ah, se tiver uma blusa de lycra ajuda, já que a água é um tanto fria – entre 16 e 19 graus.

Após as instruções – sim, você precisará ir afinando o ouvindo para compreender o inglês com sotaque indiano –, é hora de ir para a água. Pouco antes de embarcar vi duas garrafas plásticas na beira do rio: foi o único foco de lixo que avistei. Neste trecho, o Ganges não é sujo, nem pareceu maltratado - tampouco dá nojo ou medo de pegar alguma doença. A cor da água é de um verde quase musgo, pouco convidativa para um mergulho (mas se estivesse mais quente e menos nublado eu certamente teria me jogado).

O que não quer dizer que não fiquei molhado. Muito pelo contrário. Estávamos num grupo de quatro jornalistas brasileiros – Juliana Saad, Carlos Marcondes e a Mari Campos, colega do Blog Sala Vip, aqui do Viagem. Em algum momento tivemos a ideia de usar nosso “uniforme” do Ananda Spa na atividade. Já na primeira corredeira, o confortável pijamão branco ficou ensopado e gelado, logo se revelando uma escolha equivocada. Claro, ninguém desanimou.

Durante 1h30 de descida enfrentamos chuva em alguns momentos, mas remar esquenta. Dá para dizer que há cinco corredeiras notáveis, sendo duas bem emocionantes. Uma delas, batizada de Roller Coaster (Montanha-russa) me marcou mais. Por breves instantes, lutávamos, eu e Carlos Marcondes na frente do bote, para remar diante de algumas ondas que passavam de um metro de altura. Outras duas corredeiras, a Golf Course e a Club House, também trouxeram a devida adrenalina. Completamente encharcados, terminávamos esses trechos rindo e entoando um grito de guerra ensinado pelo instrutor.

Montanhas e ashram

A paisagem vai aos poucos se transformando. Com cerca de 50 metros de largura nos primeiros trechos, o rio chega a mais de 150 metros de largura quando entra na cidade de Rishikesh. O entorno do Ganges é muito verde e as montanhas repletas de mata tecnicamente já fazem parte da Cordilheira do Himalaia. Em alguns momentos, lembram um pouco as montanhas que cercam Machu Picchu, no Peru.

Foi divertido quando passamos pelo Osho Gangadham, ashram – centro de oração e retiro – fundado pelo líder espiritual Osho. Na prainha na beira do rio, três homens de cueca cantavam e dançavam freneticamente.

A Laxshman Jhula é a grande ponte estaiada para pedestres que dá as boas-vindas a Rishikesh. Várias operadoras passam sob ela e terminam seus tours dentro da cidade, nas escadarias próximas ao Templo de Shiva. Por sinal, todos os dias ao entardecer ocorre ali o Ganga Aarti, cerimônia de saudação a Shiva e ao Rio. É lindo de doer.

Nosso tour terminou uns dois quilômetros antes, numa pequena praia com cascalho.

Claro, teria sido incrível com sol, mas foi um lindo passeio mesmo nublado. Muito mais do que a adrenalina, foi de um simbolismo enorme poder contar um dia: meu netinho, sabia que uma vez o vovô fez rafting no Rio Ganges?

ANTES DE IR

Como chegar

Saindo de São Paulo, é possível voar para o aeroporto de Dehradun com uma conexão com a Ethiopian (R$ 6.690) e com a Qatar (R$ 7.888). Dehradun está a uma hora de carro de Rishikesh – a melhor forma de se deslocar entre as cidades é de táxi. Outra opção é voar a Délhi e ir de carro (cerca de 5 horas de viagem) ou pegar um voo interno. Também é possível se deslocar de trem, mas como não há linhas diretas entre os dois destinos (e serão necessárias várias baldeações) pode ser um pouco desafiador para um estrangeiro. Se quiser arriscar, busque em irctc.co.in.

 

Site

incredibleindia.org

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