Raposas, touros, cães e cavalos

Caçadas, touradas e outras polêmicas: o que pensa Mr. Miles sobre esportes com bichos

Mr. Miles, O Estado de S.Paulo

23 Maio 2017 | 03h50

Sem qualquer aviso prévio, nosso viajante esteve na Serra Gaúcha. Primeiro foi conhecer o St. Andrews, hotel inglês de Mr. Guilherme Paulus, com apenas 11 apartamentos, vista para o Vale dos Quilombos (delightful!) e mordomos de, em suas palavras, “gentileza extrema”. 

Aproveitou para esticar até São Francisco de Paula (St. Francis ou São Chico para os íntimos) para cavalgar à beira dos cânions de Aparados da Serra com os crioulos valentes de seu velho amigo Paulo Hafner, um dos experts na arte de organizar viagens equestres no sul do País. 

O viajante britânico resolveu cavalgar pilchado à moda da serra, com bombachas largas e botas de sanfona. Mas o principal motivo de sua viagem ao Brasil foi a oportunidade de regozijar-se com seu velho amigo Ronny Hein, agora avô da mais bela Helena nascida em terras tupiniquins. Feliz por todas as experiências, ele respondeu a correspondência da semana:

Prezado e enciclopédico mister (Sir) Miles. O senhor gosta tanto de raposas – e eu gostaria de saber qual a diferença entre elas e os cachorros? E o que acha da caça à raposa praticada no Reino Unido e das touradas na Espanha? Dyonizio Vecchiatti, Valinhos (SP) 

“Well, my friend, apenas para esclarecer: Trashie, a quem chamo de raposa das estepes siberianas, não é, realmente, um vulpino. Trata-se, indeed, de uma linda cachorrinha, que encontrei abandonada em cima de um monte de neve, que cobria outro monte de lixo na cidade de Irkutsk, na Sibéria. Com o pelo claro e o porte de uma raposa (e, of course, sem raça definida), decidi chamá-la de raposa das estepes siberianas. In fact, ainda que hoje desprovida do sentido da visão, Trashie mostrou-se uma grande companheira de viagens, dotada de comportamento exemplar. Nunca ouvi qualquer pessoa reclamar de seu comportamento discreto, nem mesmo quando, após duas ou três doses de single malt, fica mais carinhosa e sorridente.

Já as raposas originais são menos hedonistas, embora dotadas de grande esperteza. No passado, in fact, os ingleses e outros ilhéus da região praticavam a caça à raposa. Nobres (e outros menos nobres) corriam pelos campos a bordo de seus cavalos, acompanhados de cães que lhe indicavam o paradeiro da presa. É claro que, ao fim e ao cabo, a raposa, ainda que inteligente, sempre acabava vencida. O “esporte” foi banido por lei aqui na Inglaterra no ano de 2005. Thank God, ainda restaram raposas nas nossas terras. E, com meu total apoio, gosto de saber que elas avançam nos galinheiros, em sua justa vendetta

O homem sempre teve laços estranhos com os animais. Sua força, utilizada no transporte, na agricultura e em outras áreas, foi muito apreciada. However, de alguma forma, fez com que nós, humanos, confrontados com nossa fraqueza física, usássemos de uma estúpida violência contra muitos deles. O caso dos safáris antigos, em que senhores instruídos atravessavam, no trem, áreas repletas de mamíferos grandes, atirando em todos eles indiscriminadamente, é um símbolo de nossa barbárie inerente. 

Penso o mesmo das touradas, mas vejo alguma razão nas palavras de meu amigo, o falecido andaluz Juan Rubin. Frequentador das arenas, ele me dizia que a única chance de um touro viver até sua velhice era enfrentando um toureiro. Se derrotado, tornar-se-ia apenas mais um monte de carne bovina, como a de todos os que não tiveram a chance de competir. Já se vencesse, ferindo seu algoz (o que muitas vezes ocorre, believe me!), receberia como prêmio a alforria e uma velhice sem esforço nas pastagens reservadas aos vencedores.

Rubin dizia-me que sempre torcia pela vitória do animal, de modo que a ele coubesse o pacífico destino prometido. Welles (N. da R.: Orson Welles, o ator e amante da tauromaquia) tinha visão parecida. Afinal: somos heróis ou vilões da existência? Responda-me você, dear Dyonizio.” 

É O HOMEM MAIS VIAJADO DO MUNDO. ELE ESTEVE EM 312 PAÍSES E 

16 TERRITÓRIOS ULTRAMARINOS

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