Bruna Tissu/AE
Bruna Tissu/AE

Recanto de cultura

Cuidadosamente preservadas, fachadas e ruas de pedra do centro histórico de Paraty viraram cenário privilegiado para eventos de peso. Ou para simples curiosidade turística

Bruna Tiussu / PARATY - O Estado de S.Paulo,

28 Junho 2011 | 15h40

Uma mão de tinta na fachada branquíssima e pinceladas certeiras nos detalhes coloridos das janelas. Lâmpadas novas nas arandelas, marteladas lá no alto do telhado e um trato especial nas pedras das ruelas históricas. Assim Paraty vai se preparando para o mais badalado evento cultural de seu calendário. A 9.ª edição da Flip, a disputada Festa Literária Internacional de Paraty, começará em exatos oito dias (de 6 a 10 de julho) e levará para a cidadela de 30 mil habitantes outras 20 mil pessoas. Felizardos que terão o privilégio de desfrutar todo o charme do destino em seus dias mais efervescentes.

É no cenário cinematográfico do centro histórico que a Flip ganhará vida. Os tão esperados encontros entre público e escritores - este ano, 18 nacionais e 13 estrangeiros - serão realizados nas enormes tendas instaladas entre as centenas de casarões coloniais, cuidadosamente preservados desde o século 17. Alguns dos eventos também terão como paisagem complementar a baía da cidade, com a característica água esmeralda da chamada Costa Verde do Rio de Janeiro. Ou ainda o Rio Perequê-Açu, bem ao lado da Igreja Matriz.

Entre um bate-papo literário e outro, as opções de divertimento vão de sossegados passeios de barco, um banho de mar, trilhas que levam a cachoeiras e até o desafio de um circuito de arvorismo. Mas todo turista haverá de concordar: é via de regra começar a explorar Paraty percorrendo cada uma das ruelas rústicas que formam os 33 quarteirões da cidade antiga.

De início, se equilibrar entre as pedras que compõem as vias pode ser um ato desajeitado, principalmente porque a sequência sem fim de belíssimas fachadas com traçados simples, mas cheias de cor e com lamparinas delicadas, conduzem o olhar lá para cima. Onde cada detalhezinho arquitetônico impressiona, fascina e promove uma viagem rápida ao Brasil colônia.

Tempos de festa. Pode passar a agitação dos cinco dias da Flip que a encantadora atmosfera da cidade permanecerá intacta. O charme inerente e as paisagens sempre inspiradoras tornam o destino (tombado como Patrimônio Histórico Nacional em 1966) especial até mesmo em uma segunda-feira tranquila, pós-feriadão.

O que não quer dizer que dias sem turistas sejam comuns por lá. Tão logo as fachadas históricas sentem o frescor de novas mãos de tinta, os hotéis começam a lotar novamente - assim como os restaurantes. Isso porque pelo menos outros cinco grandes eventos artísticos de importância nacional serão realizados na cidade ainda em 2011. A Paraty que um dia foi de grande importância para o ciclo do ouro, da cana-de-açúcar e do café, hoje se destaca no turismo. E na vida cultural do País.

 

Pausa para provar a cachaça artesanal

Quando a cana-de-açúcar era o principal produto da economia brasileira, Paraty somava 12 engenhos e mais de 150 alambiques. Hoje, eles são menos de dez, mas ainda responsáveis pela produção artesanal da cachaça que é reconhecida como uma das melhores do País. Tanto que existe um evento dedicado só para ela, realizado desde 1983 - este ano, o Festival da Cachaça será realizado entre os dias 18 e 21 de agosto.

Turistas em passagem pela cidade podem visitar alguns dos alambiques remanescentes, como o Engenho do Ouro (engenhodoouro.com.br), que utiliza somente a água como força motriz para impulsionar os equipamentos que moem a cana, fermentam e destilam a cachaça. Depois de conhecer um pouco de cada processo, uma degustação aguarda a todos. Um gole é suficiente para que os apreciadores com experiência afirmem que ela é mesmo "da boa".

As garrafas, que se tornaram souvenirs indispensáveis nas malas dos turistas, podem ser garantidas ali mesmo. Dentre as inúmeras variações, a Gabriela (R$ 13), que leva cravo e canela, está no topo das preferências, juntamente com a clássica branquinha e as pingas envelhecidas. Opções mais adocicadas também caem no gosto dos visitantes, como os licores de maracujá, jabuticaba, abóbora e até de doce de leite. /B.T.

Diversão em meio à natureza

As trincheiras e canhões que outrora garantiam a proteção deste importante entreposto comercial agora dão graça ao Morro do Forte que, lá no alto, oferece a panorâmica completa da baía de Paraty. O litoral recortado, praias, enseadas e ilhas do cenário que se vê compõem o roteiro percorrido pelos tradicionais passeios de barco que todo turista experimenta.

Basta chegar cedinho ao porto da cidade, escolher a escuna e partir para cinco horas de contato com a natureza da Serra do Mar, que ainda apresenta um tanto considerável de mata atlântica preservada. Apesar de nada inovadora, esta é a melhor opção para desfrutar das águas calmas da baía - o tour inclui até cinco paradas - e curtir um almoço caiçara em uma das ilhotas.

Seguindo em direção contrária ao litoral, mais um leque de atrações naturais se abre aos visitantes. Ao longo da Estrada Real, que parte de Ouro Preto, em Minhas Gerais, e cujo ponto final é a cidade de Paraty, escondem-se montanhas e quedas d’água hoje alcançadas através de trilhas ecológicas. Se dispor de fôlego suficiente, vá de bike. Ou prefira um tour off-road a bordo de um 4X4 - é possível agendar nas agências de turismo locais.

Qualquer que seja sua escolha, você poderá provar a água límpida, porém gelada, de quatro cachoeiras: Pedra Branca, Poço dos Ingleses, Poço do Tarzan e Tobogã, que como o nome sugere, convida os visitantes a escorregar pelas pedras lisinhas.

Se sobrar tempo, pare na Fazenda Murycana, que conservou sua casa-sede nos moldes da época colonial e hoje funciona como museu. Salas e quartos são decorados com móveis rústicos. Na cozinha, se espalham prateleiras com panelas de barro e ferro. O fogão à lenha está lá, ao lado do balcão onde um café passado no coador de pano é preparado na hora para os visitantes.

De galho em galho. Para testar ainda mais sua disposição física, escolha um entre os três circuitos de arvorismo do Paraty Sport Aventura (paratysportaventura.com). O centro foi inaugurado há três anos por Patrick e Sophie, um casal de franceses que trocou Paris por Paraty e realizou ali o sonho de construir um parque de diversões personalizado.

O lugar é exatamente isso. Apesar de aparentemente desafiadora demais, a atividade rende horas de puro prazer tanto para crianças (há um circuito só para elas) como para adultos.

O ideal é optar pela combinação arvorismo mais circuito de tirolesas (por R$ 62), este com sete etapas - a mais longa com 260 metros de comprimento e 35 metros de altura.

Caso abuse dos músculos, o Shambhala Spa (shambhalaspa.com.br) fica ali pertinho. A massagem da casa utiliza óleo customizado e combina técnicas de shiatsu, acupuntura e ayurvédica capazes de provocar um relaxamento profundo. /B.T

 

Menu típico e refinado

Restaurantes aconchegantes, garçons simpáticos. E a comida, ah, esta vai virar aquela lembrança boa que sempre volta à cabeça. Em Paraty, fique à vontade para escolher: cozinha caiçara, italiana, francesa, contemporânea...

Fãs de frutos do mar estão no paraíso. Peixes e camarões, acompanhados de farinha de mandioca e banana, são a essência da culinária típica. Nesse quesito, o Casa do Fogo (casadofogo.com), especializado em delícias flambadas com a cachaça local, tem ótimas opções. Como o Camarão do Chef (R$ 59), no qual crustáceos flambados ao molho de maracujá e coco vêm acompanhados de arroz de açafrão.

Aberto em março, o Pippo (pousadadosandi.com.br/teste), na Pousada do Sandi, é o italiano do momento. Tarefa difícil escolher uma entre as massas do cardápio, quase todas feitas na casa. Para um menu contemporâneo, o Porto (24-3371-1058) é de dar água na boca. A começar pelo couvert, com pãezinhos feitos na casa e confit de alho. O prato principal é o filé de peixe à Carmen Miranda, com molho de carambola, laranja e manga servido com risoto de alho poró (custa R$ 52,20).

Escondido, fora do centro histórico, fica o charmoso Voilà Bistrot (voilabistrot.com.br), que o chef Christophe Legond comanda há quatro anos. Delicie-se com pratos tipicamente franceses e guarde espaço para o creme brulée. Inesquecível. / B.T.

 

AGENDA

Flip

Neste ano, homenageará o modernista Oswald de Andrade, protagonista de Semana de 22 (que celebra 90 anos em fevereiro de 2012). De 6 a 10 de julho - ainda há ingressos. Site: flip.org.br

Festival da Cachaça

Realizado desde 1983, atrai apreciadores da bebida do mundo todo. De 18 a 21 de agosto

Paraty em Foco

O Festival Internacional de Fotografia terá palestras com profissionais de renome, exposições e workshops, tudo dentro do tema Futuro. Será realizado de 21 a 25 de setembro. Site: paratyemfoco.com

Festival de Cinema

Sem caráter competitivo, o evento (também internacional) promove reflexões diversas sobre a área, além de exibir produções nacionais e estrangeiras. De 9 a 16 de outubro

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