Restaurantes sem cozinha

Agora instalado em Burlington, no Estado norte-americano de Vermont, mr. Miles diz que foi levar Trashie, a raposa das estepes siberianas, para curtir o ar do mais belo dos outonos. Embora Trashie não possa mais ver, nosso correspondente fica maravilhado com os uivos de prazer que sua mascote profere diante de paisagens com folhas amarelas e escarlates em um ambiente de sonho. A seguir a pergunta da semana:

O Estado de S.Paulo

14 Outubro 2014 | 02h05

Dear mr. Miles, o senhor poderia nos explicar como fazer para identificar o que chama de restaurante pega-turistas? Thank you!

Regina Passy, por e-mail

"Well, my dear, confesso que minha definição foi, sim, um tanto quanto exagerada. Os estabelecimentos mencionados realmente pegam os turistas por um motivo muito simples: eles estão sempre nas proximidades de alguma atração muito visitada ou no caminho entre duas delas.

Em alguns lugares, indeed, eles o fazem literalmente: aliciadores travestidos de garçons ficam na porta, dirigindo-se aos transeuntes e tentando convencê-los de que a casa que defendem é melhor e oferece mais vantagens que as concorrentes.

Unfortunately, um turista cansado depois de intensa atividade está realmente propenso a ser seduzido pelo restaurante mais à mão. O que não significa, however, que ele vá comer mal. Apenas que, com certeza, não comerá bem. Vou lhe apresentar, dear Regina, um exemplo clássico de gastronomia pega-turistas. A belíssima Piazza Navona, em Roma, com suas hipnóticas esculturas de Bernini, tem perto de trinta restaurantes em suas margens. A paisagem, portanto, é sempre bonita, o que, by the way, já aumenta em 30% os valores no cardápio.

Ocorre que, recentemente, meu bom amigo Maciellis, um grego muito cioso de cada prato que pede - ele vive orientando os garçons sobre a cocção das carnes, o tempero das saladas e até a cremosidade das sopas -, encontrou outro grego, de Salonica, na função de maître de um desses restaurantes. Conversa vai, conversa vem, Maciellis obteve a informação de que - believe me! - apenas três das casas de repasto da famosa praça têm cozinhas. Como? Restaurantes sem cozinhas?

Indeed, darling: 90% dos estabelecimentos da Piazza Navona dispõem apenas de aparelhos de micro-ondas e refrigeradores. Os pratos oferecidos em seus cardápios são fabricados em alguma indústria nas proximidades e ficam congelados até que algum incauto decida comê-los.

Você há de convir, dear Regina, que estabelecimentos assim não podem produzir gastronomia virtuosa, nem concorrem a estrelas do Guia Michelin. A mim me parece que um restaurante sem cozinha é como um teatro sem palco ou banheiro sem porcelanas. Don't you agree?

Uma maneira quase sempre eficiente de encontrar estabelecimentos oportunistas é verificar se existe, à mostra, opções de menu a preço fixo. Bons restaurantes não fazem esse tipo de promoção. Estou de acordo que, sometimes, esses combinados são muito econômicos e nossos vizinhos escoceses, fartamente conhecidos por sua sovinice, gostam de frequentá-los. Isso, of course, quando não estão fazendo convescotes nas praças.

Anyway, admito que essas considerações têm um toque de mau humor. Na verdade, cada viajante tem o direito de fazer o que quiser de seu estômago. Nevertheless, como considero a cozinha de cada lugar parte valiosa de sua cultura, sugiro que, ao menos uma vez, o visitante exponha-se ao melhor da gastronomia local. Isso não significa visitar restaurantes muito caros. A melhor cozinha de cada lugar está, quase sempre, nos bairros que não têm qualquer interesse para turistas. Naqueles pequenos bistrôs ou tascas visitados, cotidianamente, por trabalhadores da própria cidade. Escolha os mais cheios, sobretudo se forem os mais antigos. Aposto que, ao menos, eles terão cozinhas. Don't you agree?"

É O HOMEM MAIS VIAJADO DO MUNDO.

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