Um mergulho nas obras repletas de dor e beleza de Toulousse-Lautrec

Inspiração de nomes como Pablo Picasso, Federico Fellini e Woody Allen, Lautrec é tema de museu que exibe seus trabalhos na França

Heitor Reali e Silvia Reali, Especiais para O Estado de S.Paulo

29 Dezembro 2015 | 05h00

Seu nascimento se deu em noite de tempestade. Era novembro de 1864, raios cortavam o céu e iluminavam as janelas daquele palacete em Albi – cidade que o sol da tarde costuma tingir do mesmo vermelho que os cabelos soberbamente ruivos das dançarinas de cabarés que ele iria retratar. O nome dos Toulouse-Lautrecs carregava fidalguia; seus antepassados aristocratas, alguns deles heróis, fizeram parte das primeiras Cruzadas.

Aos 14 anos Henri quebrou as duas pernas, e, como não se solidificavam, acabaram por se atrofiar e deixar de crescer. Sabe-se hoje que ele deveria sofrer de uma distrofia óssea, complicada pelo fato de seus pais serem primos-irmãos. Embora seu tronco tenha se desenvolvido normalmente, Lautrec nunca passou de 1,52 metro de altura. Além de baixinho, era meio deformado, feioso e claudicante. Quase grotesco. Mas dono de um talento e de uma mente tão brilhantes quanto de um inabalável senso de humor.

Em 1882, Toulouse-Lautrec fixou-se em Paris onde frequentava as casas de prostituição de Montmartre. Ali estavam as únicas mulheres de quem sabia poder esperar um pouco de ternura – as que ele imortalizou em traços geniais.

Embora suas obras desse período revelassem um retrato da cruel condição e do desprezo em que viviam dançarinas, palhaços, gigolôs, garçonetes e prostitutas, Lautrec os transmutou em beleza. Aos 27 anos passou a desenhar também cartazes que começaram a dar publicidade ao Moulin Rouge e reputação às bailarinas La Goulue, Jane Avril, e Cha-U-Kao, que se apresentavam em meio aos rodopios picantes do cancã.

Com seus pôsteres, tornou-se o maior cronista de sua época, além de revolucionar a arte desses precursores dos outdoors. Descobriu o segredo do marketing moderno: esquematizar e impressionar fortemente. Notou que as pessoas não tinham interesse em ler tantas informações nas capas de revistas, livros, suplementos literários e programas de teatro.

Lautrec morreu aos 37 anos, levado sobretudo pelo abuso do álcool. A condessa Adèle, sua mãe, reuniu suas pinturas, litogravuras e desenhos, cerca de mil trabalhos, e os doou à cidade de Albi.

Hoje, o Museu Toulouse-Lautrec (museetoulouselautrec.net; 9 euros) ocupa várias salas do Palácio Berbie, a poucos passos do palacete onde ele nasceu, e causa inesgotável admiração. Em seu ateliê, Pablo Picasso ostentava em lugar de honra um affiche (pôster) do artista. O cineasta italiano Federico Fellini o considerava um exemplo, e o cineasta Woody Allen, outro apreciador de Lautrec, fez questão de o incluir em uma cena do filme Meia-noite em Paris.

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