Rio poderá reviver charme do Cassino da Urca

Uma das casas noturnas mais famosas das décadas de 30 e 40, o Cassino da Urca poderá voltar a ter dias de glória. O prédio está completamente abandonado desde 1980, quando a extinta TV Tupi deixou de funcionar ali; mas poderá abrigar, agora, um centro cultural. Logo no primeiro dia de seu mandato, o prefeito César Maia (PTB) decretou a desapropriação do cassino - primeiro passo para, finalmente, dar um destino melhor à edificação. "Estamos em entendimentos com os Diários Associados, proprietários do prédio, que tinham a idéia de fazer ali uma Fundação Assis Chateaubriand", contou o secretário municipal de Cultura, Arthur da Távola. "Seria uma fundação cultural especializada na memória do jornalismo, da radiodifusão e da própria televisão." Outra idéia é ocupar o espaço com parte do acervo musical do pesquisador e escritor Ricardo Cravo Albin, composto por, entre outras coisas, 15 mil discos de vinil. "Por que não fazer ali um museu da MPB?", propôs Cravo Albin, que mora no bairro há 15 anos. Há ainda idéias de instalação de um restaurante no local e até mesmo de um aquário. Segundo o secretário de Cultura, no entanto, qualquer projeto a ser desenvolvido no prédio deve levar em conta as especificidades do bairro. "Trata-se de um bairro apertado, de caráter residencial, que não tem estacionamento", enfatizou. "Temos que levar isso em conta, não podemos fazer nada muito grandioso, que atraia muito público." Para Cravo Albin, o ideal é ter ali algo discreto. "Mas é preciso fazer alguma coisa porque hoje aquilo só serve para produzir ratos." História - O prédio foi construído em 1920 para abrigar o Hotel Balneário - um lugar com apenas 34 aposentos, na beira da Praia da Urca. Superado pelo Glória e o Copacabana Palace, concorrentes mais luxuosos inaugurados nos três anos seguintes, o hotel acabou falindo e seu prédio foi vendido, em 1933, ao empresário Joaquim Rolas, proprietário do Cassino Icaraí, em Niterói, e do Quitandinha, famoso hotel e cassino de Petrópolis, na Região Serrana. Rolas transformou o antigo Balneário no Cassino da Urca. A jogatina não era a única atração do cassino. O palco da casa era disputadíssimo e acabou lançando nomes como os de Carmem Miranda, Dalva de Oliveira, Herivelto Martins, Emilinha Borba e das irmãs Dircinha e Linda Batista. Entre as atrações internacionais de maior destaque, o cassino recebeu a cantora de jazz americana Josephine Baker. Em 30 de abril de 1946, um decreto do então presidente Eurico Gaspar Dutra proibiu o jogo no País e determinou a falência da casa. "A extinção daquele flagelo era imperativo e urgente para o saneamento social", estampou o jornal O Globo, no dia da publicação do decreto "Manter aquele vício era pretexto para divertir ociosos e desocupados do dinheiro fácil. Trata-se de um decreto civilizador", defendeu o jornal Correio da Manhã, que também fazia campanha contra o jogo. O Diário Carioca, por sua vez, era favorável aos cassinos. "Eles são úteis à cultura por apresentarem artistas famosos, exercendo um papel social em uma cidade onde são poucos os teatros." Na década de 50, o prédio foi vendido para os Diários Associados, que instalaram ali a TV Tupi. Nos estúdios criados no antigo cassino eram realizados os programas de auditório de J. Silvestre e Flávio Cavalcante. Abandonado desde os anos 80, o prédio já serviu até de moradia para mendigos. O tombamento municipal, em 1986, não foi suficiente para evitar a degradação. "O lugar está caindo aos pedaços", atestou o publicitário Jomar Pereira da Silva Roscoe, morador da Urca há 50 anos. "Até árvores crescem lá dentro."

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