Marcelo Lima/Estadão
Marcelo Lima/Estadão

Vinhos, surfe e natureza preservada a 90 km de Santiago

Região de O'Higgins tem ondas perfeitas em Pichilemu, vinícolas no Vale do Colchagua e uma reserva natural aos pés dos Andes

Marcelo Lima, O Estado de S.Paulo

19 Janeiro 2016 | 03h00

Um dia na região do Libertador General Bernardo O’Higgins, no centro do Chile, reserva visuais – e experiências – bastante distintos. Pode começar ao alvorecer, com surfistas em busca de ondas radicais. Seguir com longas caminhadas entre parreirais ou cachoeiras. E se prolongar noite adentro, até que o último notívago termine de degustar uma taça de vinho.

Concentrada em uma área pouco maior que a região metropolitana de São Paulo, a 90 quilômetros de Santiago, estão duas das mais importantes regiões de cultivo vinícola do país – os vales de Colchagua e do Cachapoal –, praias na costa do Pacífico e uma reserva ambiental. Poucos destinos da América Latina são capazes de oferecer um naipe tão diversificado de atrações em uma faixa territorial cuja largura média é de apenas 175 quilômetros.

“Como em muitas regiões do nosso país, temos lindas paisagens e vinhos de qualidade. Mas, convenhamos: é difícil encontrar uma outra na qual você pode ir do topo de uma montanha a uma praia agreste, em pouco mais de quatro horas”, diz Manuel Octavio Diaz Campos, diretor de Turismo da região. 

De fato, a área é boa opção para quem não quer se concentrar em uma única atividade ao longo das férias. Ponto de partida para percorrer de carro as vinícolas que compõem a célebre rota de vinho do Vale de Colchagua, a cidade de Santa Cruz oferece hotéis dentro ou fora de seu perímetro urbano, a depender do gosto do viajante. Ou, em outras palavras: de sua maior ou menor afinidade com a tranquilidade do campo. Muitas das casas coloniais presentes ali, construídas de adobe e surpreendentemente bem preservadas, com pátios arejados e jardins frontais forrados de flores, foram convertidos em charmosos hotéis-butique.

Conheça as vinícolas do Vale do Colchagua

Fique pelo menos duas noites por ali antes de partir para explorar as outras atrações. Ao norte de Santa Cruz, sítios arqueológicos – como a lagoa de San Vicente de Tagua Tagua, um dos mais antigos sítios de povoamento das Américas –, podem ser visitados em tours conduzidos por especialistas, a pé, de bicicleta ou a cavalo. 

Na área grudadinha aos Andes, a leste, a Reserva Nacional Rio de Los Cipreseses tem montanhas a perder de vista, áreas de observação da vida silvestre e trilhas desafiadoras que podem ser percorridas em meio a bosques nativos e cachoeiras de águas refrescantes. 

Reserva natural aos pés dos Andes

Por fim, os praticantes (ou entusiastas) do surfe não terão do que reclamar no caso de uma esticada até Pichilemu (leia mais abaixo), na costa do Pacífico, onde está a lendária Punta de Lobos. Aclamada pela organização especializada Save the Waves como Reserva Mundial de Surfe, a área é um ponto de observação natural para assistir às competições internacionais, frequentemente realizadas por lá – há sempre professores a postos para atender iniciantes ou iniciados dispostos a se aventurar no esporte. Para os corajosos que não têm medo da água gelada do Pacífico, um brinde. Com vinho chileno, claro.

HISTÓRIA, CASSINO E FÓSSEIS EM SANTA CRUZ 

As marcas do passado estão bem guardadas em Santa Cruz, na província de Colchagua. Desde o século 18, a região atua como um centro de desenvolvimento agrícola, o que fez dela uma espécie de guardiã das mais profundas tradições rurais chilenas – expressas, sobretudo, nas culturas do trigo e da uva. 

Apesar de ter sido duramente atingida pelo terremoto de 2010, a cidade exibe uma bem preservada arquitetura colonial. Ao redor da Plaza das Armas estão suas principais atrações: a Igreja de Santa Cruz, o hotel de mesmo nome, o cassino. É de lá que partem ainda a maioria dos tours da rota do vinho.

Ali também está o Museu de Colchagua, um dos mais bem guardados segredos da região do Libertador O’Higgins. Inaugurado em 1995 por Carlos Cornejo (proprietário da vinícola Santa Cruz), exibe da estrutura geológica da América hispânica à história (e pré-história) da América Latina. São mais de dez mil objetos, como fósseis de gonfotérios, primo distante dos elefantes que habitou as imediações há cerca de 5 milhões de anos. Há ainda uma ala que reconstrói o processo de salvamento dos 33 mineiros no norte do país, em 2010. Um trabalho tão minucioso que foi apontado pelo diário britânico The Independent como uma das seis atrações museológicas de maior impacto no mundo.

ONDAS RADICAIS NA COSTA DO PACÍFICO

Na costa do Pacífico, a pequena Pichilemu integra hoje o calendário internacional do surfe profissional. A 6 quilômetros do centro da cidade, Punta de Lobos responde, em grande parte, pela notoriedade da região. 

O cenário “irado”, com penhascos rochosos cobertos de cactos, praias de areias negras e águas em temperaturas próximas a zero grau pode até parecer (e, convenhamos, de fato é) um tanto hostil. Mas, para os praticantes do esporte, guarda swells (ondas grandes) de até 15 metros. 

Ainda assim, mesmo para quem não pretenda se aventurar nas águas gélidas do Pacífico, Punta de Lobos vale a visita. A grandiosidade da paisagem que se descortina de suas encostas merece ser desfrutada com calma e, de preferência, na companhia de um bom binóculo. Tanto para flagrar os surfistas em suas manobras radicais como os lobos-marinhos, que inspiraram o nome do local.

Como não poderia deixar de ser, o mar abastece e inspira a gastronomia local. Pescados e frutos do mar – em propostas que vão do trivial ao gourmet – podem ser encontrados em praticamente todos os restaurantes da avenida Costanera, na praia de La Puntilla, de águas mais calmas, a 15 minutos de Punta de Lobos.

Para um almoço rápido, escolhemos o El Mirador, onde nos sentamos no terraço, de frente para o mar. Bem feito e sem excessos de gordura, o típico pescado com tomates e cebolas, um dos pratos mais tradicionais da cozinha chilena, nos foi apresentado sem pretensões. Serviu bem quatro pessoas com apetite, por honestos 18 mil pesos (R$ 100). Nada mal. Ainda mais se consideradas as geladíssimas taças de sauvignon blanc que acompanharam nosso prato.

 

SAIBA MAIS

Aéreo: o trecho São Paulo – Santiago – São Paulo custa a partir de R$ 1.305,32 na Gol e R$ 1.412 na TAM. Voos sem conexão 

 

Terrestre: a Servi Viajes oferece transporte em vans para até 6 pessoas, por US$ 1 o quilômetro rodado; servi.viajes@yahoo.cl. Para quem prefere alugar carro, uma semana com a Chilecar custa a partir de R$ 1.141 com reserva no Brasil via Decolar.com e R$ 1.420 na Europcar, com reserva via Rentcars.com.br.

Site: chile.travel

ONDE FICAMOS

Quinta María

Boa opção de hospedagem para quem pretende percorrer a rota do vinho, partindo de Santa Cruz, o hotel-butique fica em um casarão colonial, reformado após o terremoto de 2010. São apenas seis quartos, com uma atmosfera acolhedora. É o dono do hotel quem serve o café da manhã, na cozinha ou no pátio, entre árvores e roseiras. Desde 120 mil pesos (R$ 660) o casal. 

Hostal Sirena

Frequentado sobretudo por surfistas que vão a Pichilemu, conta com apenas 3 quartos simples, mas muito limpos e cuidados. Preparado pela dona do lugar – uma mãe de surfista –, o café da manhã é farto e saudável. A partir de 25 mil pesos (R$ 137) o casal.

Almahue

Sofisticado na medida certa, o hotel-butique em Pichidegua, na província de Cachapoal, é para quem busca a tranquilidade do campo. São só 6 suítes na casa de fazenda circundada por bosques. O sistema é all-inclusive; a partir de 185 mil pesos o casal (R$ 1.020).

*O REPÓRTER VIAJOU A CONVITE DA REGIÃO LIBERTADOR GENERAL BERNARDO O'HIGGINS

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