Felipe Rau/Estadão
Felipe Rau/Estadão

ROTEIRO 1: Caminho histórico da Lapa do Rezar

Prepare as pernas: para chegar à caverna, que integra o Parque Cavernas do Peruaçu, é preciso encarar escadaria de mais de 500 degraus

Mônica Nobrega, O Estado de S.Paulo

07 Agosto 2018 | 04h30

A placa diz “mais de 500 degraus”. O guia Alexandre Costa de Jesus afirma ter contado 534. Já eu perdi as contas, distraída pela vegetação seca, mas mesmo assim capaz de bloquear o sol forte da manhã, e pelas histórias de antes de estas terras se tornarem área de proteção ambiental. 

Era minha primeira trilha no Parque Nacional Cavernas do Peruaçu. O Caminho da Lapa do Rezar é classificado como pesado, justamente pela quantidade de degraus a subir – porque o resto é tranquilo e quase tudo plano. Recomendo muito começar por aqui a sua exploração ao parque. 

Dá para dizer que este é o trajeto mais histórico, Logo nos primeiros metros da trilha está um antigo engenho de produção de cachaça, rapadura e garapa, produtos muito presentes nos festejos culturais do norte de Minas Gerais. Uma das celebrações comuns nesta região era a novena de Nossa Senhora da Conceição, quando moradores do Fabião subiam à gruta em oração, principalmente as mulheres, carregando pedras na cabeça em sinal de fé. Por isso o nome Lapa do Rezar

A trilha, com 2,4 km de extensão total, parte exatamente do Centro de Visitantes, onde você tem necessariamente de passar para assinar o livro de presença. Pode aproveitar para fazer perguntas e ver uma exposição de fotos e banners informativos. 

“Vô nunca na vida que tomou remédio”, contou Alexandre. “Era tudo planta, raiz e fruto do mato que usava”, continuou, enquanto apontava a árvore do angico preto e o arbusto da espinheira-santa, ambos usados como remédio pela comunidade local. Alexandre tem 31 anos e cresceu no Vale do Peruaçu, onde sua família tinha roça de feijão, mandioca, legumes. “Vó comprava quase nada na venda”, lembrou. 

Histórias assim eram contadas enquanto fazíamos paradas estratégicas na subida dos mais de 500 degraus. Os guias são treinados para adaptar o ritmo das caminhadas a cada grupo – boa parte dos cerca de 40 guias credenciados para trabalhar no parque vem investindo em formação intensa nos últimos anos. 

Capitão Caverna

Atualmente, 17 deles estão fazendo um curso de espeleologia, organizado pelo professor de geografia Ronaldo Lucrécio Sarmento, uma das personalidades mais emblemáticas do Peruaçu. Ronaldo, que circula pelo vale desde 1989 e desenhou as trilhas turísticas do parque, é conhecido por aqui como Capitão Caverna. 

É o Capitão Caverna que me explica um pouco da geologia da região, que já foi mar há 800 milhões de anos. A lâmina calcária – rocha que forma as cavernas ao ser escavada pelas águas – tem 400 metros de profundidade. Ele tem um sonho: criar um museu histórico do Peruaçu. “A história dessa região está se perdendo.” 

Por ser a primeira, a Rezar foi uma caverna impactante. Sua boca de formato oval com até 40 metros de altura impressiona ainda mais quando vista de dentro para fora, com a montanha lá adiante. À medida que se caminha pela passarela de madeira – é proibido pisar fora, para evitar danos ao sítio arqueológico –, a luz vai desaparecendo. Há o momento em que o guia pede para todos apagarem as lanternas para vivenciar a escuridão. No total, o passeio dura 3h30.

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