Stefano Rellandini/Reuters
Stefano Rellandini/Reuters

Roteiro para conhecer Veneza

Mr. Miles ensina a se perder na sonhada cidade italiana

Mr. Miles, O Estado de S. Paulo

23 Outubro 2018 | 03h00

Em Lamu, “um lugar onde posso matar as saudades dos bons tempos de Zanzibar, que já não existem, exceto no território da memória”, nosso solerte correspondente segue atualizando sua leitura. Nas últimas duas semanas, segundo diz, devorou 25 volumes, incluindo “oito textos desprezíveis”, obras de Tolstoi, Beckett, Doris Lessing, Elfriede Jelinek, Ruy Castro e cursos sumários de bretão e navajo. 

Sua correspondência da semana novamente nos chegou caligrafada. Dessa vez, em tinta verde.

Querido Mr. Miles: finalmente vou realizar um sonho e passar dois dias em Veneza. Qual é o roteiro que o senhor me sugere para aproveitar melhor o meu tempo? Maria Leopoldina C. César, por e-mail

Congratulations, mrs. César: eis um sonho que vale a pena sonhar e realizar. However, my dear, Veneza não tem roteiros. Por ser o que é – uma abstração que, entretanto, existe –, ela não começa, nem termina em lugar nenhum. Não há caminhos a se indicar, exceto os que você escolhe. Não há rotas, exceto as que você designa, seja porque lhe deu vontade de ir à direita ou o instinto a levou para a esquerda. Não há esquinas, exceto as que você estabelece e mesmo essas serão marcos pessoais. Caberá a você, darling, guardá-las como marcos de sua passagem ou de suas sensações.

É de bom tom levar consigo um par de galochas. Não se pode menosprezar a chance da ocorrência da acqua alta, que, por vezes, leva o mar a invadir as ruas da cidade. Se isso por ventura ocorrer, tire proveito da situação. Veneza e o mar são amantes apaixonados. Vê-los quando se encontram é privilégio de poucos.

Na cidade dos doges, my dear, há que superar o Gran Canale em algum momento. But don’t worry! Esse instante chegará e será apenas um curso d’água maior que os outros, uma ponte maior que as outras, para você apoiar os cotovelos e contemplar os barcos, os palazzi, as igrejas e, of course, todas as lindas noites em que este sonho a ajudou a viver.

Se você ainda continua perdida, let’s go, comece pelo de sempre: vá de San Marco ao Rialto. Explore as duas pontas e suas atrações. Mas faça questão de buscar as ruas adjacentes, aquelas que não têm placa indicativa, porque aí, well, você se perde. E, perdida, I must say, é muito mais legal. Você vai, provavelmente, levar seis horas para fazer o trajeto. E aí sim estará entendendo Veneza. Aproveite para entrar em qualquer igreja, xeretar todas as portas abertas e tomar uma taça de vinho no mais improvável dos cafés com mesas na calçada. 

Ah, desvie dos japoneses, para desviar-se das multidões. Em outubro, como agora, as multidões são menores, os comerciantes começam a sofrer, mas os viajantes reais aproveitam como nunca. Venice in it’s best!

No segundo dia, explore o Canareggio, que é o menos concorrido dos bairros da cidade. Há menos turistas por ali e é ainda mais fácil get lost. Fique de olho nas varandas do segundo andar para ver as velhinhas e os gatos, sempre negros, que parecem estar ainda observando a partida de Marco Polo para os mistérios do Oriente. E, se você nunca mais achar o caminho de volta, don’t worry, my dear. Haverá sempre duas opções. A pior delas é chegar a qualquer cais (Veneza é um arquipélago, remember?) e pegar um vaporetto para voltar à Piazza San Marco. A melhor é ficar em Veneza para sempre.

MR. MILES É O HOMEM MAIS VIAJADO DO MUNDO. ELE ESTEVE EM 183 PAÍSES E 16 TERRITÓRIOS ULTRAMARINOS. ESCREVA PARA MILES@ESTADAO.COM E SIGA-O NO INSTAGRAM @MRMILESOFICIAL

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