Priscila Mengue
Cartagena expõe três das facetas que mais me foram evidentes no território colombiano: a história, a cultura e a natureza Priscila Mengue

Roteiro pela Colômbia: do colorido de Cartagena à renovada Medellín

Montanhas com vistas impressionantes, praias com azul caribenho e uma cena cultural que vai de Botero aos artistas de rua

Priscila Mengue, O Estado de S.Paulo

08 de outubro de 2019 | 06h00

Já era noite quando, ao descer do avião, veio a confirmação do que todos ouvem antes de por lá chegar: o calor caribenho. Pego a bagagem, faço um câmbio rápido, entro no táxi. Mas nem dá tempo de se ambientar ao espanhol do motorista, pois em minutos já estamos diante da muralha e, a partir daí, já me sinto quase uma personagem terciária de algum romance de Gabriel García Márquez.

Levei 28 anos para conhecer Cartagena das Índias. Os motivos envolvem dinheiro, tempo e um receio do “hype” que tomou a cidade (e a Colômbia) nos últimos anos. Não estava totalmente errada: turistas estão aos montes e, junto deles, muitos vendedores. Tudo isso debaixo de um sol forte e umidade intensa, que tornam suar um ato onipresente e inevitável - mesmo no inverno. E sabe do que mais? Vale muito a pena.

Cartagena expõe três das facetas que mais me foram evidentes no território colombiano: a história, a cultura e a natureza. A quarta é a renovação urbana, elemento central do breve período que estive em Medellín - o segundo destino dessa viagem de 15 dias, que ainda passou por Bogotá.

García Márquez é a primeira referência que sempre tive de Cartagena, embora não me debruce sobre um livro seu há uns 10 anos. Imaginei que a presença dele fosse evidente ao menos na parte histórica da cidade, mas não: as referências são sutis e encontrá-las requer até certo esforço (que já adianto ser recompensado). 

Esse estranhamento se torna ainda mais impressionante porque Cartagena tem muitas opções de passeios guiados. A temática até varia pouco, entre histórica, fotográfica e gastronômica, mas os meios de locomoção vão do andar a pé a de charrete, scooter, bicicleta ou mesmo segway (aquele diciclo utilizado por seguranças de shopping). 

Quase todos os tours saem das proximidades da Torre do Relógio, principal ponto de referência da cidade amuralhada (centro histórico e turístico de Cartagena). Optei por um walking tour, com um roteiro que fez questão de girar por pontos manjados e não lá tão interessantes para não gringos, como uma calçada com fotos de misses e uma loja de esmeraldas. Acontece.

O passeio de verdade começou depois do tour, ao entrar nas igrejas e me perder propositalmente pelas tantas ruas de casarões coloridos. Naquele momento eu ainda não sabia, mas dias depois tive de me conformar: não, eu não conseguiria percorrer todas aquelas quadras, embora tenha passado dezenas de vezes pela Torre do Relógio. 

Entre muros

A cidade amuralhada não só é maior do que eu esperava, mas também melhor conservada. Construídas ao longo de dois séculos e concluída em 1796, as muralhas se estendem ao longo de 11 quilômetros. Não precisa procurar um lugar bonito para admirar ou tirar uma foto: praticamente todos os cantos nessa região são assim. 

E, aqui, vale o alerta: use filtro solar. E também use chapéu, beba muita água e, acredite em mim, escolha uma hospedagem dentro da cidade amuralhada. Além de todo o encantamento de estar perto de tudo o tempo todo, tem outra vantagem: é um refúgio para fazer pequenos intervalos do calorão (e também uma forma de evitar pegar muitos táxis).

Como chegar: 

A Latam e a Avianca (que não é a Avianca Brasil, em recuperação judicial) têm voos diretos para Bogotá. Na primeira, a passagem ida e volta custa a partir de R$ 2.566,18. Na segunda, desde R$ 1,9 milhão de pesos colombianos (R$ 2.259). 

 

Deslocamentos: 

De Bogotá a Cartagena  são 1.100 km. De Bogotá a Medellín são 8h por terra. A melhor opção para viajar entre essas cidades é mesmo o avião. 

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Cartagena: encantos dentro e fora da muralha

A vida vibrante da cidade de Gabriel García Márquez pulsa no centro histórico; mas há outras atrações pela cidade

Priscila Mengue, O Estado de S.Paulo

06 de outubro de 2019 | 05h50

Na minha primeira tarde em Cartagena, aproveitei a chuvinha para sair do interior da muralha. A primeira parada foi o Castelo San Felipe de Barajas, a pouco mais de um quilômetro da Torre do Relógio e, assim como a cidade amuralhada, considerado patrimônio da humanidade pela Unesco.

O caminho até lá passa por uma região mais urbanizada de Cartagena, com supermercados, comércios de médio porte e afins, que contrastam com a fortaleza de quase 400 anos de história que ocupa uma quadra inteira, circundada por muros e canhões. 

O ingresso custa 25 mil pesos colombianos (cerca de R$ 30) e dá acesso a praticamente todas as estruturas do forte. A subida é por uma rampa que leva até um dos mirantes, mas há outras tantas escadas, portinhas e túneis escuros para conhecer, o que costuma prolongar a visita por uma ou duas horas.  

Do forte, avistei o que parecia uma pequena igreja branca no topo de um morro, mas que sabia se tratar do Convento Santa Cruz de La Popa, que alguns dizem ser a vista mais bonita de Cartagena. Peguei um táxi até o local com o combinado de o motorista me esperar para o retorno (o que é de praxe por lá).

 Paguei os cerca de R$ 15 de ingresso para o bilheteiro, que me contou conhecer apenas uma palavra em português (um palavrão, claro). Subi as escadas e me deparei com o mirante, do qual é possível avistar “os pobres e os ricos”, como definiu um senhor que estava por perto. 

Ele se referia ao contraste entre os bairros de classe baixa e a ostentatória Boca Grande, dos edifícios mais caros da cidade e que fica próximo da cidade amuralhada e igualmente de frente para o mar.

Infelizmente, o dia estava nublado e não pude avistar o famoso pôr do sol do convento. Caminhei também pelo entorno da construção, entrei no jardim, observei os que oravam diante do altar e tirei alguns retratos para os que me pediram uma ajudinha. O número de visitantes não era tão grande quanto o do Castelo.  

Onde curtir a noite

Quando saí novamente pela cidade amuralhada, as ruas estavam ainda mais cheias - as pessoas aproveitam a trégua do calorão proporcionada pela noite. Me encaminhei para Getsemaní, bairro boêmio que entrou no gosto dos turistas mais moderninhos. Ele fica a cerca de 10 minutos a pé da Torre do Relógio, com sobrados antigos, bares e muita gente na rua, entre locais e viajantes, dando continuidade à salada de idiomas de Cartagena.

 A outra opção noturna são os bares e restaurantes da cidade amuralhada, que reúnem gastronomia de origens diversas, assim como a música. Não quer gastar, comer ou beber? Caminhe um pouco, passe pelas praças e ouças as músicas que vêm de dentro dos bares e dos artistas de rua. Preste atenção na via para desviar das charretes e curta quando alguém passar cantando Robarte un Beso ou outro sucesso do Carlos Vives.

No dia seguinte, voltei mais uma vez à Torre do Relógio para encontrar a guia que me levaria junto de um casal argentino e cinco jovens mexicanos para a Isla Baru - que, diferentemente da maioria das outras ilhas do entorno, pode ser acessada de carro. E aqui vai um adendo: Cartagena tem praias na área urbana (como Boca Grande), frequentadas especialmente pelos locais e sem o colorido das opções um pouco mais distantes.

Vamos à la playa

Depois de cerca de uma hora de trânsito (e muitos sucessos latinos no rádio), chegamos à Playa Blanca, que, diferentemente da fama, não estava lotada. Eu, o casal e os mexicanos deixamos nossas coisas com a guia e fomos aproveitar a praia.  

O mar tinha tons entre o azul e verde, exatamente como as fotos típicas de Caribe mostram. Antes de entrar na água, caminhei pela praia, passando por pequenas pousadas, hostels, restaurantes e até aqueles balanços de madeira que voltaram à moda por serem instagramáveis.

De volta ao meu grupo, o tempo parecia passar mais devagar. O calor era menos pesado do que na cidade, mas o sol forte e o mar eram mais do que convidativos. Peguei um óculos de natação e fui para a água, observar os peixes que nadavam próximos à beirada. 

Perto do entardecer, nos reunimos em roda junto de um morador, que se apresentou como biólogo e nos falou sobre o fitoplâncton da região. Nesse momento ele  alertou para esquecer as fotos, já que  a experiência é visualmente  mais sutil do que o azul bioluminescente das imagens mostradas a turistas.

Pegamos um barco até uma área no meio do oceano, já de noite. Pulei na água (quentinha), comecei a me mover e reparei que o mar ficava de um tom branco fosforescente quando eu mexia a minha mão lateralmente. O mesmo se repetia quando alguém batia os pés. Com o anoitecer mais intenso, o efeito também ficava mais visível - aos nossos olhos, mas não para câmeras.

Depois de 30 minutos, retornamos para a praia e pegamos o transporte de volta para Cartagena. O meu passeio, via Airbnb, custou pouco mais de R$ 137, com transporte, almoço, passeio de barco e guia. Há, ainda, como pagar por experiências de mergulho ou pelo uso de snorkel, além de se hospedar na ilha.

Antes de partir

A minha terceira manhã em Cartagena foi dedicada a um dos lugares que mais gosto de conhecer em viagens: teatros, no caso, o Adolfo Mejía (também conhecido como Heredia). Infelizmente, não consegui encaixar o roteiro com algum evento da (restrita) programação, mas aproveitei uma visita guiada particular. O custo é de cerca de R$ 15.

 A visita começa por uma entrada lateral. Subo uma escada, dou alguns passos e tcharam: estou sobre o palco. Sigo sobre a estrutura de madeira e percebo estar debaixo dos afrescos de anjos pintados pelo panamenho Enrique Grau. Caminho entre os bancos e subo para os mezaninos, com detalhes em madeira e veludo, enquanto ouço a guia contar sobre os casamentos que famílias abastadas fazem no local. 

Após subir todos os níveis, desço e dou uma última olhada para o teatro, em formato de ferradura. Sigo, então, até a escadaria da entrada principal e, por fim, guardo alguns minutos para observar a fachada, em rosa claro e tons pastéis, que até se destaca pela sobriedade em comparação ao colorido cartageno.

Encontro com Gabo

Por fim, um dos meus últimos momentos foram dedicados a ele: Gabriel García Márquez. Sem boas opções de walking tour voltadas ao escritor, optei por comprar o audiotour La Cartagena de Gabo (tem opções em inglês e francês também) ao custo de R$ 18,99 no iTunes e Google Play.

O passeio foi desenvolvido por uma agência local em parceria com a Fundação García Márquez, tendo 35 pontos de visitação, a maioria dentro da cidade amuralhada. Cada parada significa cerca de cinco minutos de informações sobre o autor e o local, além de trazer trechos de alguns livros, especialmente O Amor nos Tempos de Cólera.

Comecei o percurso já um tanto tarde, perto das 10 horas. A cada chegada em um ponto novo, procurava a sombra mais próxima, me sentava, eventualmente tomava água e, enfim, ouvia a gravação. No início, a dinâmica me pareceu mais desgastante do que proveitosa, mas logo mudei de ideia ao me sentar em frente à igreja em que a personagem Firmina Daza casou e, depois, ao avistar o casarão em viveu com o pai (onde o batedor de portas tem o formato de papagaio). 

“Cartagena era como um cenário construído especialmente para o escritor pela mão misteriosa do destino”, diz um trecho do audiotour. Já perto do final, o roteiro se aproxima das muralhas e para diante de uma casa rosada de arquitetura modernista, que a diferencia dos casarões antigos. No imóvel do lado, o grafite de um hotel dá a dica: o vizinho nada colonial foi lar do maior escritor colombiano (e, hoje, segue com uso privado).

No fim da tarde, caminhei sobre as muralhas e parei para ver o entardecer perto do Café del Mar, que estava lotado. A maioria das pessoas fica sobre a fortificação, mas também há quem consiga um lugar para se sentar nas “janelinhas” do muro. Tudo para ver o intenso alaranjado que toma os céus e reflete no mar caribenho. 
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Medellín: novos ares para uma nova fase

Cidade quer deixar a imagem de violência para trás com uma arquitetura moderna e bairros descolados

Priscila Mengue, O Estado de S.Paulo

06 de outubro de 2019 | 05h50

Caía uma chuva fina quando o meu transfer do aeroporto parou em Medellín. Desembarquei, deixei a bagagem no quarto e fui conhecer o bairro El Poblado, uma versão de Pinheiros ou Palermo colombianas, para ficar nos exemplos paulistano e portenho. 

Como nos “primos” de outras grandes cidades, El Poblado é um grande distrito de classe média, com importantes avenidas, lojas, supermercados, prédios, escritórios, metrô (estação Poblado). A comparação também tem outro motivo: o núcleo jovem/descolado/hipster, que em vez de circular pelo eixo da Rua dos Pinheiros ou de Palermo Soho, se espalha pela Parque Lleras, abrangendo algumas quadras com grafites, varais de luzinhas e paredes instagramáveis.

Caminhei por lá algumas tantas vezes, mas não cheguei a ir além de casquinhas em uma sorveteria gourmet de um chef italiano. O movimento é frequente durante todo o dia, mas as ruas são tomadas de gringos e jovens locais a partir das 18 horas e a animação se estende noite adentro. 

Essa atmosfera faz parte dessa nova Medellín, que busca recriar o que já foi a cidade mais violenta do mundo - e essa dedicação, de se reconstruir, me pareceu presente até na fala de moradores com os quais conversei. 

A cidade é repleta de grandes obras que parecem ter saído da prancheta de algum arquiteto renomado. São muitos projetos recentes impressionantes, mas raras as construções antigas. Entre as exceções está o Museo de Arte Moderno, cuja sede une uma antiga usina siderúrgica da década de 1938 a uma edificação inaugurada em 2015, com estéticas completamente distintas. Além da arquitetura em si, as exposições do espaço trazem artistas latinos e de fora do continente, além de ter uma praça, bancos e lojinhas convidativas. O ingresso custa cerca de R$ 15, com entrada grátis na última sexta-feira do mês.

Boteros por toda parte

A minha parada seguinte já foi na região central, mas não em um ponto turístico. Pelo contrário: por ser perto de um terminal de transporte, a Praça San Antonio não chama muito a atenção de viajantes, mas é simbólica ao se pensar nas mudanças da Colômbia

Ali, em 1995, um atentado a bomba deixou 29 mortos e destruiu parcialmente a escultura El Pájaro (“o pássaro”), de Fernando Botero. Tempos depois, o artista, nascido em Medellín, doou uma nova versão da peça, que foi colocada do lado da antiga, como uma forma de mostrar o passado e o futuro do País.

Mais alguns minutos de caminhada e voltei a encontrar a obra de Botero, dessa vez na praça que leva o nome do artista e na qual estão distribuídas mais de 20 peças de bronze de alguns metros de altura. Por ali, viajantes e nativos (conhecidos como paisas) se debruçam e tiram fotografias com homens, mulheres e animais com as proporções volumosas típicas do autor.

A praça fica entre as outras duas atrações da região: o Palácio da Cultura Rafael Uribe Uribe e o Museu de Antioquia. O primeiro é um grande prédio quase centenário de estilo gótico e chamativo pela combinação de duas cores, quase formando listras. Com entrada gratuita, ele dá acesso a mirantes para a região central, dos quais se destaca um junto às cúpulas e com vista para um grafite na empena de um prédio feito a partir de uma pintura de… claro, Botero. 

Atrações do Palácio

Também vale ficar de olho na programação do Palácio, que costuma receber exposições, oficinas e mostras de cinema. O mesmo se aplica ao Museu de Antioquia, no qual assisti a um concerto gratuito com a orquestra sinfônica local no finzinho daquela tarde, depois de fazer uma refeição em um dos dois cafés do espaço. 

Antes, fiz a visita guiada diária do museu (sempre às 14h), que percorre uma parte das tantas salas de exposição. Ao fim do passeio, o visitante pode explorar o restante das mostras, tudo pelo valor do ingresso normal (cerca de R$ 22). 

O museu leva o nome de Antioquia, departamento em que está Medellín, mas tem ares de ser um “museu Botero” pelas dezenas de obras que o autor doou para a instituição e que ocupam uma sala inteira. Dentre as pinturas mais conhecidas, está uma em homenagem ao filho Pedro (morto ainda criança em um acidente de carro) e outra que retrata o momento em que Pablo Escobar foi morto. O acervo traz, ainda, obras de arte contemporânea e dos séculos passados, além de artefatos arqueológicos e artesanais colombianos. 

Jardim Botânico e arredores

No dia seguinte, parti para a região do Jardim Botânico. Com entrada franca, o espaço é uma espécie de parque de lazer e atividades esportivas, apesar da calmaria que encontrei logo do início da manhã, em que os corredores dividiam a pista com as iguanas que tomavam banho de sol. Por lá, alguns moradores disputavam mesinhas perto de uma antiga locomotiva transformada em cafeteria.

A parte mais esperada para mim era o orquidário, cujo projeto arquitetônico parece flutuar, lembrando grandes balões quadrados ou uma colmeia. Enquanto tentava uma selfie, observei uma jovem que fazia fotos para um possível book de debutante e dezenas de pessoas em uma aula de ioga.

Do lado do Jardim Botânico, ficam outras das grandes atrações de Medellín: o Parque Explora, um museu natural interativo e tecnológico, que abriga também um aquário. A entrada custa cerca de R$ 35, mas chega a R$ 50 se combinada com o planetário, do outro lado da rua - onde também fica o Parque de Los Deseos, que é público.

Parti, então, para o Museo Casa de la Memoria, outro dos projetos arquitetônicos recentes, voltado à memória dos que morreram ou se opuseram aos conflitos armados na região. O espaço reúne uma série de tecnologias interativas para acessar o acervo de depoimentos, notícias e registros, dando rosto e voz a quem testemunhou centenas de mortes. Para a experiência ser mais completa (e tocante), recomendo baixar o aplicativo, que, assim como o ingresso, é gratuito. 

Encerrei a tarde com uma caminhada pela Plaza de los Pies Descalzos, em que os visitantes são convidados a andar sem calçados. Na prática, os adeptos acabam sendo mais as crianças, mas o espaço é tranquilo e próximo de um conjunto de cafés e restaurantes no meio de mais uma das quadras de arquitetura contemporânea, dessa vez representada pelo Teatro Metropolitano, a Plaza Mayor e um centro de convenções.

Bate-volta

Destinei a minha última tarde hospedada em Medellín para um bate e volta para Guatapé, a quase duas horas de distância. Há quem faça o passeio com agências, mas preferi comprar uma passagem na rodoviária. O segredo é pedir para descer na Piedra del Peñol, uma das principais atrações, um pouco antes da chegada à cidade. O caminho é rural e passa perto de pequenas propriedades.

Em Medellín, há quem diga que La Piedra é o “Pão de Açúcar colombiano”. Tamanho orgulho já fica claro logo na estrada, quando uma placa dá boas-vindas “à vista mais bonita do mundo”. 

De fato, ela é linda, mas tem um detalhe: é preciso subir mais de 700 degraus. Cansa, e bastante, mas paradas estratégicas para admirar a vista, tirar fotos, tomar fôlego e se hidratar atenuam a situação para os que estão com um condicionamento físico razoável. Lá de cima, uma vista de 360 graus inclui as águas esverdeadas do Lago Guatapé.

Depois de recuperar o fôlego de subir o monólito e me refrescar com um picolé, segui para o centrinho de Guatapé. O deslocamento costuma ser feito de tuc-tuc e leva uns 10 minutos.

A cidade é conhecida pelos zócalos, representações de temas variados feitas em relevo e com muitas cores nas fachadas das casas, com motivos que vão de carneiros e dragões aos tradicionais tuc-tucs. 

Também dá para aproveitar para comprar souvenirs e provar pratos típicos como o merengón, um doce com creme, merengue e frutas, ou a bandeja paisa, um grande prato com banana, carne moída, ovo frito, abacate, arroz, feijão, chorizo e outros itens.

 

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Bogotá: da vista de Monserrate ao charme da Candelária

Capital também guarda museus imperdíveis, como o do Ouro e o dedicado às obras de Botero

Priscila Mengue, O Estado de S.Paulo

06 de outubro de 2019 | 05h50

Cheguei a Bogotá no início da manhã de um domingo. O meu táxi ganhou as avenidas ainda adormecidas e, aos poucos, passamos por paisagens com cara de capital. Conforme nos aproximávamos do centro, comecei a vislumbrar as construções antigas e diversos museus, especialmente na parcela mais boêmia e gastronômica: La Candelaria.

O movimento na cidade ainda era silencioso quando desembarquei, deixei a bagagem e fui em direção ao Cerro de Monserrate. Caminhei algumas quadras até o pé do morro ainda cedinho, na intenção de evitar filas, mas me enganei: dezenas e dezenas de pessoas se alongavam para encarar a subida a pé mesmo sendo pouco mais de 7 horas, enquanto outras tantas aguardavam o funicular (o teleférico não funcionou naquele dia). Peguei a fila, paguei pouco mais de R$ 15 pelo trajeto ida e volta (nos demais dias custa R$ 25) e, uns 30 minutos depois, subi.

Se Bogotá fica a 2.600 metros acima do nível do mar, Monserrate adiciona mais 550 metros a essa conta. No topo, um santuário católico divide a atenção dos visitantes, que estão atrás também das opções gastronômicas da feirinha e da vista que abrange grande parte da capital.

Após a descida, pertinho dali, visitei o Museu Quinta de Bolívar, onde Simon Bolívar viveu por pouco mais de um ano. A entrada custa cerca de R$ 5, mas é gratuita aos domingos. 

A chácara mistura peças, roupas e móveis originais a réplicas, além de receber atividades culturais. Infelizmente não consegui, mas fiquei com a impressão que o passeio seria mais proveitoso com visita guiada - que ocorre em dois horários (11h e 14h, nos sábados, e 11h e 15h, de terça a sexta-feira)

Candelaria

Se você tiver poucos dias na cidade, tenho três conselhos: vá à Candelaria, caminhe pela Candelaria e se hospede na Candelaria. Como toda metrópole, Bogotá tem várias caras e lugares para se conhecer. Mas é nesse bairro que estão reunidos os principais elementos que definem a cidade: a história, a cultura, as manifestações políticas, a gastronomia, as pessoas. 

A Candelária também é a parte mais turística e boêmia do centro, junto de Chapinero (a Pinheiros dos bogotenhos). Dito isso, não esqueça das outras partes do centro, como Santa Fe.

Uma das coisas que mais me marcaram em Bogotá é que os moradores também vivem o centro. As ruas são cheias de artistas, especialmente na Carrera Séptima, uma versão colombiana do que é a Paulista Aberta em São Paulo. É perto da via também que estão as sedes do legislativo e judiciário, além de algumas das igrejas mais bonitas. Para visitar a sede do governo, a Casa Nariño,  é preciso agendar com algumas semanas de antecedência.

Ouro e arte nos museus

Também é por ali que estão alguns dos principais museus da cidade. Um dos mais famosos é o Museo del Oro, que tem entrada gratuita aos domingos e ao custo de pouco mais de R$ 5 nos outros dias, com valor adicional para quem optar pelo audioguia (mais R$ 10).  Há ainda visitas guiadas em horários variados.

O museu do ouro reúne centenas de peças em ouro feitas por povos pré-colombianos, além de outros tipos de artesanatos, incluindo estátuas de San Agustín (consideradas patrimônio da humanidade pela Unesco).  Os detalhes e o luxo de algumas peças impressionam, bem como a forma como ajudam a contar um pouco da história e costumes desses povos.

Quer mais museu? Vá ao complexo de antigos casarões que reúne os Museus Botero e de Arte Miguel Urrutia, que ficam junto da Casa da Moeda. São milhares de obras expostas simultaneamente em um passeio que leva, no mínimo, um turno - e tudo de graça, com possibilidade de fazer visitas guiadas e comprar alguma coisas na lojinha e no café. O mais tradicional teatro da cidade (o Colón) fica na frente, mas tem poucos horários de visita (quartas e quintas, 15h, e nos sábados).

Mais Botero

Dos três museus, o mais procurado é o Botero, que reúne 123 obras próprias do artista colombiano, entre pinturas, desenhos e esculturas, incluindo sua famosa versão da Monalisa. E aqui vale uma breve explicação: o artista brinca com as dimensões e volumes nas pinturas, misturando objetos e pessoas com tamanhos variados, criando um contraste entre as formas. O espaço reúne ainda 85 obras de artistas diversos que integravam a coleção pessoal de Botero, de autores como Salvador Dalí.

A arte do colombiano também está no Museu Miguel Urrutia, que traz o que seria a primeira obra em que Botero explorou a técnica de volumes (na pintura de um violão). A grande atração da instituição é, contudo, La Lechuga, um ostensório católico repleto de esmeraldas e outras pedras preciosas que fica dentro de um espaço de exposição com diversas tecnologias de segurança. Os locais costumam dizer que, se vendida, essa peça seria capaz de pagar toda a dívida internacional do país. 

Outro lugar para visitar é o Museu Nacional, localizado em um bairro vizinho ao centro. Ele foi criado em 1823 e tem um acervo etnográfico, histórico, arqueológico e artístico com cerca de 2,5 mil peças de momentos variados da trajetória do País, desde o período pré-colombiano até (olha ele de novo aqui) Fernando Botero. Um adendo, porém: parte das obras de Botero presentes no espaço é anterior ao estilo que lhe ficou característico. O ingresso custa pouco mais de R$ 5 e garante um bom panorama do que é e já foi a Colômbia.

Ainda pelo centro, há uma série de tours guiados com temática histórica e também especializados em grafite (que se multiplicam na parte mais alta da Candelaria). Eu optei pelo realizado pela Prefeitura de Bogotá, que é realmente gratuito (não adianta tentar, os guias não podem receber gorjeta) e circula por grande parte da área central - com saída diárias às 10h, 12h, 14h e 16h. 

Ele sai da praça principal. A minha guia, como grande parte dos bogotenhos que conheci, era simpática e tirou diversas fotos do passeio, além de me indicar a provar a chicha - uma bebida fermentada e alcoólica feita desde o período inca. Quem preferir andar por conta, não esqueça de entrar nas muitas (muitas mesmo) e belas igrejas.

Bate-volta

A uma hora de Bogotá, Zipaquirá vale um bate-volta. A cidade tem um pequeno centro histórico com lojas e restaurantes, mas a grande atração é a antiga mina que virou o Parque do Sal, cuja entrada custa de cerca de R$ 70 a R$ 120 (a depender dos atrativos a que está combinada, como city tour e ingresso na Catedral de Sal).

Um cheiro ruim, similar ao de enxofre, se espalha na entrada por causa das formações da mina. Os caminhos são bem iluminados e, no comecinho, tem projeções de bandeiras de países cuja população já visitou o local. 

As paredes são escuras, esbranquiçadas e úmidas. O percurso tem paradas em pontos com cruzes que lembram a via sacra, até chegar à nave central, com um grande lustre e espaço para celebrações. Fui em um dia útil e, mesmo assim, havia bastante movimento, até pela presença de excursões. 

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