Rumo ao fim do mundo

Impossível não abrir um sorriso de felicidade quando, ao acordar, se descobre pela janela a paisagem deslumbrante revelada pela luz do dia. Montanhas salpicadas de neve, de um branco que se confunde com as nuvens do céu. O mar escuro reflete a sombra dos pássaros pescadores. Tudo é um espetáculo que nos segura na cama de olhos paralisados naquela janela que mais parece um quadro vivo. Mas mesmo com a temperatura de 5 graus do lado de fora, pular da cama antes das 7 horas é a melhor escolha. Navegamos as águas do Estreito de Magalhães e o destino é o fim do mundo, em uma expedição de muitas histórias, mitos e a natureza selvagem da Patagônia. Os sorrisos de felicidade estão só no começo.

PAULO SALDAÑA, PUNTA ARENAS, O Estado de S.Paulo

08 Novembro 2011 | 03h08

A jornada corta algumas das centenas de fiordes, ilhas e canais da região mais austral do planeta, uma pérola do continente sul-americano. Uma misteriosa grandeza vive entre as montanhas que se elevam umas atrás das outras, deixando entre si profundos vales. Região que por séculos desafiou a habilidade de grandes navegadores e hoje habita o sonho de turistas de todo o mundo. A viagem é para contemplação e exclamações. E também para curtir uma solidão sem tristeza.

Para descobrir geleiras, os caminhos da história e andar entre pássaros e pinguins, é preciso se desligar do mundo. Os passageiros não têm acesso a internet, telefone ou mesmo televisão. E sem nenhum sacrifício - muito pelo contrário.

Desde o início da década de 1990 a região é explorada por cruzeiros turísticos, sempre em versões menores que os convencionais. Estamos a bordo do Stella Australis, um dos que realizam essa expedição. De bandeira chilena, o navio tem capacidade para somente 210 passageiros.

Abrigo com instalações luxuosas, áreas de convívio com preguiçosos sofás de couro, serviço all-inclusive e, é bom avisar, uma agradável temperatura ambiente. O frio, que nesta época do ano varia entre zero e 10 graus, está só do lado de fora.

Apesar do luxo e do bar aberto, esqueça festas noturnas e bailes que entram pela madrugada. A programação prioriza as saídas para terra, a maioria nas primeiras horas das manhãs.

Partida. O ponto inicial da aventura é a cidade chilena de Punta Arenas, no paralelo 53° ao Sul, na costa do estreito descoberto em 1520 pelo navegador português Fernando de Magalhães, a serviço da Espanha. Até chegar a Ushuaia, na Argentina - e também ao voltar a Punta Arenas, para aqueles que fazem o tour completo - vestimos o colete salva-vidas repetidas vezes e nos jogamos a bordo de botes Zodiac para desembarcar em baías e geleiras. Sempre em grupos de até 15 pessoas, divididos pelo idioma dos passageiros.

As línguas oficiais são o espanhol e o inglês. Prepare-se para conhecer gente do mundo todo. Mais da metade dos passageiros - 57% do total - são europeus. Norte-americanos e canadense são 24% e da América Latina, 16%. Os brasileiros correspondem a apenas 6% dos expedicionários deste cruzeiro. Apesar disso, havia em nossa viagem guias que falavam português - e, em um dos trechos que o grupo de brasileiros era maior, todas as informações eram traduzidas.

A viagem tem quatro noites na ida, três na volta. Cruzar essas águas é um ingrediente valioso para a recarga de aventura no espírito de qualquer pessoa. Para a porção de informação, guias afiados destrincham detalhes da fauna, flora e também das glórias e inglórias dos navegantes. "Somos privilegiados por navegar nestas águas", diz um dos guias.

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