Alex Silva/Estadão
Alex Silva/Estadão
Imagem Bruna Toni
Colunista
Bruna Toni
Conteúdo Exclusivo para Assinante

Sabores de ontem

Ainda lembro do gosto do frango com polenta do Demarchi e das conversas sobre a redemocratização do País

Bruna Toni, O Estado de S. Paulo

13 de agosto de 2019 | 03h50

Todas as vezes que falo dos meus avós, segundos antes ou segundos depois, o que me vem à mente é a imagem daqueles pratos deliciosos que eles, somente eles, preparavam. A imagem do bolo de cenoura com a casca grossa de chocolate que Dona Anna fazia e que nunca mais encontrei igual. Ou do lanche de presunto, tomate e orégano na frigideira, feito pelo Seu Paulo nas tardes de sexta-feira.

E não é que as tentadoras imagens chegam sozinhas. Elas têm a capacidade surpreendente de carregar memórias olfativas e gustativas, como todos bem sabem. Recordamos os pratos, sentimos imediatamente seus sabores e cheiros como se estivéssemos revivendo os dias com eles. 

Estou novamente escrevendo sobre avós, e o leitor já tem mesmo o direito de se sentir da família. Mas há dois motivos para tanto. O primeiro sei que compartilho com todos. Pois quando o assunto é memória gastronômica, não tive uma só conversa que não trouxesse para a roda os antepassados de alguém. 

O segundo veio na última semana, quando li a notícia do fechamento de mais um restaurante da Rota do Frango com Polenta em São Bernardo do Campo. Das três casas com mais de 50 anos que existiam ali, inauguradas pela família italiana Demarchi, apenas uma se manterá aberta depois do dia 25 de agosto – a Florestal. 

 

Pois foi justamente com meus avós, Dona Anna e Seu Paulo, que conheci a rota e os salões gigantes e sempre abarrotados de seus restaurantes, com garçons andando de um lado para o outro e a gente na fila de espera, com água na boca. Passaram-se mais de 20 anos e não sei se realmente pelo gosto singular ou se pela afetividade dos momentos que vivemos juntos, nenhum outro frango com polenta foi tão bom quanto o de lá. 

Faz tempo que a gastronomia entrou no circuito turístico como produto e que vem sendo explorada na hora de promover de um destino. Publicitários sabem, afinal, o poder que essa memória gustativa exerce sobre nós e nossos prazeres mundanos. 

Há lugares que se tornaram famosos por serem grandes centros gastronômicos, oferecendo de tudo do mundo um pouco. É o caso de São Paulo. Outros investem naquilo que têm de mais autêntico em suas cozinhas. 

Acabo de voltar de Portugal e, como podem imaginar, se um dia fiz regime, esqueci. Trouxe gratas lembranças da viagem, entre elas açorda alentejana (espécie de sopa de pão); bifana de Braga (pão quente com carne de porco); bitoque do Algarve (o PF português); ginjinha de Óbidos (um licor da fruta da ginja); os doces de ovos de Aveiro; a francesinha do Porto (sanduíche de pão de forma com molho). 

É claro que memórias de um lugar não dependem apenas da qualidade dos pratos (apesar de esse ponto ser importantíssimo). Tudo que conta uma história fica mais gostoso. A francesinha que citei, por exemplo, é tipicamente portuguesa, mas inspirada num sanduíche francês chamado croque-monsieur. Seu criador, no entanto, adaptou o lanche ao gosto português. Prova de que a alimentação não é algo natural. Ela tem história e, assim, se transforma. Muda de acordo com as geografias, culturas e assume funções sociais, a depender da época, do lugar e da classe social. 

Se os restaurantes do ABC falassem, por exemplo, contariam sobre como foram importantes durante o auge da industrialização da região e das greves e movimentos organizados pelos sindicalistas em defesa da redemocratização na década de 1980. E eu juro que sou capaz de ouvir meu avô falando sobre tudo isso enquanto sinto o gosto de um delicioso frango com polenta são-bernardense de tantos anos atrás. 

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.