Salvador abriga obra de um gênio da arte

Misterioso e genial, o escultor Francisco das Chagas, apelidado O Cabra, nunca teve o reconhecimento de sua obra na Bahia, onde viveu no século 18. Ao contrário, a elite branca da época tratava aquele mulato alforriado com desprezo e desconfiança apesar de encomendar-lhe a confecção de inúmeras imagens sacras. Cinco dessas esculturas, exemplos clássicos do barroco brasileiro, são o que restou da obra do artista: Cristo Atado à Coluna, o Senhor Morto, Cristo Sentado na Pedra Fria, Senhor dos Passos e Nossa Senhora com o Menino Jesus nos Braços. As imagens pertencem ao Convento do Carmo e à Ordem Terceira do Carmo de Salvador e são uma atração à parte no roteiro turístico-cultural da capital baiana. Quem as vê fica impressionado com os detalhes anatômicos das esculturas. Músculos, estruturas ósseas que sobressaem sob a pele, feridas, expressão facial e outras características físicas moldadas habilmente na madeira, constituem o ponto alto do estilo do Cabra, que já foi comparado ao italiano Michelângelo por vários pesquisadores de arte. Paulo Herkenhoff, curador da 24.ª Bienal Internacional de São Paulo, em 1998, viu a mesma estética e atemporalidade das esculturas do Cabra nas obras de Rodin e Goya. "Não tenho a menor dúvida em afirmar que Francisco das Chagas é o escultor mais importante da América Latina", garante o escultor cearense Edval Rosas, de 62 anos, que se mudou para a Bahia em 1969 com objetivo de estudar arte sacra e montou seu ateliê na Ladeira do Carmo, bem próximo ao convento. Ele lamenta que o mineiro Aleijadinho tenha mais fama que Chagas. "Não dá para comparar as esculturas desses dois artistas; até um leigo percebe que as do Cabra são bem mais elaboradas, têm mais detalhes e movimento", diz Rosas. "O problema é que Aleijadinho estava no lugar certo na hora certa." Não é a primeira vez que o mestre mineiro Antonio Francisco Lisboa não é compreendido. Os viajantes estrangeiros Saint-Hilaire e Burton classificaram, no século 19, o estilo de Aleijadinho de "primitivo", "caricato" e "grotesco", levando o escritor Mário de Andrade, no início do século 20, a uma defesa radical do mestre mineiro: "Ele foi um deformador sistemático, mas a sua deformação é de uma riqueza, de uma liberdade de invenção absolutamente extraordinárias", comentou. Preconceito - O cearense Rosas pesquisou a vida do Cabra enquanto aperfeiçoava sua própria técnica de dar formas humanas em toras de cedro. Ele revela sua indignação com o tratamento dispensado ao colega do século 18. "Fizeram de tudo para tolher sua arte, pois era difícil aceitar que um negro esculpisse tão bem", observa o escultor. "Na tentativa de esconder sua arte, o comum era relacionar a obra ao branco que a comprou, antes do artista que a elaborou." Há uma quase absoluta falta de informações e documentos sobre a vida de Chagas, cercada por muitas lendas. Uma das mais conhecidas é a de que a criança usada como modelo para a escultura Nossa Senhora com Jesus nos Braços, morreu logo após a obra ficar pronta. Sabe-se que Chagas herdou a carta de alforria do pai, era analfabeto e jamais recebeu qualquer noção de desenho (ao contrário de Aleijadinho, que sabia ler, escrever, tinha noções de latim, conhecimento de desenho e arquitetura). O Cabra trabalhou com mais freqüência no Convento e Ordem Terceira do Carmo, onde provavelmente mantinha seu ateliê. O único contrato de trabalho achado até hoje do Cabra, para a feitura de três imagens de Jesus Cristo (Senhor Morto, Cristo Sentado na Pedra Fria e Senhor dos Passos) encomendadas pelos membros da Irmandade da Ordem Terceira do Carmo, revela todo o preconceito e má vontade que as pessoas nutriam pelo autor: o preço acertado foi de 176 mil réis (pouco mais do que custava um escravo na época, 150 mil réis), mas foi estabelecida uma multa de 50 mil réis caso as imagens não fossem entregues no prazo de seis meses e a devolução do dinheiro se as peças não agradassem. O Senhor Morto fez tanto sucesso que os irmãos terceiros pagaram 22 mil réis de gratificação além do preço acertado. Mensagem - O escultor Rosas considera que a obra-símbolo do Cabra é o Cristo Atado à Coluna, na qual ele quis mostrar, na rigidez dos músculos, o açoite e as chagas de um escravo. "Ele se transportou para aquele tronco de madeira", analisa Rosas. Carlos Ott, respeitado pesquisador alemão radicado na Bahia, que morreu em 1998 e também estudou a obra do Cabra, acreditava que Chagas não teria condição de fazer o Cristo Atado à Coluna. Argumentava que faltava-lhe conhecimento de anatomia para tal empreitada, o que não precisou usar, por exemplo, no Senhor Morto, escultura "fria" e destituída de "alma". Ott atribuiu a criação do Cristo Atado a algum artista europeu. De fato, as feições faciais das duas obras são bem diferentes, mas isso não significa nada para Rosas. "Aquela imagem do Senhor Morto pode ser considerada padrão na época, por isso creio que o Cabra não teve muita dificuldade e gastou pouco tempo para criá-la, ao passo que no Cristo Atado ele colocou toda sua alma e quis passar uma mensagem antiescravista", interpreta. Rosas concorda com Ott, no entanto, quando o pesquisador alemão garante que o Cabra não teria conhecimento anatômico para esculpir com tanta perfeição o Cristo Atado. "Imagino que ele tenha sido assessorado por alguém que lhe forneceu desenhos de músculos dissecados", especula. Não há comprovação documental de que o Cristo Atado foi feito pelo Cabra, mas essa autoria é uma das tradições orais mais inquestionáveis dos frades carmelitas. A obra, que é considerada uma das principais esculturas do barroco brasileiro, mudou a vida da advogada e escritora paranaense Sulema Mendes. Sem nunca ligar para arte sacra, numa visita a Salvador na década de 70 foi levada por amigos até o Museu do Carmo e diz ter perdido a respiração ao ver a escultura. "Chorei de emoção", lembra. "A partir daquele momento, dediquei-me a descobrir quem era aquele escultor." Adaptação - Ela pesquisou o artista durante dois anos e escreveu o livro Chagas, o Cabra que conta essa experiência, em paralelo com a sua versão para a vida do escultor. "Visitei Roma algumas vezes e notei muita semelhança nas esculturas de Michelângelo, principalmente Os Escravos, com o Cristo Atado à Coluna", disse. Sulema fez uma adaptação para a TV do seu livro e procura um produtor. "Seria maravilhoso mostrar o talento e a vida de Cabra", sonha. Quatro obras do Cabra podem ser visitadas diariamente na Igreja da Ordem Terceira do Carmo de Salvador: o Senhor Morto, o Cristo na Pedra Fria, o Senhor dos Passos e Nossa Senhora. O Cristo Atado à Coluna, que sofreu um acidente, deslocando um dos braços ao ser transportada para ser exposta na Bienal Internacional de São Paulo, em 1998, foi restaurada recentemente. É a peça mais importante do Museu do Carmo, atualmente fechado. Ele só deve reabrir no início de 2002, a escultura deve ficar exposta na sacristia do Convento do Carmo a partir do segundo semestre. Igreja da Ordem Terceira do Carmo, Largo do Carmo, (71) 242-7954; das 9 às 13 horas e das 14 às 18 horas; fecha domingo.

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