Todd Heisler/The new York Times
Todd Heisler/The new York Times

Santiago de Cuba também pula o Carnaval

Para se preparar para o evento, que ocorre no mês de julho, grupos fantasiados fazem ensaios com percussão pelas ruas durante o ano inteiro

Shannon Sims, The New York Times

27 de outubro de 2019 | 08h50

De Santa Clara até Santiago de Cuba foi uma viagem de 11h30 de carro. Na estrada deparamos com vacas e buracos e a viagem atrasou por causa dos buggies puxados a cavalo. Dormi no banco de trás, enquanto Todd procurava manter sua câmera parada, mas todas as vezes alguma coisa surgia que ele a erguia de novo: duas senhoras caminhando lado a lado pela estrada; um homem com um galo de briga embaixo do braço próximo ao seu Ford verde fluorescente.

Chegar a Santiago foi como chegar a um outro país. Os brilhantes carros clássicos competiam com milhares de motos que subiam e desciam em alta velocidades as ladeiras da cidade, deixando plumas azuis saindo dos escapamentos. Santiago é conhecida como o lugar de origem do rum Bacardí. Não à toa, é uma cidade festeira – e também tem Carnaval. 

Enquanto o Carnaval no Brasil e em Nova Orleans se realiza em fevereiro ou março, em Santiago ele ocorre no final de julho. Grupos de conga ensaiam o ano todo para o Carnaval, em grandes grupos chamados comparsas, que incluem dançarinos fantasiados. Os grupos representam bairros específicos e o mais famoso hoje, em Santiago, é o Conga Los Hoyos. Pretendíamos ir a um ensaio deles no dia em que chegamos, mas nesse dia não havia energia elétrica, o salão estava às escuras e quente, e o ensaio havia sido adiado.

Desanimados, decidimos ir embora, mas ouvimos o som de tambores à distância. Partimos acelerados enfrentando o trânsito e as motocicletas e tivemos uma agradável surpresa: um grupo de Conga estava ensaiando na rua. E melhor, era formado por crianças. Por sorte, o grupo era o Conga Los Hoyos Infantil, uma banda de nove e dez anos de idade com chaves de pneu e marcando o ritmo nos tambores com a palma da mão. Algumas meninas ensaiavam uma dança coreografada e outras marcavam o ritmo com os sapatos. Os vizinhos nas janelas das casas gritavam e quando o grupo passou por uma rua movimentada o trânsito parou. A banda fazia seus ajustes de último minuto para seu maior evento do ano: o Carnaval infantil.

O som da conga é predominantemente percussivo. Tambores de todos os tipos ali estão reunidos. (“Você pega qualquer coisa e começa a tocar”, alguém me disse), mas há sempre um quinto tambor mais alto no meio. O estrondo ensurdecedor da conga é feito pela batida com baquetas de metal em freios de motocicletas com formato de uma rosquinha.

E há o instrumento mais idiossincrático da conga de Santiago: a corneta chinesa. Fernando Dewar Webster, líder da mais famosa banda de Santiago, El Septeto Santiaguero, disse-me que o instrumento foi adicionado por acaso à Conga. “Uma conga começou a usá-lo durante o Carnaval e, no ano seguinte, outras também o incorporaram.” O instrumento é tocado por uma pessoa que vem atrás da banda e as pessoas a acompanham, balançam os braços no ar, fecham os olhos e dançam.

No dia seguinte, pouco depois do anoitecer, as ruas em torno do porto de Santiago estavam lotadas de grupos de crianças fantasiadas – algumas com roupas azuis, outras vestidas de pescadores. Ambulantes armavam sua barraca ao longo da rua, vendendo algodão doce e sanduíches de carne de porco tirada de um porco que foi trazido por mototáxi, enquanto as bandas se preparavam para o desfile pelo centro, onde grades de proteção foram colocadas dos dois lados das ruas.

A história racial, a dinâmica do poder e o simbolismo político das Congas de Santiago são explorados eternamente por acadêmicos, muitos deles interpretando a conga como uma revolta contra o poder. Mas para as bandas naquela noite ela tinha a ver com alegria.

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