Keiny Andrade/Estadão
Keiny Andrade/Estadão

São Joaquim: onde cai neve no Brasil

É lá que os turistas - e moradores - brincam de fazer algo parecido com bonecos de neve

Adriana Moreira, O Estado de S.Paulo

26 Julho 2016 | 00h40

É só nevar em São Joaquim para a tevê fazer uma transmissão ao lado do termômetro na praça central da cidade, marcando temperaturas negativas enquanto turistas acenam ou tentam esculpir algo parecido a um boneco de neve. Logicamente eu adoraria participar desse momento, mas São Pedro não quis colaborar com meu grupo e mandou os floquinhos gelados para a cidade justamente um dia depois de nossa partida, na semana passada. Revés de turista, quem nunca viveu algo semelhante?

Foi a neve, afinal, que colocou São Joaquim no mapa do turismo, antes mesmo de a cidade estar preparada. Com apenas 24 mil habitantes, a agricultura sempre foi sua principal atividade, especialmente a produção de maçã. Mas a fama de ser um dos poucos pontos do Brasil com ocorrência de neve aguçou a curiosidade dos viajantes. Agora, a cidade passa por uma repaginação, com reforma de ruas e calçadas para ficar ainda mais atraente.

Por outro lado, a neve já não é o único motivo para visitar São Joaquim. A produção de vinhos de altitude de qualidade começou a chamar a atenção – e ir às vinícolas degustá-los se tornou indispensável na cidade.

A Villa Francioni (villafrancioni.com.br) impressiona já na chegada. No alto de uma colina, cercada de vinhedos, a casa principal mistura linhas clássicas de antigas fazendas com ares contemporâneos. Manoel Dilor Freitas, fundador da marca, era um apaixonado por artes, e isso se nota nos detalhes do projeto arquitetônico: tijolinhos aparentes de demolições; antiguidades; quadros e mosaicos nas paredes; vitrais coloridos. “Ele colocou um pouco de si em cada detalhe, mas morreu antes de provar os vinhos, em 2004”, conta o guia Eduardo Sobânia, da agência Na Trilha Certa.

A visita é realizada em grupos de até 50 pessoas, o que torna o processo impessoal, mas nem por isso desinteressante. Um guia conduz o grupo pelos cinco andares do prédio, construído de maneira a aproveitar a gravidade na produção dos vinhos. Depois de observar cada etapa, a hora mais esperada: a degustação. Os rótulos da Villa Francione têm como característica a mistura de uvas – caso do Michelli, considerado o mais nobre da empresa, feito com cabernet sauvignon, sangiovese e merlot. Dos R$ 40 pagos pela visita, R$ 30 viram desconto na hora de comprar as garrafas, que têm preço médio de R$ 50. Agende antes de ir.

Aconchego. Proposta bem diferente tem a Monte Agudo (monteagudo.com.br), vinícola familiar e aconchegante, que propõe refeições harmonizadas com os (ótimos) vinhos produzidos ali. Fomos recebidos por Carolina, filha de um dos fundadores da empresa, com um sorriso e uma garrafa de espumante rosé em mãos. O salão é pequeno, com espaço para não mais que dez mesas, envidraçado e com vista para os vinhedos, plantados a 1.280 metros de altitude. 

Carolina percorre as mesas conversando com os clientes, explicando sobre os vinhos e o menu, que muda todo mês para aproveitar a sazonalidade dos ingredientes. Há duas opções de entrada, prato principal e sobremesa para os comensais escolherem um de cada – e ela harmoniza as bebidas de acordo com as escolhas. Comi sopa de abóbora com gorgonzola, truta com purê de batata doce e torta de maçã desconstruída de sobremesa (mas me arrependi um pouco de não ter escolhido os churros com doce de leite, que saem quentinhos). No almoço ou no jantar, a refeição custa R$ 140 por pessoa. Se preferir, é possível assistir ao pôr do sol degustando vinhos enquanto petisca na tábua de frios, por R$ 55.

Não visitamos, mas também foram recomendadas a Villagio Bassetti (villaggiobassetti.com.br; visita a R$ 40, abatidos na compra de vinhos), além da recém-inaugurada Leone di Venezia (leonedivenezia.com.br), que produz vinhos em pequenos volumes (até 25 mil litros por safra). 

Antes de dormir. “Ai, vocês chegaram tarde, mas espera que a mãe já vai fritar pastel quentinho pra vocês.” Foi assim que fomos recebidos para um jantar leve não na casa de uma tia, mas no Boulevard Café Colonial (Rua Manoel Joaquim Pinto, 12), em frente à praça principal de São Joaquim. Isadora atende a clientela no salão acolhedor, enquanto sua mãe, Maria, prepara doces e salgados, bolos, sopas, cafés, chocolates e sucos.

Os cafés com bufê livre são comuns na região. No de Isadora, custa R$ 30, com suco, café, chocolate incluído – e o alto-astral vem de brinde. “Cês não querem chocolate quente? A mãe prepara num instante! Ai, então espera que a gente vai esquentar a sopa pra vocês. Um suquinho, quer? Tem abacaxi com hortelã, fresquinho, a mãe faz na hora!” 

Comi sopa de capelete in brodo, tomei suco, comi o pastel quentinho e duas variedades de bolo, tudo delicioso. Na hora da despedida, Isadora se desculpou: “Que pena que vocês vieram tarde e já não tinha a rosquinha de coalhada (espécie de pão de queijo). Mas olha, dá uma ligadinha e avisa que vocês vêm que eu preparo uma fornada quentinha!”. Pode deixar, Isadora.

TRÊS VINHOS PARA TRAZER NA MALA (OU PROVAR AQUI)

Cave Pericó Rosé Brut

R$ 62 no Madrid

Este espumante rosé foge da regra ao usar um corte de 70% de Cabernet Sauvignon e 30% de Merlot, duas variedades que se adaptaram bem à serra. O resultado é uma bela coloração salmão clara, aromas de frutas vermelhas (cereja) e tropicais (goiaba) e boa estrutura.

Villa Francioni Joaquim Tinto

R$ 62 na Vinhos e Sabores

Bom para o dia a dia, este corte de Cabernet Sauvignon (50%) e Merlot (50%) de Bom

Retiro do Sul (SC) estagia por dez meses em barricas de carvalho francês novas. Vai bem com carne de cordeiro e com massas ao molho de funghi.

Quinta da Neve Pinot Noir 2011

R$ 126,50 na Decanter

Fieto com uvas cultivadas a 1200 metros de altitude, este Pinot Noir é fresco e delicado, com baixo teor alcoólico e muita versatilidade. Tem bons aromas frutados (frutas vermelhas frescas), corpo leve e foge do estilo ultra-amadeirado. Ideal para o clima tropical.

 

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