Tiago Queiroz|Estadão
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Como aproveitar São Miguel do Gostoso, no Rio Grande do Norte

Cidade é feita de momentos simples: caminhar na areia, curtir o pôr do sol, deitar na rede. E, quem sabe, praticar kite ou windsurfe

Tiago Queiroz, O Estado de S. Paulo

26 Janeiro 2016 | 05h00

SÃO MIGUEL DO GOSTOSO - São cinco horas da manhã e não há despertador, mas acordo sem esforço e me levanto. Da janela avisto pontos magentas tingindo o negro do céu. É a senha para sair rápido para a praia, a tempo de ver o espetáculo da aurora prestes a começar. São Miguel do Gostoso, a 120 quilômetros de Natal (RN), é feita desses momentos simples. Despertar cedo e caminhar descalço na areia. Voltar para a pousada e tomar o café preparado com esmero. Ler um livro espreguiçado na rede. Caminhar pelo centrinho e voltar à praia a tempo de ver o pôr do sol.

Emancipada há 22 anos da vizinha Touros, ali todo morador conta a história do senhor que morava no vilarejo e tinha uma risada gostosa. Aí de risada em risada, de prosa em prosa, o apelidaram de “Gostoso”. Uns dizem que ele era caixeiro viajante; outros, que tinha um armazém. Mas quase todos concordam que foi assim que a cidade ganhou o nome. 

O vento bate forte o tempo todo. Pudera: no mapa, Gostoso está bem na esquina do Brasil, onde o vento faz literalmente a curva. Para aproveitar esse recurso, em quase todas as direções avista-se gigantescos cata-ventos que geram energia eólica. Graças a essa ventania toda, virou referência para praticantes de kite e windsurfe, que se encontram na Praia do Santo Cristo. Ali se reúne gente de várias partes do mundo, principalmente italianos, espanhóis e franceses. 

No fim da tarde, é possível ouvir muitos desses sotaques no Jack Sparrow, um bar de drinques e (ótimas) porções ali mesmo no Santo Cristo. É fácil localizá-lo: basta prestar atenção na bandeira pirata fincada na areia. Cadeiras, espreguiçadeiras e atendimento atencioso dão o tom por ali – peça o ceviche e você não vai se arrepender.

 

Acordar cedo permite também presenciar pescadores em atividade. Na praia de Maceió se concentram boa parte dos barcos. De manhã as redes são retiradas da água: os homens agem rápido, com concentração. Entre eles, um senhor se destaca.

Apenas de bermuda, sem camisa e descalço, segurando alguns ariacós, peixe típico do lugar, é o líder do grupo. Trata-se de Chico Néri, de 78 anos, um dos mais velhos pescadores ainda em atividade. Chico Néri nem de longe aparenta a idade que tem. Pescador desde os 14 anos, mantém a disposição e não pensa em parar tão cedo.

Imaginação. Além de Santo Cristo, São Miguel tem como praias principais Maceió, Cardeiro e Xepa – na verdade, uma longa e contínua faixa de areia única. Um pouco mais afastada, a sete quilômetros do centro, Tourinhos faz o coração bater mais forte. Esculpidas pelo forte vento, as falésias no canto da praia ganham formas variadas para a imaginação correr solta – há quem veja os tais tourinhos ali. Prefira ir durante a semana, quando a calmaria é total. 

Para chegar lá, é possível ir de buggy ou quadriciclo, consultando a tábua das marés. Ou pedir para sua pousada chamar um mototáxi para te levar e combinar o horário da volta (em média, R$ 15). O caminho é por uma estradinha de terra que passa pelo povoado de Reduto – pare na casa da Associação das Labirinteiras, onde Fafá, Mariquinha, Noêmia e Francisquinha fazem delicados desenhos com furinhos em telas esticadas de pano, os tais labirintos.

Além da paisagem, Tourinhos encanta por sua agradável baía, de águas rasas e mansas. No canto direito, o restaurante A Tartuga, do italiano Giuseppe, serve o inesquecível risoto de caju – não é a castanha, é a fruta mesmo. A versão com camarões é ainda mais saborosa e faz o viajante querer voltar para provar (R$ 44). 

Além do restaurante, apenas dois trailers (quando abertos) atendem na praia. Na barraca do Luis Pescador provei o mais saboroso peixe da viagem, um ariacó grelhado na hora, acompanhado de arroz, feijão verde e macaxeira (cerca de R$ 30). O tempero é acrescido do carinho e receptividade com que o pescador e sua família tratam os visitantes.

A outra barraca, do Frango Assado do Dadá, também oferece comida honesta a bons preços. Dadá e Luis são irmãos e nativos do povoado de Reduto. Com orgulho, Luis me mostrou um dos cartões-postais de Tourinhos, o Suspiro da Baleia – uma pedra oca por baixo, com um furo em sua superfície. Quando a maré bate com força, provoca um esguicho de até três metros de altura. No horizonte, centenas das onipresentes torres eólicas servem de moldura para o pôr do sol, sempre espetacular.

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