Ilustração Farrell/AE
Ilustração Farrell/AE

Saqueador bem-intencionado

Nosso bem-humorado viajante viu sua caixa postal repleta de mensagens comentando a última coluna em que menciona as futuras novas taxas a serem, em sua opinião, cobradas nos aviões de carreira.

O Estado de S.Paulo

25 Maio 2010 | 01h55

Quase todas continham sugestões como "cobrar pelo uso dos cintos de segurança" (de autoria do leitor Wellington Savério) ou "pagar uma taxa especial para a utilização das portas de emergência" (criação da leitora Elena Miklos). Mr. Miles agradece aos colaboradores, mas informa que, em nenhuma hipótese, as empresas aéreas poderão onerar o uso de itens de segurança. A seguir, a pergunta da semana:

Prezado mr. Miles: durante todos esses anos de viagem, o senhor já fez alguma coisa que o envergonhasse? Rafaela Trindade, por e-mail

"Well, my dear, vamos deixar os desmandos etílicos de lado, porque esses, como os prezados leitores sabem, já os cometi em mais ocasiões do que gostaria de me lembrar e, na verdade, de muitos deles não me lembro de jeito nenhum. Confesso, however, que já pratiquei alguns atos atualmente considerados politicamente incorretos.

Tenho, em minha defesa, os chamados costumes e modismos de outros tempos. Houve uma época, indeed, em que eu não hesitava em capturar troféus de viagem, muito admirados e festejados. Trouxe ânforas que estavam largadas nas ruínas de Ephesus, pedaços de mosaicos romanos esquecidos na Tunísia, peças de cerâmica mochica vendidas por bagatela em terras peruanas e relíquias do povo nabateu que encontrei nos desfiladeiros de Petra. In fact, arrebanhei tais vestígios por vaidade, sem a noção de que estava saqueando tesouros históricos. A prática era tão aceita que, se você visitar a sede do Chicago Tribune, na cidade do mesmo nome, encontrará, encravadas na parede externa do edifício, inúmeras relíquias de valor orgulhosamente coletadas por seus jornalistas viajantes do início do século passado.

By the way, não foi de outra maneira que se forjaram os acervos de grandes coleções como as do British Museum, do Louvre e do Pergamon, em Berlim.

Hoje, guardo apenas, como talismã, um misterioso medalhão babilônico. As demais peças ? shame on me! ?, foram quase todas utilizadas como mimos estratégicos para seduzir mulheres mais renitentes.

Outra situação vergonhosa, que já tive a oportunidade de contar nessa coluna, diz respeito ao dia em que resolvi usar um barco para fotografar, com certo distanciamento, a ilha de Moorea, na Polinésia Francesa. O barco ? uma pequena piroga local ? tinha de esgueirar-se pela estreita passagem entre o anel de corais que envolve as praias do lugar. Fui muito bem-sucedido nessa manobra. Ocorre que, enquanto fotografava, entusiasmado pelo sol que ia desenhando novos contornos na paisagem, a piroga ficou à deriva. Quando tentei retornar, descobri que estava preso nas garras dos corais. Chamei, em vão, por socorro e quando a noite caiu? oh, my God: não me restou alternativa senão a de utilizar a força de meu remo contra as delicadas formações que me aprisionavam.

Essa minha confissão já provocou críticas desairosas de estranhas entidades, como a Sociedade Internacional de Defensores dos Corais, que me colocou em sua lista negra e um certo Grupo de Proteção do Patrimônio de Moorea, que me outorgou cinco sarongues pretos na sua relação de pessoas mal vindas à ilha.

Fique claro, my dear, que ao expor essas atitudes vergonhosas, estou fazendo um mea culpa público. Embora, até hoje, não tenha a mais remota ideia de que outra providência eu poderia ter tomado naquela situação. Don"t you agree?"

É O HOMEM MAIS VIAJADO DO

MUNDO. ESTEVE EM 132 PAÍSES E

7 TERRITÓRIOS ULTRAMARINOS

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