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Sarampo e as viagens

Surto da doença segue trajetória crescente em vários destinos turísticos pelo mundo. Vacine as crianças

Mônica Nobrega, O Estado de S.Paulo

16 de abril de 2019 | 03h05

Em fevereiro de 2015, dois meses depois que um surto de sarampo teve início na Disneylândia de Anaheim, Califórnia, e chegou a 52 casos confirmados, um texto contundente de um pai norte- americano ganhou alguma repercussão nas redes sociais. Pediatra, ele endereçou sua carta aberta “Ao Pai da Criança Não Vacinada que Expôs Minha Família ao Sarampo”.

O texto explica como a decisão de pais e mães assumidamente antivacina causou risco de morte ao seu bebê, então com 10 meses, e à sua filha mais velha, que seis meses antes havia sido diagnosticada com leucemia e era, portanto, uma criança com a imunidade comprometida. 

Exames mostraram que os filhos do pediatra haviam tido contato com o vírus do sarampo. Tiveram de ficar em quarentena num hospital, e uma das consequências foi que a família cancelou as férias na neve, justo quando acreditavam que teriam um período de tranquilidade depois de meses de quimioterapia da menina. 

O caso me fez lembrar que também a minha família já havia cancelado férias por causa do sarampo. Minha irmã do meio, então com 7 meses de idade, pegou a doença num mês de dezembro, o que nos obrigou a trocar as sete ondas na praia por um réveillon trancados no nosso apartamento.

Mas isso foi lá no século passado. Neste, o sarampo vinha se tornando doença erradicada – isto é, sem circulação contínua – em um número grande de países. 

Já não é mais. O Brasil, com 10.326 casos em 2018, acaba de perder o certificado de país livre do sarampo pela Organização Panamericana de Saúde. O mais triste é que se trata de doença evitável por meio da simples, eficaz e segura vacinação, aplicada no SUS, sem custo. 

O surto chegou aos cruzeiros brasileiros: em fevereiro, 18 tripulantes a bordo do MSC Seaview foram confirmados com a doença. 

Nos Estados Unidos, Flórida, Califórnia e outros 17 Estados já confirmaram casos esse ano. Na cidade de Nova York, com 258 ocorrências desde setembro, o debate público atual gira em torno de uma proposta do prefeito Bill de Blasio de aplicar multas de US$ 1 mil a moradores, trabalhadores e estudantes das áreas foco do sarampo que não conseguirem comprovar que já foram vacinados ou não aceitaram tomar a vacina quando abordadas por uma espécie de agente de saúde. Williamsburg, no Brooklyn, é uma delas. 

Na Europa, segundo a Organização Mundial de Saúde, o número de casos triplicou em 2018 em relação ao ano anterior. Foram 82,5 mil ocorrências, com 72 mortes. O Uruguai, que não registrava casos desde 1999, confirmou na última terça-feira a sua segunda ocorrência em 2019. 

Como evitar. De um só jeito: tomando a vacina, disse o infectologista Marcus Vinícius da Silva, do Hospital Emílio Ribas, que atende no Ambulatório do Viajante. “Quem tem as doses em dia não precisa se preocupar ao viajar para áreas de risco: está protegido”, afirmou. 

No calendário brasileiro, crianças tomam a primeira dose aos 12 meses e a segunda, entre 4 e 6 anos. Quem ainda não foi vacinado precisa receber a dose no mínimo 15 dias antes da viagem.

O infectologista lembrou que o sarampo é uma doença grave e altamente contagiosa. A transmissão do vírus se dá pela fala, tosse ou espirro. “No caso dos viajantes, as concentrações em aeroportos, dentro dos aviões ou nos navios, como já aconteceu, são situações de alto risco”, lembrou. Para completar, a pessoa contaminada começa a transmitir o vírus quatro a cinco dias antes de apresentar sintomas. 

E se tudo isso não for motivo suficiente, se você ainda prefere teoria da conspiração à ciência, se não vacina seus filhos porque acha que criança saudável não precisa de imunização ou que elas causam autismo (não causam), mais uma informação: os Estados Unidos exigem comprovação de uma série de imunizações, inclusive contra o sarampo, para emitir o visto de estudante para jovens intercambistas. 

É isso mesmo: sem vacina, não vai ter high school nos States para os seus filhos – nem no Canadá, na Austrália, em parte da Europa. 

Eu acho é pouco. 

Leia mais: Países exigem vacinas para conceder visto de estudante; saiba quais e onde tomar

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