Moris Moreno/The New York Times
Moris Moreno/The New York Times

Seguindo os passos de Usain Bolt na Jamaica

Com as coordenadas do maior velocista de todos os tempos, repórter viaja até o país, descobre suas belezas e a euforia de um corredor

Steve Knopper, The New York TimesS

12 Agosto 2016 | 08h30

Para chegar a Sherwood Content, cidade natal do astro jamaicano Usain Bolt, alugue um Toyota Yaris no Aeroporto Internacional Sangster em Montego Bay e siga por 43 quilômetros ao longo de estradas estreitas e sem sinalização, através de plantações de cana de açúcar, desviando para evitar buracos imensos, cabras e motoristas que gritam pela janela do carro oferecendo "a boa".

Depois de passar por cima de um desses buracos, pegue o macaco para trocar o pneu. Os parafusos estão muito apertados, por isso faça sinal para dois jovens que, gentilmente, mas sem dizer uma palavra, removem o pneu furado e colocam o estepe. Dirija mais lentamente e com cuidado, passando por casas de tijolo em tons pastéis e barracos de madeira, até chegar a um marco de concreto em frente ao correio, que mostra Bolt como "o homem mais rápido do mundo".

Nessa altura, já são duas da tarde, faz 27°C e o ar está úmido. Minha filha de 13 anos, Rose, e eu amarramos o tênis e começamos nossa primeira corrida na Jamaica.

Há anos quero ser um corredor. Meu pai corria de 8 a 11 quilômetros diariamente e falava quase que misticamente sobre a euforia que lhe permitia resolver os problemas em sua cabeça. Minha mãe também corria todos os dias.

Mas eu nunca consegui superar os 2.414 metros mensais, mesmo assim, esporadicamente. Meu exercício é um jogo de basquetebol semanal, mas, aos 47 anos, estou sentindo a tensão nos joelhos e tornozelos; correr parece ser uma maneira mais eficiente e menos brutal de se manter a forma.

Dez anos atrás, quando mostrei interesse em seguir seu exemplo, meus pais me compraram um par de Adidas Supernovos e meias especiais. Até eu e Rose chegarmos à Jamaica, no final de março, ele ficou na sapateira, sem ser usado desde a última vez em que tentei correr, há três anos.

Para ultrapassar a marca dos 2.414 metros, decidi visitar um dos países mais célebres do mundo no quesito corrida: a Jamaica, onde Bolt, vencedor de quatro medalhas de ouro olímpicas, corria quando era pequeno, na aldeia de Sherwood Content.

Como seus colegas Yohan Blake e Shelly-Ann Fraser-Pryce, Bolt é um velocista, não um corredor de longa distância, mas a ilha ficou conhecida por suas maratonas, 5Ks e outras corridas de rua nos últimos anos, incluindo a Maratona do Reggae, em Negril, que ocorre todo mês de dezembro.

"A Jamaica é mais adequada para a velocidade do que às longas distâncias, mas temos muitas colinas, um clima maravilhoso, interior e litoral lindos, que fazem dela um lugar agradável para se correr longas distâncias também", escreveu Bolt em um e-mail.

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Seguindo suas recomendações de bons lugares para correr, Rose e eu percorremos toda a ilha, tentando absorver as inúmeras variáveis regionais que transformaram Bolt, Blake e outros contemporâneos em grandes corredores.

A Jamaica é conhecida por esse esporte desde o início de 1900, quando G.C. Foster, que passou a juventude caminhando e pedalando pelas colinas que rodeiam sua cidade natal, Kingston, fez o tiro de 91 metros em 9,8 segundos nos campeonatos de atletismo da ilha.

De acordo com o jornal The Jamaica Gleaner, ele tomou um barco que transportava bananas e foi para os Jogos Olímpicos de 1908 em Londres; lá, descobriu que a Jamaica não era afiliada aos Jogos e, portanto, não poderia participar. Mas Foster abriu a porta para inúmeros campeões de atletismo ao longo dos anos: Arthur Wint, Merlene Ottey, Veronica Campbell-Brown, Asafa Powell.

Embora Bolt houvesse sugerido uma corrida ao longo do Rio Martha Brae, perto de Sherwood Content, não conseguimos ir muito além da agência dos correios de sua cidade natal. Nossas desventuras com os buracos na estrada acabaram com a manhã e fiquei preocupado de dirigir no escuro sem estepe. Então Rose e eu paramos na beira da estrada, amarramos o tênis e corremos por uma faixa da rua asfaltada no centro da vila.

Era domingo de Páscoa, muitos habitantes locais de terno e vestido iam à missa, mas a visão de turistas americanos de tênis de corrida, suando no calor do meio-dia, foi demais para os transeuntes. Uma criança sentada no banco de trás de um carro estacionado zombou de nós quando passamos: "Corre! Corre! Corre!".

Acordamos na manhã seguinte no nosso hotel, o Meliá Braco Village, em Rio Bueno, um resort à beira-mar no extremo norte da região de Bolt, Trelawny, animados para experimentar o próximo local de corridas de longa distância da lista que ele havia fornecido.

Primeiro, porém, tivemos que parar na pequena cidade de Duncan, onde dois jovens filhos de um pescador local removeram três dos nossos pneus e martelaram os aros tortos do Yaris para que voltassem à sua forma redonda, cobrando o equivalente a US$8.

Então partimos para Negril, um trajeto de duas horas rumo ao lado oeste da ilha.

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Porque não nos hospedamos em um dos muitos hotéis da cidade, tivemos de encontrar outra maneira de chegar à praia, dando uma volta por uma pequena feira de arte. Atrás do mercado havia um grupo de churrasqueiros ouvindo música no último volume, pelos quais tivemos de passar a caminho da praia.

Finalmente, chegamos à areia. Foi difícil correr ali, especialmente com meu Adidas volumoso, mas o mar azul-esverdeado do Caribe era um cenário tão cintilante que não nos importamos e corremos os 2.414 metros.

No dia seguinte, fomos para Kingston. Escolhemos o Spanish Court Hotel como nossa base na cidade por estar no centro, a três quarteirões de outra indicação de Bolt, o urbano Emancipation Park.

Ficava também a uns dois quilômetros de carro do Mona Reservoir, local popular de corrida.

Tentando começar mais cedo, nos enchemos de banana frita e mamão no bufê do hotel e fomos para o lado leste de Kingston.

Às nove, quando chegamos, uma segurança disse que o reservatório estava fechado até a noite por causa da baixa demanda diária – ninguém corre nas horas mais quentes. Nós imploramos, e ela, relutantemente, abriu os portões para nos deixar entrar por 20 minutos.

Estacionamos em uma área de terra batida, subimos uma colina e chegamos a um inesperado novo mundo, longe do tráfego pesado e da poluição do ar de Kingston. O reservatório é deslumbrante, verde-escuro, com um formato oval, se estendendo além da nossa visão, com as colinas orientais como pano de fundo.

Borboletas voavam enquanto percorríamos o trajeto plano de 2,6 km. Aquele parecia ser o local ideal para ultrapassarmos nossa distância padrão de 2.414 metros, mas tínhamos apenas 20 minutos, então corremos o mais rápido possível, para longe, antes de retornarmos para o Yaris.

Eu me sentia desanimado quando chegamos ao centro de Kingston, o Emancipation Park, rodeado por uma cerca de ferro batido que o separava de edifícios de escritórios marrons e monótonos. As nuvens apareceram e, pela primeira vez desde que chegamos à Jamaica, começou a chover, uma garoazinha leve que dispensava guarda-chuvas e capas. No parque, passamos pela escultura de bronze de Laura Facey, "Redemption Song", um homem e uma mulher nus olhando para o céu, e encontramos uma pista de corrida de meio quilômetro.

Comecei a pensar: Por que estou fazendo isso? Quem viajaria até a Jamaica para aprender a correr? Por que, como qualquer outro corredor, eu não podia simplesmente ir até a calçada de casa e começar? Qual era a dificuldade?

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Então, pensei nos meus pais. Ele morreu em 2008; ela tem Alzheimer e já não corre mais. E me lembrei de que tinham me convidado para correr com eles várias vezes, na estrada de terra perto de onde moravam, em Boulder, Colorado, mas sempre recusei.

Enquanto eu suspirava e ofegava pela pista do parque, me peguei desejando ter aceitado seus convites. Então me perguntei como meu pai teria reagido se lhe contasse sobre essa estranha aventura de corrida na Jamaica. "Estou orgulhoso porque você tentou", ele diria.

E percebi: "É a euforia do corredor. Consegui!".

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