Sem arroz, nem feijão

Depois de encher Trashie de alegria nas temperaturas negativas de Queenstown, na Nova Zelândia, nosso viajante anuncia que virá ao Brasil passar alguns dias praticando kite surfe na praia do Preá, no Ceará

Mr. Miles*, O Estado de S.Paulo

18 Julho 2017 | 00h20

Quem tiver sorte, talvez o veja. A seguir, a pergunta da semana:

Querido Mr. Miles: meus pais sempre acalentaram o sonho de viajar para a Europa pelo menos uma vez na vida. Agora, ambos com mais de 65 anos, finalmente foram até lá para visitar Portugal (minha mãe é devota de Nossa Senhora de Fátima), Espanha, França e Itália. Para minha surpresa, logo após sua chegada ao Velho Mundo, minha mãe começou a me enviar e-mails chorosos, cheios de saudades, dizendo-se arrependida de ter saído do Brasil. Isso é normal? O que devo dizer para animá-la?  

Natasha Soares Tonini, por e-mail

Well, my dear, sinto muito por sua mãe que, however, ao final, trará boas recordações e histórias dessa jornada que, por enquanto, parece um calvário. Pessoas que levam muito tempo para deixar o país pela primeira vez costumam sofrer uma espécie de Síndrome do Ninho Abandonado, assim batizada pelo Tratado Geral de Viajologia, Sintomas e Reações, segundo volume da caudalosa obra do professor Max. L. Störme, intelectual da Universidade de Heidelberg, na Alemanha. Trata-se de um compêndio que eu não recomendo a ninguém, em razão de sua linguagem rebuscada e de seus raciocínios tortuosos.

O emérito pensador acerta, however, quando define a completa insegurança que acomete alguns peregrinos que, tarde demais, experimentam as transformações inerentes à experiência de viajar. De acordo com ele, a ausência de referências cotidianas – vizinhos, filhos, alimentos, idioma e até o telefone do eletricista – provoca, nessas pessoas, uma angústia que supera e obnubila o prazer da descoberta e a realização do sonho. Segundo as estatísticas do professor alemão que, para dificultar even more, escreve em gótico, cerca de 8,73% dos viajantes na condição de sua progenitora apresentam os seguintes sintomas:

1. Pavor instantâneo: no exato momento do desembarque, antes mesmo da imigração, o paciente (agora na linguagem de Störme) é acometido por uma ligeira vertigem. Assomam-lhe as lágrimas e a pergunta fatal: ‘O que é que eu estou fazendo aqui?’.

2. Sensação de história encerrada: segue-se a constatação de que tudo o que o paciente mais prezou em sua vida – filhos, netos, jogos de buraco e a novela das nove – ficou irremediavelmente perdido no passado, como se os quilômetros percorridos a bordo do avião fossem anos que não voltam mais.

3. Patriotismo inexplicável: de um momento para o outro, tudo o que lhe é apresentado parece, por consequência, muito pior do que em seu país de origem. As ruas são mais estreitas, as pessoas mais mal-educadas, as camas mais malfeitas e a comida, well, a comida é, definitely, um horror.

Eis por que, darling, uma notável porcentagem dos turistas de primeira viagem já está, no segundo dia de roteiro, à caça de um restaurante brasileiro. E, se ouve no rádio do táxi aquela obra-prima de Michel Teló (‘delicious, delicious…’) põe-se a chorar de uma nostalgia incontrolável.

Para ‘pacientes’ brasileiros, by the way, não há decepção que se compare à constatação de que nem mesmo os melhores pratos da cozinha local vêm acompanhados de arroz e feijão. É o golpe definitivo.

A boa notícia, dear Natasha, é que mesmo torturada pelas sensações acima descritas, a alma humana é sempre capaz de capturar o belo e o novo. Um jardim florido, o aroma da primavera, o sabor de um doce e o espanto das atrações que surgirão pelo caminho terão o condão de penetrar a carapaça de aparente sofrimento e, ao fim e ao cabo, são elas que formarão a memória da viagem. 

Believe me, darling: ao voltar ao Brasil e recuperar tudo aquilo que parecia irremediavelmente perdido, sua mãe trará lembranças formidáveis. Os sintomas surgidos no início da viagem terão desaparecido e nunca serão mais do que passagens engraçadas, quando relembrados nas rodas de conversa.

A seletividade da memória – tema de outro capítulo do Tratado de Störme – vai se encarregar de acabar com o arrependimento. E, não duvide: em poucos dias sua mãe estará acalentando o sonho de uma nova viagem. Que, essa sim, será ainda muito melhor.” 

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*É O HOMEM MAIS VIAJADO DO MUNDO.

ELE ESTEVE EM 183 PAÍSES E  

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